4 de março de 2024

A transmissão vertical, da mãe para o bebê, é a principal causa de infecção por HIV em crianças. Saiba quais são os métodos de prevenção.

Por Beatriz Zolin
Publicado pelo portal Drauzio Varella, em 28/11/2023

Entre 2009 e 2021, o número de infecções por HIV entre crianças de até 5 anos no Brasil caiu 87%, de acordo com dados do Ministério da Saúde. Como mais de 90% dos casos acontecem por transmissão vertical, isto é, da mãe para o bebê, a testagem para o vírus no momento da descoberta da gravidez e o acompanhamento pré-natal atento foram essenciais para a queda de casos.

No país, já existem três municípios certificados com a eliminação da transmissão vertical: São Paulo (SP), Umuarama (PR) e Curitiba (PR). Ainda assim, é preciso tomar certos cuidados, já que as crianças são seres em crescimento e, uma vez acometidas pela infecção pelo HIV, terão de conviver com o vírus.

Como acontece a transmissão vertical?

“A transmissão vertical pode acontecer dentro do útero, no momento do parto ou durante o aleitamento materno”, explica a dra. Daniela Vinhas Bertolini, infectopediatra e médica colaboradora do Projeto Criança Aids (PCA).

Apenas 25% das infecções acontecem ainda no intra-útero, sendo o maior risco durante o parto (75% dos casos). Por isso é tão importante a testagem da mulher grávida já no início da gestação e o acompanhamento adequado até o final da gestação, a fim de que sua carga viral se torne indetectável e ela deixe de transmitir o vírus. 

A partir dos esforços nacionais de políticas públicas, a transmissão durante a gravidez e o parto diminuíram consideravelmente. Por outro lado, aumentou a preocupação com a infecção pelo aleitamento materno. “São mulheres que não viviam com o HIV durante a gestação ou no momento do parto, mas que se infectam depois, enquanto ainda amamentam, e passam para a criança”, explica a infectopediatra.

Além da transmissão vertical, há casos mais raros em que a criança adquire o vírus após ser vítima de abuso sexual ou sofrer um acidente perfurocortante. “Por exemplo: a criança mora com a avó que tem HIV e diabetes e se pica com a mesma agulha de insulina”, ilustra.

Diagnóstico precoce da infecção pelo HIV

Para identificar a infecção de forma precoce e garantir a qualidade de vida do bebê, há um protocolo de investigação para as crianças expostas ao vírus. Como não é possível descobrir o status sorológico ainda dentro do útero, é feita a análise da carga viral logo após o nascimento, a fim de constatar ou não a presença do HIV no sangue.

A sorologia anti-HIV, comumente realizada entre os adultos, não funciona no caso dos bebês, pois avalia apenas a presença de anticorpos contra o vírus, os quais os bebês acabam herdando de suas mães.

“A criança faz o primeiro exame de investigação já no momento do parto. Se vier negativo, ela vai repetir o exame com 15 dias, 1 mês e meio e 3 meses. Tendo as quatro cargas virais indetectáveis e não tendo sido amamentada nenhuma vez, temos a certeza de que não tem o HIV. Agora, se alguma das cargas vier detectável, o exame é repetido imediatamente e, tendo duas confirmações, consideramos a criança como infectada pelo vírus”, detalha a dra. Daniela.

Em uma criança maior, que já não esteja mais sendo amamentada, é possível aplicar o teste da sorologia igual ao dos adultos.

Quais são os sintomas nas crianças?

Caso a mãe e o bebê não tenham tido acompanhamento durante a gestação e o pós-parto, é preciso ficar atento a alguns possíveis sinais do HIV. O vírus pode ter diversas apresentações clínicas, pois, sem o controle adequado, afeta diretamente o sistema imunológico da criança.

A dra. Daniela elenca três sintomas principais:

  1. Infecções de repetição: “Se a criança ficar doente toda hora, especialmente com infecções graves, como meningite e pneumonia, é um sinal importante”;
  2. Atraso no desenvolvimento neurológico: “Um marco bem característico é quando a criança já desenvolveu habilidades neurológicas e começa a regredir”;
  3. Manifestações mais discretas: “Dificuldade para ganhar peso ou crescer, ter sapinho ou herpes toda hora, ter aumento dos gânglios no pescoço, ficar com ínguas, aumentar o fígado, aumentar o baço, entre outras”.

As famosas infecções oportunistas, aquelas que se aproveitam da fragilidade do organismo, só aparecem quando a criança está imunodeficiente. Ou seja, quando ela não realiza o tratamento para controle da carga viral e sua imunidade cai. “Se você não diagnosticar, a situação vai evoluindo. No Brasil, a infecção oportunista mais comum é a tuberculose”, alerta a infectopediatra.

Como é o tratamento para HIV em crianças? 

Todas as crianças com HIV devem receber a chamada terapia antirretroviral (TAR) o mais rápido possível, preferencialmente dentro de 1 a 2 semanas do diagnóstico. O tratamento envolve medicamentos e o monitoramento contínuo da carga viral. Enquanto um adulto estável deve ir ao médico semestralmente, a criança precisa ir quase todo mês, pois está em desenvolvimento.

“A grande dificuldade é que muitos dos remédios dos adultos não são liberados para as crianças. Entre os que são liberados, há uma restrição de apresentação clínica, isto é, só existe em comprimido ou tem um gosto muito ruim. Em linhas gerais, o tratamento é parecido com o de um adulto, mas os remédios são bem mais restritos”, destaca a dra. Daniela.

Métodos de prevenção do HIV em crianças

É justamente por essas dificuldades que os serviços de saúde focam tanto na prevenção. Entre as principais medidas para evitar a infecção por HIV em crianças estão:

  • Fazer o exame de HIV e de outras infecções sexualmente transmissíveis antes de tentar engravidar e, se der positivo, seguir o tratamento para tornar a carga viral indetectável;
  • Ainda nos casos de mães que vivem com o HIV, seguir o tratamento de profilaxia durante a gestação com medicamentos antirretrovirais, aplicar a droga AZT de forma endovenosa durante o parto e manter a administração de ZDV ao recém-nascido durante as primeiras 6 semanas de vida, independentemente do seu status sorológico;
  • Optar pelo parto normal apenas se estiver indetectável, se não, deve ser realizada a cesariana programada;
  • Não amamentar mesmo se estiver indetectável;
  • Para mulheres que não vivem com HIV e cujo teste deu negativo durante a gestação, utilizar o preservativo em todas as relações sexuais enquanto estiver amamentando.

“Se a paciente fizer todo o protocolo direitinho, o risco de transmissão cai de 30% para menos de 3%”, ressalta a infectopediatra. 

Como é a vida da criança com HIV?

Se, ainda assim, a criança for infectada pelo vírus, além de seguir o tratamento corretamente e manter as respectivas vacinas em dia, não há nenhum outro cuidado especial. A recomendação é estimular uma vida normal como a de qualquer outra criança. 

“A gente indica contar só para quem precisa ser contado, principalmente pela questão do preconceito que persiste. Na escola, se a criança se cortar, os profissionais devem usar luvas e mexer no corte com o mesmo cuidado que teriam com os demais alunos”, afirma a dra. Daniela.

Segundo ela, a faixa etária ideal para contar sobre o HIV é entre 8 e 10 anos, pois nessa idade a criança já consegue compreender melhor a situação e tem a capacidade de guardar segredo sobre o diagnóstico. Nessa hora, ONGs e profissionais dos serviços de saúde podem ajudar a encontrar formas lúdicas de fazer a revelação.

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