Prêmio Rio Sem Preconceito dá troféus por luta contra discriminação

Cantora Daniela Mercury comemorou com beijo na esposa Malu Verçosa.

‘Parece que em pleno século 21 nada mudou’, diz premiada Glória Pires.

Isabela Marinho, do G1 Rio

Daniela Mercury, também premiada durante o Rio Sem Preconceito,
comemorou o troféu beijando a esposa Malu Verçosa (Foto: Isabela Marinho/G1)

A entrega do Prêmio Rio Sem Preconceito, na noite desta terça-feira (26), no Teatro Carlos Gomes, no Centro do Rio, homenageou personalidades que de alguma forma contribuíram na luta contra a discriminação na cidade e no país. Ao todo 14 pessoas foram homenageadas. Uma das eleitas para subir ao palco e receber o prêmio, a cantora Daniela Mercury comemorou a entrega do troféu beijando a esposa Malu Verçosa.

“Vamos tirar uma foto porque uma imagem vale mais que mil palavras. Ela [Malu] não gosta muito de fazer isso em público, mas vamos fazer”, disse a cantora ao beijar a jornalista. “A nossa luta é pelos direitos humanos, não só contra a homofobia. Ela [Daniela Mercury] é a pessoa mais especial que eu conheço”, respondeu a jornalista Malu Verçosa.

Daniela Mercury aproveitou para criticar a Comissão de Direitos Humanos. “E aqueles deputados da Comissão de Direitos Humanos que ainda estão lá? Ninguém tira eles de lá. Eu queria dizer ao deputado que eu não cito mais o nome: Deus não quer ninguém que incite o ódio entre as pessoas. Fica aqui o meu protesto. Me irrita todos os dias saber que esses deputados ainda estão lá”, disse a cantora.

O evento, organizado pela Coordenadoria Especial da Diversidade Sexual (Ceds), destacou a necessidade de acabar com todo o tipo de preconceito — não somente o da discriminação sexual. Um grupo de bailarinas deficientes visuais da Associação de Ballet e Arte para Cegos Fernanda Bianchini, por exemplo, emocionou o público após uma apresentação intensa.

‘Parece que em pleno século 21 nada mudou’,
diz premiada Glória Pires.
(Foto: Isabela Marinho/G1)

Glória Pires foi a primeira a receber a premiação. A atriz encenou a arquiteta Lota de Macedo Soares, que no filme “Flores Raras” viveu um romance com a escritora norte-americana Elizabeth Bishop. “Eu me solidarizo. Parece que em pleno século 21 nada mudou. Mas mudou sim. Nós estamos aqui hoje. É um prazer e uma honra muito grande estar aqui”, disse Gloria Pires.

Foram agraciados também o deputado federal do PSOL Jean Willys, o ministro do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa e a cantora do The Voice Brasil Elle Oléria.

Outra premiada foi a cantora Preta Gil. Vencedora pela segunda vez, ela destacou que a sexualidade não foi o único tabu que encarou desde a adolescência.

“O primeiro preconceito que eu sofri na minha vida era ser a única de seis filha com cabelo liso. Eu não me reconhecia ali. A gente tem que ser o que a gente é. Eu fui orientada a ser o que eu sou. Eu sou negra, gordinha, bissexual”, disse a filha do cantor Gilberto Gil.

Autor da novela “Amor à Vida”, Walcyr Carrasco explicou a escolha de um protagonista homossexual. No romance, o personagem Félix cativou o público. “Com o protagonista que uma pessoas chamam de bicha má. Se você disser que essa bicha é má todas vão ser assim. Todo mundo me disse que essa novela ia ser um fracasso. Tive a sorte de ter um grande ator que é o Mateus. Eu quis explorar essa bicha má não por ser engraçado, mas expor esse ódio que ele sentia de si mesmo e isso vinha da homofobia que ele sofria dentro de casa. Homofobia é o cara que diz eu não tenho preconceito, só não quero que meu filho seja gay”, disse o autor.

A cantora Ellen Oléria foi a quinta premiada. A vencedora da primeira edição do The Voice Brasil é homossexual e se uniu a a Polyana Martins este ano. Ela dedicou o prêmio à parceira. “Me sinto lisonjeada em estar sendo homenageada quando se fala na luta contra o preconceito”, disse Ellen, que aproveitou para cantar um trecho de “Fé Cega, Faca Amolada” e “Maria, Maria”, de Milton Nascimento.

Cissa Guimarães também marcou
presença na premiação
(Foto: Isabela Marinho/G1)

Fernanda Montenegro, Dira Paes e Cissa Guimarães também foram escolhidas pela Ceds para receber o prêmio. Fernanda Montenegro não  esteve na premiação porque foi a Nova Iorque receber o Emmy Latino.

“A gente está no século 21 e uma palavra chamada preconceito não deveria estar mais no dicionário. Estamos na era dos pós-conceitos. Espero que os meus netos não encontrem mais essa palavra. Eu não suporto intolerância. A gente tem que lutar, respeitar, cuidar. Respeito é bom, eu gosto, quero que todo mundo tenha”, disse Cissa Guimarães.

“O preconceito é letal. Ele mata e mata muito. Isso me impressiona. O que tento fazer é com que as pessoas se sintam contaminadas com a promoção do amor, do afeto e da fé. Abaixo o preconceito, ele é letal”, disse a atriz Dira Paes.

O presidente do Supremo Tribunal Federal não pôde comparecer para receber o prêmio.

O deputado federal do PSOL/RJ Jean Wyllys
foi premiado pela atuação política
(Foto: Isabela Marinho/G1)

O deputado federal Jean Wyllys dedicou o prêmio à prostituta Gabriela Leite, criadora da ONG Davida e da grife Daspu, que morreu este ano. “Gabriela Leite merecia receber este prêmio se aqui estivesse”.

Mãe Beata de Yemanjá, que luta pelo combate à intolerância religiosa, foi escolhida pelos homenageados da premiação ocorrida em 2011. Ela, que já discursou na ONU, disse que ” não existe brancos no Brasil, somos todos negros”.

A Ceds convocou os internautas para escolher um homenageado. O voto popular elegeu a paraense Bruna Lorrane – responsável pela criação do nome social para transexuais. “A segregação do LGBT se dá pelo preconceito, discriminação e violência. Nós somos tratados sempre como quase. Temos sempre que fazer a mais, que fazer diferente. Eu fui um quase menino. Hoje em dia eu sou uma quase mulher. Eu poderia ter uma união estável, posso quase casar”, disse a transexual.

Padre Beto, que foi expulso da igreja por apoiar os gays, também foi premiado. “Depois de 10 anos na Alemanha, retornei à Diocese de Bauru. Não podíamos contestar regras católicas. A postura da Igreja Católica é homofóbica. Em um país como o nosso dizer que usar camisinha é pecado é uma grande ignorância. Durante 14 anos orientei jovens. O desamor é que não vale. E por não ser um padre que canta, eu fui excomungado pela Igreja Católica, mas não pelo povo. Jesus Cristo era um anarquista. Talvez tenha sido bissexual porque não tinha preconceito algum”, disse Padre Beto.

Fonte: http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2013/11/premio-rio-sem-preconceito-da-trofeus-por-luta-contra-discriminacao.html

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