Famílias pela Diversidade: sobre Alexandre Garcia, “ideologia de gênero” e opressões históricas e covardes

http://www.cartapotiguar.com.br/2015/12/23/a-proliferacao-da-ignorancia/

(Imagem: www.cartapotiguar.com.br)

Nesta semana, ativistas sociais e outras pessoas sensíveis à causa LGBT foram surpreendidas (na verdade, não tanto) por um comentário feito pelo jornalista Alexandre Garcia, sobre o que segmentos conservadores e reacionários denominam “ideologia de gênero”, em áudio que se tornou viral em redes social. O coletivo nacional Famílias pela Diversidade opõe-se à flagrante disseminação de ignorância promovida pelo jornalista e aponta abaixo aspectos que merecem especial destaque.

Primeiramente, é preciso dizer que a discussão de gênero nas escolas possui uma relação muito mais estreita com a promoção da igualdade do que exclusivamente com a ideia de que os gêneros são construídos, que vem a ser uma defesa da Teoria Queer, por exemplo. Não desmerecendo a importância dessa linha de raciocínio legítima, o coletivo entende que este é um contexto que deve ser percebido e uma abordagem a ser analisada inclusive para além da escola, mas não é ponto nevrálgico da presente discussão.

O que se prega efetivamente quando se discute ensino de gênero nas escolas é a postura equânime ao se colocar meninas e meninos juntos ou ainda o necessário exercício do respeito ao outro quando se identifica uma aluna ou colega trans ou lesbiana, um aluno ou colega trans ou gay. O objetivo é basicamente este: quebrar com o padrão heteronormativo do homem branco, cisgênero, dono da carne seca.

O áudio de Garcia demonstra como ele e muitas outras pessoas desconhecem completamente a discussão sobre gênero nas escolas, apropriam-se de um subitem desse assunto e discorrem sobre ele de modo bastante equivocado, sem leitura e com uma abordagem tão profunda quanto um pires. O problema é que, lamentavelmente, essas pessoas têm voz, espaço e público, enquanto nós, pessoas e ativistas LGBT, temos muito pouco, constituindo assim uma guerra de braço bastante desproporcional e injusta.

Outro aspecto a destacar e contestar aqui é a citação, por Garcia, à Associação Americana de Pediatria, uma entidade nascida no país do criacionismo, onde multinacionais mandam e alteram resultados de pesquisas. Se alguém considera o país como grande influência por conta do renome do Hospital Johns Hopkins, por exemplo, é preciso lembrar que existe muito lixo de nenhum valor ou de valor questionável sendo produzido em pesquisas científicas quando há dinheiro envolvido e um contingente de pessoas que teme pela alteridade do poder.

Sim, estamos falando em instâncias históricas de poder quando discutimos gênero. É curioso observar Garcia falando sobre ciência, sexo biológico e genética. Essa ciência positivista que ele se arvora defender é a mesma que até o início da década de 70 declarava que a homossexualidade era uma doença. É a mesma que, até o início do Século XX, afirmava que a mulher tinha um cérebro menor que o do homem e, por essa razão, raciocinava de modo menos eficaz, o que justificava a posição de inferioridade delas.

É sempre bom e imprescindível lembrar que as pseudo-pesquisas bioantropológicas foram utilizadas para legitimação do poder do homem branco, ao afirmar que as características levantadas por Cesare Lombroso denotavam inclinação para delinquência naquelas pessoas com biotipos negros. Ou ainda quando Montesquieu defendia a “necessidade” da colonização e escravização de raças “inferiores”. Contemporaneamente, em 2007, o prêmio Nobel de Medicina James Watson (americano, diga-se de passagem) declarou que brancos são mais inteligentes que os negros, para, alguns anos depois, desculpar-se publicamente alegando que não há a menor evidência científica com relação ao que havia afirmado.

Essa ciência positivista cometeu erros no passado e continua a cometê-los. Pior é perceber que, para que esses erros sejam revistos, é preciso que uma hecatombe caia sobre ela e que outras instâncias de investigação demonstrem os equívocos por ela cometidos. E, nem assim, esta ciência positivista digna-se a ter a humildade de fazer um mea-culpa, mas apenas alterar os seus padrões depois de deixar um longo rastro de muito estrago por conta da sua irresponsabilidade.

Mas prossigamos com as declarações de Garcia. Ele ainda apregoa que esse binarismo masculino x feminino (bastante reducionista, convenhamos) é condição essencial para que seres humanos se reproduzam e assim garantam a perpetuação da espécie, como se nossa espécie estivesse, em alguma perspectiva, sob risco de extinção por não procriar. Mais absurdo ainda é ele não compreender que a alteridade da construção binária homem x mulher para um espectro maior não compromete em absolutamente nada a capacidade ou a continuidade reprodutiva da espécie humana. Perdão, Garcia, mas a ignorância reinou aqui.

E a ignorância continua. Ao final do áudio, lista os riscos físicos que a hormonização pode causar, ignorando completamente que, para uma pessoa transgênera, hormonizar-se não é uma questão de escolha. A construção de sua própria identidade é essencial para o sujeito social, e a impossibilidade dessa construção é razão do número elevado de suicídios entre os transgêneros. Riscos sempre haverá, mas toda ingestão medicamentos, não apenas hormônios, gera efeitos colaterais. É só ler as bulas.

A verdadeira questão a ser tocada é: nem mesmo médicos são os melhores indicados para declarações sobre transgeneridade. A formação do indivíduo e sua construção de gênero não é da esfera médica. Muito menos de um mero homem branco burguês que já foi porta-voz de um presidente militar durante a ditadura e que foi exonerado por dar uma entrevista a uma revista, onde expôs todo seu machismo ao aparecer numa cama, de cuecas, dizendo que ali “abatia as suas lebres”.

Mas não é muito difícil decifrar as intenções contidas nas entrelinhas do discurso de Garcia que, em outro exemplo de desconhecimento ou intencional má-fé, fala em “terceiro sexo” misturando sexo e gênero, promovendo assim mais desinformação e confusões. Utilizar-se da expressão “identidade” de gênero no lugar de “educação de igualdade de gêneros” diz muito sobre a qual grupo ele está dando voz, quem Garcia representa e, definitivamente, ele não representa nenhum LGBT.

O exemplo do áudio desse jornalista ilustra e endossa mais um estrago da ciência e dos pensamentos obtusos que corroboram a opressão histórica contra pessoas LGBT em atitude que demonstra, na verdade, um tom de medo de um exemplo bem acabado de homem branco, cisgênero, heterossexual, conservador, burguês e covarde.

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8 thoughts on “Famílias pela Diversidade: sobre Alexandre Garcia, “ideologia de gênero” e opressões históricas e covardes

  1. Sim. Gerero é uma discussao filósofica e sexo é questao de biologia. Este senhor até hoje, por sem homem público, nao consegui explicar a morte do filho em 2014 em provavel suicidio. Será que é possível alguma pista agora?!

  2. Já que o ilustre autor citou que ‘é preciso lembrar que existe muito lixo de nenhum valor ou de valor questionável sendo produzido em pesquisas científicas quando há dinheiro envolvido e um contingente de pessoas que teme pela alteridade do poder’, isso vale para um pretenso trabalho de pesquisa que sustenta que a transgenia é um processo natural que ocorre durante a formação do feto. Bem, eu prefiro acreditar que se trata de uma fraude científica, pois, caso contrário, não há mais como negar que a transgenia é, de fato, uma doença, posto que resulta de uma má formação, de um desvio na formação do indivíduo. Também quando o texto fala que ‘objetivo é basicamente este: quebrar com o padrão heteronormativo do homem branco, cisgênero, dono da carne seca’, em referência à ideologia de gênero, nos dá motivos para preocupações verdadeiras, pois que prega que o anormal deve subjugar o normal, como se nós, héteros, é que fôssemos errados, enquanto gays (não acredito, já disse, em trans), esses, sim, embora o padrão biológico demonstre o contrário, esses são o novo padrão biológico humano. Ou seja, sem catástrofe ambiental, sem hecatombe, sem cataclismos, estarão determinando o fim da espécie humana. Que patético! Já que o fim da linhagem humana deve chegar, desejava que fosse, ao menos, algo mais apoteótico, como o choque de um super asteroide com a Terra, e não assim, vencidos por uma ideologia infame e perniciosa.

      • Não costumo dar voz a opressores e não me sinto intimidado por sua chantagem porque eu não tenho nada a temer. Não sei se você se deu conta, mas meu site não é financiado por absolutamente ninguém. Ele é um site independente! Entendeu ou quer que desenhe? Repito: independente! Eu não tenho nada a perder e não estou nem um pouco preocupado com a audiência de pessoas da sua laia.

        Mas eu faço questão de divulgar seu comentário para tornar pública sua opinião patética e sem base científica. Por exemplo, o que você quer dizer com “o anormal deve subjugar o normal, como se nós, héteros, é que fôssemos errados, enquanto gays (não acredito, já disse, em trans), esses, sim, embora o padrão biológico demonstre o contrário, esses são o novo padrão biológico humano”? Quem disse isso? Quem estabeleceu que uma orientação sexual é normal e outra anormal? Ah, sim, vocês, heterossexuais. Além disso, que “contrário” é esse que o padrão biológico demonstra? Sua opinião é baseada em parâmetros científicos ou religiosos? Onde está esse “novo padrão biológico humano”? Nós homossexuais já existimos há milênios!

        E que história delirante é essa de que “sem catástrofe ambiental, sem hecatombe, sem cataclismos”, homossexuais “estarão determinando o fim da espécie humana”? Eu não consigo nem interagir com um argumento estapafúrdio como esse. Vá estudar e entenderá que essa história de extinção da espécie humana é coisa de gente ignorante, para dizer o mínimo, com uso de muito eufemismo.

    • kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk…. coitada. Patética e apoteótica é sua mentalidade mesquinha e medonha. Não vou entrar na parte da biologia, pq vc foi um desastre nessa área (faço doutorado em ecologia, tenho domínio suficiente pra argumentar, mas não vale a pena). Mas a pergunta básica é, porque vc se preocupa tanto com o algo além da heterossexualidade? Se o medo for a extinção, melhor uma extinção, mesmo q ilusória, causada por um mundo gay e q não se reproduz, teremos velhinhos felizes, realizados e libertos, do que uma extinção por bombas e guerras estúpidas, causadas pelo poder da testosterona irracional do “heterodementes”, como vc, por exemplo. Quanto a “normal ou anormal”. Linda, pesquisa no google, dá uma olhada rapidinha quantos milhares de animais, na natureza, NATURALMENTE tem relação homossexual. Quanto a trans, pesquisa sobre libélulas andromórficas. Até nos insetos tem “trans”, e estão lá, todos felizes, fudendo e procriando livremente. Agora eu tenho certeza, só humano tem fobias e distúrbios de personalidade e distúrbio social. Vc deve ser uma delas. Coitada, até uma barata pode se relacionar no seu meio, melhor q vc.
      Vá estudar um pouco mais.
      Abra sua mente e VÁ CUIDAR DA SUA VIDA.
      VÁ SER FELIZ. Sabe porque linda, tem muita gente sendo feliz e sua amargura só vai matar a vc.
      Beijinho na asa, pq galinha não tem ombro.
      kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
      Desculpas ao pessoal do blog, mas eu não podia perder a piada…

    • Resposta de Adriana Sampaio, também autora do texto:

      Em primeiro lugar, a criatura pressupõe que os autores do texto ou pessoas dos estudos de gênero e teóricos queer sustentam que a transgeneridade seja algo congênito ou de caráter genético. Essa sim é uma teoria sem fundamento e patologizante, desenvolvida por gente como ela, que categoriza pessoas como “normais” e “anormais” baseada simplesmente em achismo e preconceito. Transgêneros são comuns a todas as civilizações em todo o processo histórico. Classificar uma minoria de anormal é atitude comum aos opressores e já justificou massacres de índios, negros, gays e judeus em campos de concentração e é a base da eugenia. Essa também uma pseudociência utilizada como aparato ideológico. Daí o termo que essa pessoa usa, “ideologia” ser completamente inadequado aos estudos de gênero. Se ela se der ao trabalho, pode procurar o significado do vocábulo em dicionários.

      Por fim dizer que os estudos de gênero pregam a submissão da maioria por uma minoria (seja ela qualquer) só revela que a pessoa jamais se deu ao trabalho de estudar as teorias de gênero e se baseia em teses fundamentalistas. Acreditar que transgêneros querem “dominar o mundo” denota não ingenuidade intelectual mas medo aliado à ignorância. O que os transgêneros buscam é a inclusão social, direito à existência reconhecida. São pessoas que trabalham, pagam impostos mas têm expectativa de vida menor que 35 anos porque são assassinadas. Ou seja, essa pessoa afirma que os transgêneros querem dominar o mundo pq estão lutando pelo direito de não serem assassinadas? Ninguém afirma, além dela mesma, que são um novo padrão biológico humano. O movimento trans não afirma isso. Nem o movimento LGBT quer transformar todos em gays e pôr fim à humanidade por não procriarem (sim, isso é ironia). Essas teses só refletem um profundo desconhecimento histórico, uma total falta de empatia pela diversidade humana e uma condução intelectual orientada pelo ódio.

  3. Eu vou é sambar na apoteose que ganho mais do que lendo essas Marly da vida… a turma que adora fazer exibição orgulhosa da própria ignorância.

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