Somos todos gays?

André Pitol. Fotografias. 2015.

Luis Saraiva*
Publicado pelo site SSEX BBOX, em 10 de setembro de 2015

Homens que curtem homens, mas que são héteros. Héteros passivos. G0ys. De tempos em tempos, a mídia, sobretudo facebookiana, tem nos presenteado com notícias desse tipo, alimentando debates infindáveis, que quase sempre chegam à mesma conclusão: homem que curte homem seria gay e, se assim não se apresenta, seria enrustido e viveria uma farsa. Claro que parte das discussões diz respeito à desqualificação e ataque a esses sujeitos, referidos de modo intensamente pejorativo.

Mas nesse mundo tem de um tudo. Tem quem se relaciona oficialmente apenas com mulheres; tem quem se relaciona com todo mundo; tem quem se relaciona apenas com homens. Tem quem apenas manja rola em mictórios por aí; quem não curte beijo de barbado; que curte apenas sentir o corpo de outro homem; quem curte penetrar e/ou ser penetrado. Quem só deixa mamar; quem é macho discreto e não curte afeminados. Quem é, dá pinta e é afetado. Quem frequenta o meio e quem não frequenta. Quem não é passivo de jeito nenhum. Tem casal de homens que quer adotar uma criança. Quem mora com um “amigo” com quem anda para cima e para baixo. Quem é enrustido e vive no armário e quem é militante e hasteia o arco- íris por onde passa. Quem namora “uma pessoa”. Quem casa no papel. Quem namora com vários. Quem transa com vários. Quem não transa. Quem parece e quem não parece. Enfim, os exemplos não param. Mas seriam todos gays?

Seriam gays todos aqueles que têm desejos por homens? Mesmo esses desejos sendo múltiplos, de naturezas, intensidades e experimentados de diversas maneiras? O que me chama a atenção é que parece haver uma confusão de ideias, afinal, a experiência gay não passa de uma experiência homoerótica datada. Um modelo, uma possibilidade de homoerotismo, entre tantas outras.

Um modelo com suas regras: homens sobretudo de classe média, intelectualizados, urbanos, masculinos e cuja feminilidades está circunscrita a situações específicas, como no convívio com o grupo de amigos gays, no gosto musical e na preocupação com a aparência. Um modelo que, ao longo do tempo, vai sendo tomado como o modelo normal para experiências homoeróticas, acirrando a diferenciação entre gays e os outros modelos, sobretudo os mais afeminados, como as chamadas bichinhas. Daí, um modelo que se intensifica como modelo, também por mais tolerável pelo mundo em que vivemos.

Quer dizer, ser gay é algo que ultrapassa o desejo e o uso que fazemos de nosso corpo. Ser gay é uma questão de identidade. Algo que necessariamente é construído na experiência coletiva, social e que é atravessada por valores, expectativas e concepções de um tempo. Algo que dá forma a existências, que conforma existências. Algo que diz quem somos e o que somos e o que podemos ser. Afinal, uma nomeação estabelece fronteiras entre o que se é e o que não se é e se inculcam normas, regras para nossa existência. E gay tem sido uma identidade construída de modo bastante estável, fixa, autêntica, tendentemente universal e que – importante destacar – dificilmente conseguimos alcançar.

O psicanalista Jurandir Freire Costa, em seu já clássico livro “A inocência e o vício: estudos sobre o homoerotismo”, defende que, ao longo do tempo, o homoerotismo vem sendo transformado em homossexualidade – um reducionismo incapaz de descrever a diversidade de experiências dos sujeitos com inclinações homoeróticas. Falamos, então, de um processo de modulação de experiências múltiplas e incontáveis, aprisionando-as em regras, funcionamentos, repetições e parâmetros. Normatização de existências, ora. E aprisionamento de possibilidades.

Quer dizer, aquilo que necessariamente é múltiplo vira uma coisa só. Constrói-se uma tal identidade gay, única, monolítica, marcada por desejos, práticas, expectativas supostamente comuns e universais, como se sempre tivessem existido e existissem em todas as culturas e sociedades. Múltiplas histórias se tornam uma só. E usa-se a mesma régua para coisas bem distintas.

A saída para isso? Poderíamos pensar na ampliação das possibilidades de definição de quem somos. Mas essas definições continuariam a se dar dentro da ordem heteronormativa e misógina que produz a necessidade dessas categorias e diferenciações, sempre tratando de modo pejorativo aquilo que foge da heterossexualidade e que remete ao feminino, como vemos nos tais g0ys – que merecem uma discussão à parte. Também podemos buscar suportar a caótica falta de definição para aquilo que podemos ser, sentir fazer com nossos corpos.

Definições? Prefiro não. Ainda que tivesse que preferir, que fôssemos viados. Com i.

* Luis Saraiva é psicólogo e pesquisador. Foucaultiano apaixonado. Clariciano angustiado. Curioso em saber como nos tornamos o que nos tornamos. Apreciador do inadequado. Conversa com o vento e fica em silêncio. E prefere não.

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