Os nazistas e a destruição do primeiro movimento dos direitos LGBT

Para tentar escapar da prisão e da morte, pessoas LGBT na Europa fizeram de tudo para esconder sua sexualidade.

Por John Broich
Publicado pelo portal HuffPost Brasil, em 
7 de agosto de 2017

‘Damenkneipe,’ ou ‘Taverna de Mulheres’, pintado por Rudolf Schlichter em 1923.
Muitas obras do artista foram destruídas em 1937 pelos nazistas, que as tacharam de “arte degenerada”.

O gabinete da Alemanha aprovou recentemente uma lei que vai anular as condenações de dezenas de milhares de homens alemães por “atos homossexuais”. Eles foram condenados pela legislação antigay alemã conhecida como “Parágrafo 175”, que data de 1871, quando foi criado o primeiro código legal da Alemanha moderna.

A lei foi revogada em 1994. Mas houve um movimento anterior sério para sua anulação em 1929, como parte de um movimento mais amplo pelos direitos LGBTQ. Foi logo antes da chegada ao poder dos nazistas, que então ampliaram a lei contra a homossexualidade e, em seguida, procuraram exterminar europeus gays e transgêneros.

A história de como a Alemanha (e boa parte da Europa) chegou perto de liberar seus cidadãos LGBTQ, para então reverter a tendência violentamente sob novos regimes autoritários, é uma lição prática de como a história dos direitos LGBTQ não é feita de avanços constantes.

O primeiro movimento de libertação LGBTQ

Na década de 1920, Berlim tinha quase cem bares ou cafés de gays e lésbicas. Em Viena, havia mais ou menos uma dúzia de cafés, clubes e livrarias gays. Certos bairros de Paris eram famosos pela vida noturna aberta e animada de gays e transexuais. Mesmo Florença, na Itália, contava com seu próprio distrito gay, e o mesmo acontecia em muitas cidades europeias menores.

No cinema, começaram a surgir personagens gays mostrados sob ótica positiva. Foram organizados protestos contra os retratos ofensivos de pessoas LGBTQ na mídia impressa ou no teatro. E empreendedores de mídia perceberam que havia um público de leitores gays e transexuais para os quais podiam produzir.

Essa nova era de tolerância foi movida em parte pelos médicos e cientistas que começaram a enxergar a homossexualidade e o “travestismo” (palavra usada naquela era e que abrangia os transgêneros) como uma característica natural inata de algumas pessoas, e não como um “desvio”. A história de Lili Elbe e da primeira cirurgia moderna de troca de sexo, celebrizada no filme recente “A Garota Dinamarquesa”, refletia essas tendências.

Em 1919 Berlim abriu o Instituto de Pesquisas Sexuais, o lugar onde foi cunhado o termo “transexual” e onde pessoas podiam receber assistência psicológica e outros serviços. O médico diretor do instituto, Magnus Hirschfeld, foi consultado na cirurgia de redesignação sexual de Lili Elbe.

Uma organização ligada a esse instituto era o chamado Comitê Científico-Humanitário. Tendo como lema “a justiça por meio da ciência”, esse grupo de cientistas e pessoas LGBTQ promovia os direitos iguais para as pessoas LGBTQ, argumentando que elas não eram aberrações da natureza.

A maioria das capitais europeias possuía uma filial da organização, que patrocinava palestras e lutava pela revogação do “Parágrafo 175” alemão. Em conjunto com outros grupos e políticos liberais, a organização conseguiu influenciar um comitê parlamentar alemão para que, em 1929, recomendasse ao governo a revogação da medida.

A reação contrária

Esses avanços não representaram o fim de séculos de intolerância, mas os anos 1920 e 1930 aparentavam ser o início do fim. Por outro lado, o fato de gays e transsexuais saírem do armário mais abertamente provocou seus adversários.

Lamentando a visão de pessoas abertamente LGBTQ em público, um jornalista francês reclamou que “o contágio … está corrompendo todos os ambientes”. A polícia de Berlim denunciava a proliferação de revistas voltadas a homens gays, qualificando-as de “materiais de imprensa obscenos”. Em Viena, as palestras do Comitê Científico-Humanitário eram acompanhadas por plateias lotadas de apoiadores, mas uma delas foi atacada por jovens que atiraram “bombas de fedor”. Em 1933 um vereador parisiense disse que o fato de que homossexuais, conhecidos na época como “invertidos”, pudessem ser vistos em público representava uma “crise moral”.

“Longe de mim querer ser fascista”, disse o vereador, “mas é preciso concordar que esses regimes tiveram alguns acertos. Um dia Hitler e Mussolini acordaram e disseram ‘honestamente, esse escândalo já foi longe demais’. E … os invertidos … foram expulsos da Alemanha e Itália no dia seguinte.”

A ascensão do fascismo

É essa disposição de sacrificar as minorias em troca da “normalidade” ou prosperidade que leva observadores a traçar comparações incômodas entre aquela época e hoje.

Nos anos 1930 a Grande Depressão espalhava a ansiedade econômica, e as disputas políticas nos Parlamentos europeus tendiam a transbordar para as ruas, com batalhas campais entre direita e esquerda. Os partidos fascistas ofereceram aos europeus a opção da estabilidade, ao custo da democracia. Disseram que a tolerância das minorias era desestabilizadora. A ampliação das liberdades dava aos “indesejáveis” a possibilidade de enfraquecer a segurança e ameaçar a cultura “moral” tradicional. Os gays e transsexuais eram alvos evidentes.

O que aconteceu a seguir mostra a rapidez fulminante com que os avanços conquistados por uma geração podem ser revertidos.

O pesadelo

Um dia em maio de 1933, estudantes de camisa branca marcharam diante do Instituto berlinense de Pesquisas Sexuais – o refúgio seguro das pessoas LGBTQ –, dizendo que o instituto era “antialemão”. Mais tarde, uma turba enfurecida tirou todos os livros do instituto para queimá-los. E ainda mais tarde, o diretor da instituição foi preso.

Quando o líder nazista Adolf Hitler precisou justificar a prisão e o assassinato de antigos aliados políticos seus, em 1934, disse que eles eram gays. Isso alimentou a ação antigays da Gestapo, que abriu um departamento especial para combater os homossexuais. Apenas em 1935 a Gestapo prendeu mais de 8.500 homens gays, muito possivelmente usando uma lista de nomes e endereços confiscada do Instituto de Pesquisas Sexuais. Não apenas o Parágrafo 175 não foi anulado, como um comitê parlamentar recomendara poucos anos antes, como foi emendado para tornar-se mais amplo e punitivo.

A Gestapo se estendeu pela Europa e ampliou a caça aos homossexuais. Em Viena, ela prendeu e interrogou todos os homens gays que constavam das listas da polícia, tentando obrigá-los a denunciar outros. Os que tinham sorte iam para a cadeia. Os menos afortunados, para Buchenwald e Dachau. Na França conquistada, a polícia da Alsácia cooperou com a Gestapo para prender pelo menos 200 homens e enviá-los a campos de concentração. A Itália, onde o regime fascista era obcecado pela virilidade, no período da guerra pelo menos 300 homens gays foram declarados “um perigo à integridade da raça” e enviados a campos brutais.

Devido à falta de registros confiáveis, é impossível saber quantos europeus foram encarcerados sob o fascismo por serem LGBTQ. Mas, segundo uma estimativa conservadora, entre muitas dezenas de milhares e cem mil prisões de homossexuais foram efetuadas apenas no período da guerra.

Sob essas condições tenebrosas, para evitar suscitar muitas suspeitas, mais pessoas LGBTQ na Europa fizeram de tudo para esconder sua sexualidade verdadeira, por exemplo casando-se com pessoas do sexo oposto. Mesmo assim, para quem já era membro destacado da comunidade gay e transexual antes da chegada ao poder dos fascistas, era tarde demais para se esconder. Era o caso de Lotte Hahm, dona de um clube de lésbicas em Berlim. Ela foi mandada para um campo de concentração.

Nesses campos, os homens gays eram identificados por um triângulo cor-de-rosa. Naqueles lugares de horror, os homens com triângulo cor-de-rosa na roupa eram alvos de horrores especiais. Eram estuprados mecanicamente, castrados, eram os alvos favoritos de experimentos médicos e eram trucidados para o prazer sádico dos guardas, isso quando não eram sentenciados ao extermínio. Um gay atribuiu sua sobrevivência ao fato de ter trocado seu triângulo rosa por um vermelho, indicando que era apenas comunista. Os gays também eram repudiados e atormentados pelos outros detentos.

O perigo de um retrocesso

Não estamos na Europa dos anos 1930. E traçar comparações superficiais entre então e hoje pode gerar conclusões apenas superficiais.

Mas, com novas formas de autoritarismo deitando raízes e procurando se expandir na Europa e fora dela, vale a pena refletir sobre o que aconteceu com a comunidade LGBTQ europeia nos anos 1930 e 1940. No momento em que a Alemanha aprova o casamento homossexual e neste primeiro aniversário do processo Obergefell v. Hodges, vale a pena lembrar da história.

Em 1929 a Alemanha chegou perto de apagar sua lei contra os homossexuais, mas pouco depois ela foi reforçada. Apenas hoje, após 88 anos, é que as condenações anunciadas sob essa lei estão sendo anuladas.

O que os historiadores pensam do aparente ressurgimento do autoritarismo em certos setores?

“A comunidade LGBTQ nos Estados Unidos não está enfrentando o tipo de campanha contra homossexuais travada pelos nazistas na década de 1930.” Mas “parece haver algo no nacionalismo populista e xenofóbico que o leva a fazer as minorias sexuais e de gênero de bodes expiatórios”.

Robert Beachy, Underwood International College. Autor de Gay Berlin.

“Não existe uma ‘tolerância’ de gays e transexuais que aumente gradualmente ao longo do tempo, assim como o racismo branco não necessariamente se dissipa com o tempo. … O fato de que muitos homens gays pensavam estar em posição melhor em 1933 – vivendo mais abertamente como gays, por exemplo – os colocou em posição pior quando as perseguições nazistas começaram.”

Laurie Marhoefer, University of Washington. Autora de Sex and the Weimar Republic.

“Precisamos ficar atentos … [mas está muito claro que as gerações mais jovens hoje em sua maioria abraçam e acolhem seus amigos e colegas LGBTQ e fariam objeção declarada a qualquer ação punitiva. Essa mudança geracional de atitudes entre as pessoas hétero talvez seja o que pode impedir um retrocesso de acontecer. Isso não estava presente na Alemanha nos anos 1930.”

Geoffrey Giles, University of Florida.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *