“O agressor não vale o sofrimento”, diz homossexual agredido em SP

O biólogo Juliano Polidoro, de 26 anos, foi agredido por um rapaz enquanto passava pela Rua Augusta, no centro de São Paulo, no domingo (2)

Em depoimento a Nathalia Tavolieri

Publicado na revista Época em 5 de fevereiro de 2014

julianopolidoroEra domingo à noite. Estava em um barzinho com um amigo no centro de São Paulo, jogando conversa fora. Havia sido um fim de semana bastante agradável. Por volta das 22h30, me despedi e tomei o caminho de casa, que fica na Zona Sul da cidade. Na manhã seguinte, tinha de estar cedo no trabalho.

Mesmo com fones no ouvido, estava atento. Sabia que subir a Rua Augusta, em direção à Avenida Paulista, não era um caminho seguro. Meus pais, preocupados com o aumento dos casos de agressões contra gays na região, me orientavam a tomar cuidado. Mas como não era madrugada, e as ruas estavam bem movimentadas, acreditava que em pouco tempo estaria no metrô, a salvo. Em poucos minutos, eu perceberia que estava enganado.

Enquanto caminhava pela calçada, um homem alto, musculoso e de cabelos raspados me encarou. Rapidamente, me deu uma rasteira. Como estava atento, tropecei, mas não caí. Olhei pra trás e perguntei: “Por que você fez isso comigo? O que eu te fiz?”. O rapaz estava extremamente exaltado, com ódio nos olhos. Um ódio gratuito. Respondeu-me com xingamentos infinitos. Só não me chamou de viado. Mas estava claro pra mim, e pra todos os espectadores da rua, que a motivação era minha orientação sexual. A escolha dele não foi aleatória.

Saí andando, a passos mais curtos. O homem me perseguiu e, a dez metros dali, me agrediu novamente. Foi um golpe pelas costas. Desta vez, caí com tudo no chão. Fiquei tonto. A pancada foi tão forte que não sei dizer se foi um chute, uma rasteira ou um empurrão. A queda me deixou com hematomas pelo corpo e com o braço quase deslocado – bem o lado direito, muito útil nessa fase de finalização da minha tese de mestrado.

Atrás de mim, duas pessoas que percorriam o mesmo trajeto acompanharam tudo. Quando caí no chão, eles me socorreram e me ajudaram. Muitos dos que estavam nas mesas dos barzinhos da rua só observaram o incidente, de longe.

Sei que não fui o primeiro homossexual a ser agredido por aquele rapaz. Ele não estava em uma mesa de bar, não estava olhando vitrines ou indo a lugar algum. Estava parado, encostado em uma parede, só observando quem passava por ali. Pra mim, ele procurava a próxima vítima.

Fiz um desabafo no Facebook sobre o ocorrido, que foi bastante compartilhado (foram mais de 1.200 compartilhamentos até a noite de terça, 4). Entre os comentários, contudo, havia os de gente dizendo que eu provocara a agressão, pois eu teria “cantado” o agressor. Sem comentários.

Tenho acompanhado pelo noticiário as ocorrências de agressões físicas a homossexuais. Os casos estão pipocando por aí. E agora sou mais um deles. Acredito que não são as agressões que estão mais recorrentes, mas que mais agredidos estão se manifestando. Antes, muitos tinham vergonha de se expor – não se assumiam para família, amigos e colegas de trabalho. Depois da morte do Bruno (Borges de Oliveira, morto no final de janeiro após ser agredido por um bando na região da Rua Frei Caneca),  outras vítimas do mesmo grupo foram a público denunciar agressões semelhantes. Mais gays estão se manifestando – o que é bom, um reflexo de todas as nossas outras conquistas.

Eu poderia ter voltado pra casa calado, humilhado, sem reação. Mas o agressor não vale esse sofrimento – ainda que a agressão tenha doído. Fui à delegacia e registrei o boletim de ocorrência. Mais do que uma resolução para meu caso, quero que esse tipo de violência não ocorra com mais ninguém e que a região volte a ser segura para os gays. Meus pais não querem que eu saia de casa. Mas a resposta tem que ser outra. O medo não pode parar a minha vida. Mais uma vez, o agressor não vale esse sofrimento.

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