O decoro: sobre o caso Jean Wyllys

Jean Wyllys é acusado de quebrar o decoro parlamentar porque teria “cuspido” na direção do deputado Jair Bolsonaro, mas muitos de nós faríamos o mesmo que o deputado

O deputado Jean Wyllys (Foto: Wilson Dias/ Agência Brasil)

Marcia Tiburi*
Publicado pela Revista Cult, em dezembro de 2016

Atualmente o deputado Jean Wyllys, um personagem político raro por sua honestidade e qualificação para o cargo em uma Câmara de Deputados caracterizada justamente por sua desqualificação, sofre um ataque ímpar. O deputado Ricardo Izar, sobre quem me reservo o direito de nada dizer, na qualidade de relator do Conselho de Ética, votou em um processo administrativo pela suspensão do mandato de Jean Wyllys por 120 dias.

Jean Wyllys é acusado de quebrar o decoro parlamentar porque teria “cuspido” na direção do deputado Jair Bolsonaro. Sabemos que naquele dia Jean Wyllys foi agredido verbalmente, chamado de “bichinha”, de “veadinho” e outros termos homofóbicos. Não é a primeira vez que isso acontece. Não é a primeira vez que Jean Wyllys tem que suportar agressões desse tipo, digamos assim: apenas por ser quem é. Ofendem e tentam humilhar Jean Wyllys constantemente. Por ter a bravura de defender as causas que defende e por afirmar-se, corajosamente, como homossexual ele paga um preço alto.

Relativamente ao “cuspe”, como reação a um contexto de reiteradas ofensas e agressões, muitos de nós faríamos o mesmo que Jean (quem garante que não faríamos coisa pior depois da contumaz incitação?). Sempre é bom perguntar “quem pode atirar a primeira pedra?” quando nos colocamos na posição de juízes, atitude bem natural e perigosa no dia a dia, sobretudo em épocas autoritárias em que o culto aos juízes do espetáculo, juízes que se afastam das regras democráticas para agradar a audiência, empolga as mentalidades pouco atentas que imitam aquilo com o que se identificam.

Ao mesmo tempo, a questão do cuspe, nos permite agora voltar a pensar naquela triste data de 17 de abril de 2016, que entra na história portando uma das maiores abjeções políticas que podemos conhecer na mal afamada história política do Brasil. Foi o dia da votação pelo impedimento da presidenta Dilma Rousseff.

Para refrescar a memória quanto a um momento que infelizmente não devemos esquecer, os diversos deputados (com as exceções que confirmam a regra) manifestavam-se caricaturalmente, votavam em nome de filhos, de Deus, entre o cretinismo e o cinismo políticos, como se não levassem a sério o que estavam a fazer (ou, o que é pior, achando que todos os cidadãos brasileiros eram idiotas). Acabaram por causar um profunda vergonha nacional até nos menos preocupados com a política institucional. Como cidadãos que assistiam pela televisão, ficamos chocados. Mas imaginemos quem estava lá comprometido com a democracia e a defesa da verdade e não com seus próprios interesses pessoais ou das grandes corporações econômicas, imaginemos o quão desesperador deve ter sido ouvir as palavras vazias de sentido e cheias da intenção do golpe contra a democracia… Há deputados que honram seu mandato e Jean Wyllys é, dentre eles, o que mais é atacado e humilhado. A tensão que pesa sobre ele é pelo menos dupla, senão incalculável.

O voto de Jair Bolsonaro naquele dia excede o sentido da democracia. Podemos dizer que a própria questão do decoro – como uma regra, uma prática, um tom, um valor – foi suspensa pelo seu gesto verbal que aqui devemos observar na íntegra:

“Nesse dia de glória para o povo brasileiro tem um nome que entrará para a história nesta data, pela forma como conduziu os trabalhos da casa. Parabéns, Presidente Eduardo Cunha. Perderam em 64, perderam agora em 2016. Pela família e pela inocência das crianças em sala de aula que o PT nunca teve, contra o comunismo, pela nossa liberdade, contra a foro de São Paulo, pela memória do Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra – o pavor de Dilma Rousseff – pelo exército de Caxias, pelas nossas forças armadas, por um Brasil acima de tudo e por Deus acima de todos, o meu voto é sim.”

Na internet, não encontramos o texto transcrito na íntegra, é preciso assistir ao vídeo. Um voto como esse, que teria deixado Jean Wyllys (ou qualquer pessoa com sensibilidade democrática) estarrecido e ofendido, é muito pior do que o gesto de cuspir em seu autor. A apologia da tortura na homenagem ao torturador Ustra, “pavor de Dilma Rousseff”, não esconde uma ansiedade imoral evidente no nexo precário entre as frases. Depois desse voto, a reação de Jean Wyllys, reiterada vítima das agressões verbais do deputado que se orgulha de protagonizar agressões machistas e homofóbicas, revelou-se insignificante, uma reação compreensível e moderada a um atentado à democracia. Inexigível, a quem sofre as contantes ofensas a que Jean Wyllys é submetido, agir de maneira diversa.

O cuspe, nesse contexto, não foi um ato atentatório do decoro parlamentar, mas o próprio resgate desse decoro.

No contexto em que a irracionalidade estava em cena, apresentando-se como um aparente discurso bobo, o gesto de Jean Wyllys foi um ato altamente simbólico apropriado à ocasião absurda. Infelizmente, seus destinatários não tem condições de avaliar semiologicamente o momento.

Aqueles que o atacam nesse momento, usam essa espécie de direito de botequim que anima o fascismo judiciário nacional e encanta os desavisados: o ataque é a melhor defesa.

* Marcia Tiburi é graduada em filosofia e artes e mestre e doutora em filosofia. Publicou diversos livros de filosofia, entre eles “As Mulheres e a Filosofia” (Ed. Unisinos, 2002), Filosofia Cinza – a melancolia e o corpo nas dobras da escrita (Escritos, 2004); “Mulheres, Filosofia ou Coisas do Gênero” (EDUNISC, 2008), “Filosofia em Comum” (Ed. Record, 2008), “Filosofia Brincante” (Record, 2010), “Olho de Vidro” (Record 2011), “Filosofia Pop” (Ed. Bregantini, 2011) e Sociedade Fissurada (Record, 2013). Publicou também romances: Magnólia (2005), A Mulher de Costas (2006) e O Manto (2009), Era meu esse Rosto (Record, 2012). É autora ainda dos livros Diálogo/desenho, Diálogo/dança, Diálogo/Fotografia e Diálogo/Cinema (ed. SENAC-SP). É professora do programa de pós-graduação em Educação, Arte e História da Cultura da Universidade Mackenzie e colunista da revista Cult.

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