Sobre banheiros, mulheres, Beauvoir e as travestis

Leandro Colling

Publicado no site Cultura e Sexualidade, em 10 de janeiro de 2014

simonedebeauvoirNo dia em que o mundo comemorou os 106 anos de nascimento de Simone de Beauvoir, a feminista mais conhecida do mundo, recebi, logo cedo, uma mensagem de Carla de Freitas, integrante de nosso grupo de pesquisa que estuda o universo trans, sugerindo que o CUS se manifestasse sobre um ato de transfobia que ocorreu no Shopping Barra, em Salvador.

Vinte e uma pessoas que trabalham no Shopping, em sua maioria mulheres, fizeram um abaixo assinado para impedir que uma travesti, funcionária de uma lanchonete do mesmo centro de compras, continue usando o banheiro feminino. Lançamos a nota (que pode ser lida aqui), mas eu gostaria de aproveitar esse caso para pensar mais um pouco sobre gênero feminino (tema central na obra de Beauvoir), sexualidade, o que os banheiros públicos fazem conosco e as normas que nos regem nesse campo.

Vou começar com uma frase que o jornalista Ricardo Ishmael, da TV Bahia, postou em sua rede social. Ele teria ouvido um jovem, de cerca de 19 anos, bradando: “banheiro feminino não é lugar de travesti”. Mas qual é mesmo o lugar que reservamos para as travestis? Qualquer pessoa minimamente informada sabe a resposta. Preferimos ter as pessoas travestis nos piores lugares e elas sequer cabem nos nossos banheiros, sejam elas masculinos ou femininos. E por quê?

A travesti em questão é uma exceção à regra porque conseguiu entrar no tal mercado formal de trabalho. Mas, como esse caso nos mostra, sua batalha deve ser diária, pois sequer tem a tranquilidade de usar o banheiro feminino, gênero com o qual ela se identifica.

Mas por que sempre ocorre esse pânico sexual quando alguma pessoa trans resolve usar o banheiro? Lembram do caso Laerte (veja aqui)?.As respostas podem ser várias e bem mais extensas do que vou escrever aqui neste texto. Vou desenvolver apenas uma delas.

A divisão dos banheiros entre masculino e feminino é uma das formas com as quais a sociedade tenta manter o controle sobre os nossos gêneros e também sobre as nossas sexualidades (basta estudar como os banheiros públicos foram criados na história). A sociedade tenta, violentamente, mas nem sempre consegue. Esta divisão é feita dentro de um esquema absolutamente e absurdamente dicotômico e baseado na genitália da pessoa. A identidade de gênero, ou como a pessoa performa o seu gênero (como se comporta, gesticula e se veste, por exemplo) pouco importa nessa imbecil, autoritária e, repito, violenta divisão.

Para solucionar o problema, algumas pessoas sugerem a criação de um terceiro banheiro, exclusivo para as pessoas travestis. Ou seja, para combater uma exclusão, cria-se outra exclusão, um local identificado, obviamente, como dos restos de nossa sociedade. Ao invés disso, diversas pessoas ligadas aos estudos mais recentes do campo das sexualidades e dos gêneros, aos quais me filio, têm proposto algo muito mais radical (no sentido de ir na raiz do problema): acabar com a divisão de gênero nos banheiros públicos.

Por que não dividimos os banheiros por gêneros em nossas casas, ou até na maioria dos aviões, por exemplo, e fazemos isso no espaço público?

Quando alguém propõe isso, os preconceituosos de plantão (os piores são aqueles que justamente começam as suas frases assim: “olha, eu não sou preconceituoso, mas…”) gritam. As mulheres, que entendem por mulheres apenas quem tem vagina, dizem que temem ser estupradas pelos homens (claro, todos como uns tarados incapazes de controle, não é?) ou alegam que os mijões não sabem fazer xixi sem molhar metade do banheiro (todos eles uns porcos que não podem ser educados para acertar a pontaria ou que sejam, inclusive, orientados a mijar sentados também. Ou a masculinidade deles é tão frágil que sucumbirá ao ato de mijar sentado?).

As duas alegações não se sustentam e só demonstram, mais uma vez, como as pessoas insistem em encontrar razões para justificar os seus tremendos preconceitos, que nascem exatamente nesta rigidez das normas sobre as sexualidades e os gêneros.

Normas que Simone de Beauvoir muito bem estudou e denunciou, mas que ainda não alcançavam, de modo direto, a realidade das pessoas trans, apesar dela ter ficado conhecida com a célebre frase “não se nasce mulher, torna-se”. Dentro deste universo trans, existem pessoas que, independente da genitália que possuem, se identificam como mulheres, ou seja, tal qual as mulheres com vagina, também se tornaram mulheres ao longo da vida.

Ou seja, há muitas formas de ser mulher, tendo vagina ou não, e a sociedade precisa respeitar a forma como cada pessoa se identifica. Por isso, muitas outras simones precisam existir.

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