Pela primeira vez na história, Índia elege prefeita transgênero

Vitória da comunidade LGBT vem após Suprema Corte indiana reconhecer status legal de “terceiro gênero” no país em abril de 2014

Publicado pelo site Opera Mundi, em 5 de dezembro de 2015

MadhuKinnarA candidata independente transgênero Madhu Kinnar venceu as eleições municipais na cidade de Raigarh, situada no leste da Índia. Trata-se da primeira vez que uma pessoa transgênero conquista o cargo político no país, menos de um ano depois de a Suprema Corte indiana reconhecer a existência de um terceiro gênero em território nacional.

“As pessoas mostraram fé em mim”, declarou Kinnar à New Dehli Television após sair o resultado do pleito. “Eu considero essa vitória como uma demonstração de amor e bênção das pessoas em mim. Farei meus melhores esforços para realizar o sonho delas”, acrescentou.

Aos 35 anos de idade, a candidata veio da casta Dalit, tida como “impura” e socialmente inferior no país. Em Raigarh, ela venceu com uma diferença de 4.537 votos um opositor do Partido do Povo Indiano (BJP, na sigla local), o mesmo do atual primeiro-ministro indiano nacionalista, Narendra Modi.

No entanto, não são todos que estão comemorando a vitória histórica da comunidade LGBT na cidade. “O povo de Raigarh estava cansado com a corrupção do BJP, por isso votaram em Madhu. Não foi uma vitória dela, mas uma perda para o BJP”, classificou o presidente da câmara local, Narendra Negi.

Questão do terceiro gênero

Em meados de abril de 2014, a Suprema Corte da Índia reconheceu o status legal do terceiro gênero no país ao aprovar uma medida que ordena o reconhecimento das pessoas transgênero por parte do governo. Até então, pessoas trans tinham de optar pela classificação “homem” ou “mulher” nos documentos oficiais.

Desde então, elas passam a integrar o sistema de “discriminação positiva” que, desde 1950, reserva postos de trabalho público e em universidades aos membros das castas baixas. A integração vem após a Corte pedir ao Executivo para considerá-las como um grupo “social e economicamente subdesenvolvido”.

O processo começou em 2012 por um grupo de ativistas que buscavam direitos iguais perante a lei para a comunidade transgênero. De acordo com o órgão judicial, as pessoas trans devem ter acesso à educação e a todos os outros direitos, inclusive a oportunidades iguais “para que cresçam e alcancem seu potencial, sem importar sua casta, religião ou gênero”.

Na Índia, pessoas trans e eunucos enfrentam grande discriminação e, muitas vezes, não encontram oportunidades fora da prostituição, por serem rejeitadas por suas famílias e pela sociedade. No país, a homossexualidade havia sido legalizada em 2009; entretanto, em dezembro passado, o Supremo indiano voltou atrás e a declarou ilegal.

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