Com quantas derrotas se faz uma luta?

Cristiano Lucas Ferreira

homofobiaAinda criança, ouvia as notícias das atrocidades cometidas contra as travestis, viados e sapas de Anápolis. Lembro quando os programas policiais das rádios da cidade noticiaram que alguns caras, depois de terem espancado uma travesti, usaram Superbonder para colar seu cu. E como não poderia deixar de ser, isso virou piada, motivo de risos. Tempos depois, outra travesti foi esquartejada e jogada numa daquelas caçambas de entulho. Seu corpo ficou ali por dias e só foi descoberto no lixão da cidade, onde os pedaços de seu corpo foram despejados. Mas entre tantas notícias, que pareciam se repetir e repetir e repetir, a mais trágica (se é que é possível) e a que mais me chocou foi quando pegaram um cara gay levaram para um posto de gasolina e enfiaram em seu cu aquela mangueira de encher pneu de caminhão. O seu intestino rompeu e ele morreu ali, sem compaixão, esvaindo em sangue, sem motivar qualquer indignação entre as pessoas. Durante anos, aquela imagem não saia de minha cabeça.

O que será que ele pensava quando via sua vida indo embora? Será que esse era o destino reservado pra mim? Será que quando descobrissem que eu era gay fariam o mesmo comigo? Essas e tantas outras notícias eram tão comuns que, pra mim, declarar-me gay era como assinar o meu atestado de óbito.

Mesmo que tenhamos tantas demandas, mesmo sabendo que ainda há tanto por fazer, nós, do movimento LGBT, elegemos como prioridade a criminalização da homofobia. A duras penas, conseguimos minimamente articular uma Frente Parlamentar com representantes da Câmara e do Senado, construímos um movimento capaz de aglutinar artistas, educadores/as, juristas, nossas famílias, com o objetivo de dar uma resposta à naturalização da violência homofóbica.

Mas como resposta, fundamentalistas religiosos (católicos e evangélicos) se uniram aos setores mais conservadores da sociedade para barrar toda e qualquer discussão que defenda direitos iguais. Lado a lado, pastores, padres, nazistas, defensores da ditadura militar, integralistas, Opus Dei, Tradição, Família e Propriedade, Associação para Defesa da Heterossexualidade, do Casamento e da Família Tradicional, partidos políticos ligados às igrejas evangélicas (principalmente o PSC, o PP, o PRB, o PTN e o PROS), incluindo claro alguns parlamentares de antigos aliados como o PT, PSB, PC do B e PDT articularam-se dentro e fora do Congresso para criar um ambiente de guerra santa: eles (os eleitos, santos, defensores das leis de deus) contra nós (promíscuos/as, disseminadores da AIDS, destruidores da família, da espécie humana e contrários a deus).

Esse discurso que saiu dos púlpitos e chegou com intensa força nos plenários do Congresso, das Assembleias Estaduais e Câmaras Municipais conseguiu hoje (17) sua mais importante vitória. Em sessão no Senado, foi aprovada a transferência da questão da criminalização da homofobia para a Reforma do Código Penal. E porque isso nos preocupa? Se por um lado essa Reforma deve se arrastar por anos, por outro e mais grave ainda, os conservadores já tomaram conta da Comissão de Constituição e Justiça, por onde o projeto de reforma deverá passar. Se conseguir passar pela CCJ, a proposta deve ir ao plenário do Senado e da Câmara onde, claro, não temos apoios necessários à sua aprovação. Por isso, corremos seriamente o risco de ver nossa luta de tantos anos ser simplesmente desconsiderada. 

Quantas vezes seremos obrigados/as a ouvir um sonoro e gigante NÃO às nossas propostas? É impossível não ficar indignado. Impossível não se sentir incapaz de lutar contra essas forças tão poderosas, cada vez mais ricas, cada vez mais proprietárias dos meios de comunicação e das mentes e corações de milhões de pessoas. Mas eles ainda pagarão por cada um e cada uma dos nossos que foram, são e serão vítimas de homofobia.

Ao contrário daquelas travestis de Anápolis que relatei no início, nós AINDA estamos vivos/as. Enquanto correr sangue em nossas veias, não podemos desistir. Por nós e por tantos e tantas que já tombaram.

Perdoem-nos, queridos e queridas. Ainda não foi dessa vez.

Veja também: a lista de quem votou a favor e contra a homofobia.

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