Balada de Dandara

(o amor continua longe das travestis e transexuais)

Por Jean Wyllys, publicado em sua página do Facebook, em 4 de fevereiro de 2017

https://www.facebook.com/jean.wyllys/photos/pb.163566147024734.-2207520000.1488741435./1345514562163214/?type=3&theater“Suba, suba! Não vai subir, não?!”, gritam os “machos” que decidiram espancá-la até a morte, mas Dandara mal consegue se mover, enquanto chora, indefensa. Batem nela com um chinelo, a chamam “viado ‘fêi’” (porque, em sua extrema burrice, nem para insultá-la entendem a diferença entre uma pessoa transexual e um gay), continuam descarregando todo seu ódio nela com uma violência inusitada, apesar de ver a quantidade de sangue, e ela tenta subir no carrinho, mas não consegue. Sabemos de tudo isso porque os filhos da mãe estão filmando!

“Sobe logo! A ‘mundiça’ tá de calcinha e tudo”, zomba o câmera do mais atroz documentário sobre a transfobia que já foi filmado no Brasil. Paradoxalmente, a produção, direção, roteiro e os principais papéis protagônicos são dos assassinos, um grupo de jovens envenenados com o discurso de ódio de políticos fascistas e pastores fundamentalistas que acharam graça matar brutalmente Dandara, registrar tudo e subir o vídeo à Internet, onde a façanha poderia ser celebrada por outros imbecis como eles, esses que lemos aqui diariamente nos insultando e vomitando preconceitos.

Chega mais um homem com um pedaço de madeira enorme e o usa para bater várias vezes nela, que agoniza, e seus órgãos dilacerados não resistem mais. Os cinco levantam Dandara e a sobem no carrinho, talvez para se desfazer do corpo.

Dandara dos Santos, 42, mulher, travesti, pobre, brasileira, mais um número para as estatísticas, assassinada no o dia 15 de fevereiro, no bairro Bom Jardim, em Fortaleza, deu, sem querer, um testemunho brutal com seu próprio corpo na tela de milhares de celulares e computadores.

De acordo com o jornal O POVO, a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) informou que as investigações sobre o crime estão a cargo do 32º Distrito Policial e “estão bem adiantadas”. Contudo, não detalhou a situação do inquérito “para não comprometer o trabalho”. Coordenador especial de políticas públicas para LGBT, Narciso Júnior chegou a dizer para o jornal cearense que “salvo engano, um dos rapazes (envolvidos no crime) já estaria preso”. Ele deu garantia de ter mais informações sobre as investigações.

“No Brasil não há homofobia, nem transfobia, nem lesbofobia, nem nada”; “É tudo mimimi e vitimização do movimento LGBT”, continuarão dizendo os zumbis do Facebook que defendem políticos fascistas e pastores do ódio. Mas as imagens de Dandara morrendo apenas por ser trans, vítima dos seguidores dessa gente, está aí para contar ao país e ao mundo a verdadeira história desse presente triste contra o qual continuaremos lutando.

Em Portugal, o assassinato brutal e semelhante da transexual Gisberta (com a diferença de que a tortura e o assassinato, em 2006, não foram filmados pelos sádicos assassinos, que, nesse caso, eram todos adolescentes em situação de risco social) chocou a Europa e levou a mudanças nas leis do país sobre crime de ódio. Aqui, esses assassinatos são ignorados pela maioria do parlamento (alguns deputados até os incentiva indiretamente) e aplaudidos por cidadãos em comentários nas redes sociais.

Meu mandato vai acionar o Ministério Público Federal e todos os organismos responsáveis e vou acompanhar este caso, para impedir que fique impune.

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