Estatísticas de crimes homotransfóbicos e a desonestidade intelectual das análises rasteiras

Gésner Braga

Ariane Senna, organizadora e também razão da organização de ato contra transfobia em bairro de Salvador (Reprodução/Facebook)

Ariane Senna, organizadora e também razão
da organização de ato contra transfobia
em bairro de Salvador (Reprodução/Facebook)

Ontem, 23 de março, foi mais um dia de protesto público em Salvador, contra a transfobia e a homofobia. Um evento organizado de forma espontânea e independente pedia o fim da intolerância. O local escolhido foi o bairro de Pernambués em razão de duas ocorrências distintas num intervalo de quatro meses, que guardam semelhanças por ambos envolverem mulheres transexuais e também seus companheiros. Felizmente, não foram casos fatais a engrossar as estatísticas de homicídios, números esses que serão objeto desta análise, sobretudo em razão de recorrentes alegações de irrelevância quando se trata de mortes de pessoas LGBT.

Como era esperado e necessário, ativistas presentes trouxeram para conhecimento da população os números da fúria diária que vitima lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e todas as outras pessoas que não se enquadram nos padrões da heterossexualidade hegemônica. Mais uma vez, dados dos relatórios do Grupo Gay da Bahia (GGB) sobre crimes homotransfóbicos fatais foram usados para denunciar a violência que nos estarrece. Eu mesmo aproveitei a oportunidade para prestar alguns esclarecimentos sobre esses números e driblar a costumeira desonestidade intelectual que insiste em compará-los com as estatísticas gerais de homicídios no País. É exatamente o que faço agora.

Anualmente, o GGB apresenta seu relatório com a compilação de crimes fatais cometidos contra pessoas LGBT no Brasil, dados estes colhidos sobretudo a partir de informações divulgadas na internet. Por ser o esforço de um único grupo que não conta com uma equipe numerosa para levantamento dos dados, o próprio GGB reconhece a possibilidade de subnotificações. Ou seja, os números reais são certamente mais expressivos que aqueles apresentados no relatório. Mesmo assim, o documento é reconhecido como legítimo e largamente usado como referência pela grande mídia nacional e internacional.

O relatório de 2015 informa a ocorrência de 318 mortes de pessoas LGBT naquele ano e esquadrinha todos os casos. Em cada um deles, é identificada a cidade onde ocorreu a morte, a orientação sexual, identidade de gênero, profissão, cor e idade da vítima, a causa da morte, entre outros dados. Também são feitos cruzamentos dessas informações e estabelecidos percentuais, de modo a se saber, por exemplo, quais são as vítimas mais frequentes dos crimes, bem como quais as cidades, estados e regiões no País com mais registros de homotransfobia letal.

Porém, com frequência preocupante, observo análises tendenciosas desses dados, com o único fim de considerar irrelevantes os números levantados e enxergar neles indícios de uma situação de privilégio para pessoas LGBT, ou seja, o oposto do que se pretende denunciar. Para justificar essa avaliação tosca, recorre-se sempre aos dados gerais de homicídios no Brasil. Segundo informações do 9º Anuário de Segurança Pública, foram registradas ao menos 58.497 mortes violentas no Brasil em 2014. Naquele mesmo ano, o GGB catalogava 326 mortes em seu relatório. Os detratores das causas LGBT então se apressam a afirmar o que para eles é um disparate: enquanto mais de 58 mil heterossexuais foram assassinados em 2014, apenas 326 homossexuais e transexuais morreram de forma violenta. Depreende-se daí que nós, pessoas LGBT, vivemos abençoadas pela glória celestial.

Diante de tamanha e intencional ignorância, aqui vou eu afirmar o que já é óbvio: as mais de 58 mil mortes anunciadas no Anuário não têm apenas heterossexuais como vítimas. Se uma transexual reage a um assalto e é esfaqueada, isso será registrado. Se uma lésbica se envolve em uma discussão no trânsito e é baleada, isso será registrado. Se um gay é atingido por uma bala numa ação policial, isso também será registrado. Sendo assim e se considerarmos que a população LGBT gira em torno de 8% a 10% da população total, seria possível então afirmar que há grandes chances de homicídios no Brasil vitimarem algo em torno de 4 mil a 6 mil pessoas LGBT ao ano. E mesmo que esse raciocínio não seja plausível, já que ainda não há dados estatísticos oficiais a respeito do número de pessoas LGBT no País, a quantidade de mortes violentas desse segmento da população por motivos diversos não seria apenas 326 ou 318.

Diferente dos dados gerais do Anuário, os números trazidos pelo GGB são muito específicos e dizem respeito a mortes com uma única motivação: transfobia ou homofobia. Ou seja, crimes de ódio cometidos exclusivamente porque o agressor não aceita a orientação sexual ou identidade de gênero da sua vítima diferente do padrão heterossexual. Se ainda está difícil entender a lógica que nos leva a considerar os números dos relatórios do GGB como retratos de uma realidade cruel, eu lanço mão de uma pergunta recorrente de ativistas quando tratam do assunto: quantas pessoas são mortas no País ou no mundo e quantas pessoas são vítimas de preconceito ou discriminação porque se afirmam heterossexuais? Resta o silêncio…

Se, por um lado, heterossexuais cisgêneros* estão blindados contra esse tipo de violência, ou seja, podem ostentar livremente a sua sexualidade sem ser incomodados, aqui vai o outro lado da moeda: o Relatório da Violência Homofóbica elaborado pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República revelou que, em 2012, foram registradas pelo poder público 9.982 violações relacionadas à população LGBT, envolvendo 4.851 vítimas e 4.784 suspeitos. O documento destaca que as violações reportadas não correspondem “à totalidade das violências ocorridas cotidianamente contra LGBTs, infelizmente muito mais numerosas do que aquelas que chegam ao conhecimento do poder público”. Tudo isso por puro ódio.

Enfim, aqui está a minha modesta colaboração para frear a ignorância e denunciar a costumeira má-fé dos discursos coléricos de gente com mente obtusa e intenções claramente maliciosas.

* Cisgênero: pessoa que se reconhece como pertencendo ao gênero que foi compulsoriamente designada quando nasceu.

Gésner Braga é gay, ativista social, jornalista e mantem o site Clipping LGBT

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2 Responses

  1. Daniel Lisboa disse:

    O que tais grupos conservadores fazem é bem definido como desonestidade intelectual.
    Ignoram os fatos, e criticam as fontes, sem apresentar melhores dados.
    É como se quisessem que LGBTs continuassem sofrendo preconceito.
    Texto impecável, parabéns.

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