Uganda: um produto da selvageria cristã

Por Fernando Nunes

Publicado no site Homos S/A, em 10 de março de 2014

Imagem divulgada pelo Twitter onde um homem é queimado vivo publicamente por ser homossexual | Reprodução

Imagem divulgada pelo Twitter onde um homem é queimado vivo publicamente por ser homossexual | Reprodução

De acordo com informações  da organização não governamental ALL OUT, em 77 países é crime ser gay, lésbica, bissexual ou transsexual. Em 10 desses países, pessoas LGBT podem ser condenadas a prisão perpétua. Um deles é Uganda, uma república localizada nos leste do continente africano, que promulgou  no último dia 24 de fevereiro uma lei que pode arrastar pessoas LGBT para prisão pelo resto de suas vidas.

A legitimidade da política antigay de Uganda mobilizou organizações de militância LGBT no mundo todo e causou uma reação negativa da opinião pública internacional, sendo desaprovada midiaticamente por chefes de estado de países ocidentais, como os Estados Unidos da América (EUA).  O Banco Mundial anunciou a suspensão de um empréstimo de 90 milhões de reais que serviria para melhorias no sistema de saúde no país, na mesma semana em que o secretário de de Estado americano, John Kerry, comparou a lei antigay ao antissemitismo nazista.

Apesar da situação dos LGBTs em Uganda estar crescendo em repercussão nos últimos dias, colocando o nome do presidente do país, Yoweri Museveni, como o grande algoz dos gays ugandeses, a realidade da perseguição é bem mais antiga e revela que Museveni é apenas mais um dos opressores entre quase 35 milhões de habitantes da nação. É uma verdade, porém, que o governo faz uso da homofobia como instrumento de dominação popular para desviar a atenção da população dos graves problemas sociais que assolam o país, que tem um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de 0, 456, considerado muito baixo.

Para entender como Uganda chegou a esta condição basta pesquisar um pouco na internet, onde se encontra o nome do deputado David Bahati, autor do projeto de lei sancionado por Museveni. “Eu diria que é uma lei maravilhosa que vai conter as pessoas envolvidas nesse comportamento e proteger os que não estão envolvidos”, disse Bhati em entrevista ao DJ Scott Mills no documentário O Pior Lugar do Mundo para Ser Gay (2011), produzido pela rede televisão britânica BBC três anos antes da vigência da legislação.  ”O que eu sei é que quando o projeto de lei for aprovado, esperamos que os pais entreguem os filhos à policia para que as autoridades resolvam isso”, completou o deputado.

Naquela época, o periódico local Rolling Stone já publicava nomes de homossexuais para que a população pudesse persegui-los e entregá-los às autoridades. Mills mostrou que famílias expulsavam os parentes gays de casa, obrigado-os a se esconder em favelas sem qualquer estrutura sanitária, expostos a doenças como o cólera, vivendo de maneira marginalizada, sem trabalho, sem comida, sem dignidade, sob o rico de serem linchados, queimados vivos no meio da rua.

O mais impressionante é que este não é um pensamento plantado pelo governo, mas sim, um sentimento generalizado na população que compara homossexuais, em nível prejudicial, a estupradores pedófilos que podem causar um mal irreparável à vida de uma pessoa. Naturalmente, esta é uma concepção que vem do cristianismo, principalmente de natureza evangélica, enraizado no país nos últimos vinte anos.

Em todos os argumentos da população para condenar a homossexualidade, a doutrina cristã é usada como base, como revela o documentário da BBC. Porém, pior do que isso é uma especie de sentimento nacionalista africano que tenta fazer acreditar, com retórica fundamentalista, que ser gay é um grande mal para Uganda e para todo o continente. “Sodoma e Gomorra foram punidas e Babilônia foi destruída por causa dos gays, certo? Acredito que o Reino Unido e os Estados Unidos logo serão destruídos”, disse um adolescente que estudava na Bethany High School de Kampala – capital do país – à época da produção do vídeo.

Na fala do jovem, notamos como a religião tem se aliado ao sentimento nacionalista – proveniente da oposição aos dos anos de dominação britânica, uma vez que o país só se tornou independente do Reino Unido em 1962 -, para rechaçar a homossexualidade e a reduzir à escoria humana, tal como fizeram os nazistas. A diferença é que Deus é o combustível desse ódio. “É além da imaginação que pessoas do mesmo sexo possam se amar. Elas não podem”, defendeu o pastor Solomon Male, um dos ativistas evangélicos antigay mais atuantes do país.

Assista ao documentário da BBC:

Toda esse pensamento já estava configurado em Uganda anos antes desta lei ser promulgada. É um mal que tem sido fortalecido desde a fixação de inúmeras congregações evangélicas norte-americanas no país – que financiam campanhas de políticos que assumem uma postura homofóbica latente -, onde 42% da população se diz protestante. Em Uganda, parece nobre dizer que os gays vão destruir a humanidade, um típico discurso do fundamentalismo cristão, que tem cauterizado a consciência humanitária dos ugandeses em relação a seus semelhantes. Que cristão defenderia a morte de um um ser humano por não se adequar a suas crenças?

Uganda e outros países africanos estão promovendo uma verdadeira caçada, assim como se fez nos primeiros séculos da “praga” cristã no império Romano, até a conversão de Constantino I à crença no início do século IV. Minha intenção não é estabelecer um uma comparação legítima entre as duas situações, mas propor uma observação a cerca de como os líderes desses países estão cometendo o mesmo erro dos imperadores romanos, exacerbando a fúria do povo contra os gays ao tornar isso legal.

Ainda dentro deste panorama de barbárie, porém distante do cristianismo, é importante prestar atenção na Mauritânia, na Somália, no Sudão e na Nigéria – países imersos no fundamentalismo islâmico que também tem promovido, há algum anos, a caça aos gays com as mesmas doses de violência e intolerância. Em um continente de 54 países, 38 tratam a homossexualidade como uma ilegalidade, uma mal que toma quase toda a África.

Dado esse cenário, o enrobustecimento da bancada evangélica se torna tão preocupante no Brasil, porque não podemos permitir que o pensamento cristão fundamentalista, que está se arraigando à política brasileira, impeça a população LGBT de usufruir de seus plenos direitos de cidadãos de um país livre, laico e democrático. E pior, deixar que esse mesmo pensamento possa ser ensinado como correto aos jovens de nosso país, criando assim, uma geração predisposta a esse tipo de comportamento desumano.

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