“Eu, dar pra uma bicha mole? JAMAIS!” – uma crônica sobre performance, gênero e desejos

Fábio Fernandes

Publicado no blog Cultura e Sexualidade, em 15 de janeiro de 2014

casal1Há alguns dias estava conversando com meu amigo Carlos Henrique sobre homens, sexo e desejo (assuntos sempre recorrentes entre nós) e entramos no tópico que intitula este post. A questão levantada foi: a bicha afeminada também “come”, ou seja, desempenha o papel de ativo ou será necessariamente passiva na relação sexual?

A aparente simplicidade da pergunta não exprime, à primeira vista, o que nos incomodava: os muitos discursos que tentar determinar, através da performance de gênero, os desejos e as posições sexuais entre homossexuais. Se há um tema que podemos seguramente tomar como chave na homocultura brasileira é esse incessante falar sobre sexo, parceiros e o jogo de “certo ou errado” sobre se tal sujeito é ativo, passivo ou versátil na relação sexual.

O sexo guei tem esse mistério, esse quase enigma que cria expectativas (mas também muitas vezes frustra) e cerca o corpo masculino desejado. Afinal, aquele cara curte o quê? Quantas e quantas vezes já não nos fizemos essa pergunta ou então, a partir de um suposto sistema detector, um “radar”, definimos o nível de atividade ou passividade dos sujeitos… nada escapa a essa análise cuja medida é a masculinidade, atrelada a elementos como jeito de andar, falar, vestir, lugares que frequenta, aparência, grupos de amigos que possui e até o estilo musical pode ser parâmetro. Isso sem contar o elemento racista que muitas vezes delibera que negro tem que ser ativo, como já discutido em outro texto aqui.

É justamente sobre isso que quero discutir com vocês, leitorxs. Mais de uma vez aqui no blogue já abordamos o quanto a performance que é esperada de um corpo com pênis é fruto de um modelo normativo de masculinidade: o homem, seja guei ou não, precisa ser másculo, viril e se comportar como tal dentro do referido sistema da heteronormatividade. As gueis afetadas/fechativas, por não se enquadrem nessa caixa, sofrem as mais diversas formas de violência, lembrando inclusive que não existe para essas pessoas alguma possibilidade de armário: sua performatividade destoante das normas de gênero já as posicionam no local da estranheza e da repulsa social (mas também despertam os desejos de muitos e muitas…).

No referido senso comum do discurso da homocultura brasileira, essa bicha afeminada é quase sempre automaticamente interpretada como o provável passivo na relação sexual. Aliás, passivo não, passiva! – é assim que muitas gueis se referem a eles, e o termo passiva sendo utilizado para injuriar, ofender, como no exemplo: “Ah, aquela passiva desgraçada!”.

Percebe-se nesse discurso o tempero do machismo que incide sobre um corpo que é oprimido por possuir uma performance mais próxima do que é culturalmente compreendido como feminino. Ele também está rompendo uma expectativa em relação ao gênero que lhe foi designado no nascimento (“é homem, comporte-se como homem!”). Mas as bichas afeminadas não são homens, é que dizem por aí! Já ouvi muito o termo “homem” como régua pra medir masculinidade entre os sujeitos gueis: “hummm, ele tem jeito de homem”, “bem homem ele, né?”, “oxe, ali é mais mulher do que eu e você juntas”.

Ainda sim, muitos podem me questionar: “ah, se você for averiguar, fizer um censo, confirmará que a maioria das bichas afeminadas são passivas”. O que, portanto, posicionaria os gueis másculos e viris como necessariamente ativos… apesar de haver uma maior compreensão/aceitação de que esses últimos possam também ser passivos. Mas então, eu questiono: por que uma bicha afeminada, ao desempenhar o papel de ativo, ou demonstrar desejo para tal, causa estranhamento e muitas vezes repulsa? E se supostamente concluímos que a maioria dos gueis afetados/afeminados são mesmo prioritariamente passivos, estaríamos comprovando que há nesses corpos algo de natural/biológico determinando a “passividade”? Não, muito provavelmente NÃO.

As próprias normas rígidas que regulam os gêneros e os corpos impelem, coercitivamente, os sujeitos a retifica-las e repeti-las: essas mesmas bichas também realizam essa reiteração… mas é nessa repetição constante que também se criam brechas para que essas mesmas leis que alinham identidade de gênero e performance (bichas afeminadas) e desejo e prática sexual (passividade) sejam deslocados e subvertidos.

Fico pensando no quanto tais normas, ao se “fixarem” compulsoriamente em alguns corpos, podem embotar os desejos e impedir que os gueis experenciem sua vida sexual com mais amplitude, possibilidade, versatilidade. E por que há tantos especialistas em vigiar, detectar e determinar algo tão íntimo como o desejo do outro? Parece haver uma verdadeira “polícia” do sexo produzindo os corpos e querendo direcionar os desejos alheios para certos modelinhos e cartilhas.

Que tal experimentar o seu corpo de uma forma de uma forma mais criativa, menos regulada e mais sensível aos desejos? Será mesmo que há nos corpos uma fórmula matemática rígida e imutável definindo o tipo de prazer que é possível, ou de fato podemos experimentar mais, descobrir e nos redescobrir ao longo da vida? Finalizo lançando uma provocação: tá afim de se aventurar em novas possibilidades ou vai ficar aí comendo o seu feijão com arroz seguro, tranquilo e com o mesmo sabor todos os dias?

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