23 de julho de 2024

Kéren Morais (keren@agenciaaids.com.br)
Publicado pela Agência de Notícias da Aids, em 20/11/2023

Fotografia por Fabiana Oliveira / Maquiagem por Aila Campos

Na celebração do Mês da Consciência Negra, a Agência Aids em sua série especial, tem mergulhado em diferentes histórias de pessoas negras HIV+, destacando o poder da representatividade preta positiva.

Dando continuidade a série, a Agência homenageia a seguir a força da mulher preta, brasileira, nordestina e HIV positiva, relatando as trajetórias e vivências carregadas de garra e potencial de quatro ativistas que integram o Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas (MNCP) e que compartilham corajosamente suas experiências, dores, afetos, memórias, alegrias, sabedorias ancestrais, angústias e conquistas vivendo com o HIV.

Marylene Oliveira foi criada pelos avós maternos devido a um relacionamento complicado entre seus pais. Seu pai era um homem gay que casou-se com sua mãe por pressão social da época. “Meu pai era um homem gay e o casamento dele com minha mãe foi um engano, naquela época quando um rapaz mexia com uma moça, ele tinha que casar”.

Mesmo crescendo em um ambiente familiar amoroso, Marylene enfrentou discriminação não por sua raça, mas pela orientação sexual de seu pai, ouvindo comentários homofóbicos ao longo dos anos por familiares. Entretanto, apesar das adversidades, segundo ela, a educação recebida de sua avó, que a incentivou a respeitar todas as pessoas, moldou seu caráter e uma consciência sólida.

Negritude e ativismo

“Para me reconhecer e poder dizer hoje em qualquer espaço que sou uma mulher negra levou um tempo”, afirma. Este reconhecimento de sua identidade como mulher negra veio gradualmente, surgiu especialmente após seu envolvimento no movimento social de luta contra a aids, depois de descobrir o seu diagnóstico positivo para o HIV; a partir de então, pode adquirir letramento e consciência racial, abraçando a força de sua negritude.

Marylene destaca a importância de se amar e compreender para poder amar os outros. Mulher de axé, criada em um ambiente de terreiro, ela também teve que enfrentar olhares discriminatórios, mas conta que sua atitude positiva sempre prevaleceu. Para a ativista, a luta por uma vida melhor inclui o respeito às diferenças e a busca contínua pela união entre as mulheres, sobretudo, das mulheres pretas vivendo com HIV, que além da sorofobia precisam lidar com o racismo. “Precisamos nos unir e cultivar o respeito entre nós mesmas, sem qualquer embate […] talvez o preconceito nunca acabe, mas a gente luta para a conquista de uma vida melhor para todos […] as diferenças existem e sempre vão existir, mas precisamos conviver com elas”.

Marylene compartilha que seu maior sonho hoje ainda é a conquista de sua casa própria; para o coletivo, ela almeja um futuro próspero para além de quaisquer barreiras raciais.

Além do diagnóstico

Já Juliana Dias, pernambucana de 38 anos, descobriu que tinha contraído HIV depois de sofrer 2 AVCs. “Tive sequelas naquela época, descobri que meu marido tinha me passado HIV, perdi universidade e somente agora consegui retomar a minha vida estudantil”.

Ela diz que ninguém fora do seu meio sabe que ela é uma mulher vivendo com HIV e que por insistência do seu falecido marido demorou para abrir a sorologia para sua filha. “Ele não queria que ninguém soubesse, mas eu queria contar à minha filha, […] eu expliquei e ela entendeu, disse que já sabia disso por conta da escola. Foi um alívio pra mim”.

Juliana hoje é ativista e diz que foi incentivada por uma amiga a fazer parte Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas (MNCP), movimento de luta que defende os direitos das mulheres vivendo com HIV/aids. Conforme foi entendendo mais do assunto e dividindo suas experiências entre pares, Juliana tornou-se educadora social ajudando outras mulheres que compõem o movimento. “Com 2 anos com HIV fui encorajada a conhecer o MNCP, me envolvi com a causa e agora presto orientações sobre sexualidade e prevenção […] é sempre um aprendizado trabalhar com essas mulheres, ajudando a espalhar conhecimento”.

Segundo relata a militante, viver com o vírus lhe empoderou e possibilitou se descobrir enquanto mulher negra e toda a força e potencialidade que há em sua ancestralidade. A quebra de paradigmas de Juliana na forma de enxergar sua negritude partiu da força do seu cabelo afro. “Me empoderei, descobri quem eu sou e pude passar a ser eu mesma. Assumi meus cachos e hoje entendo [de fato] o que significa ser uma mulher negra”.

Juliana deixa um recado para outras mulheres negras que foram diagnosticadas com HIV: “Tenha fé, procure conhecimento e encontre alguma instituição que possa te ajudar nesta jornada, com auxílio e acolhimento”.

Os desafios da maternidade solo

A história da carioca Glória Pinheiro, de 58 anos, se assemelha com a de suas companheiras de luta. Também ativista, Glória descobriu viver com o vírus da aids depois que perdeu o marido que era HIV+. A descoberta veio na década de 1998, quando a epidemia era cercada de desinformação e estigmas em massa. “Depois que meu marido faleceu, descobri que tinha o vírus e fui aconselhada a fazer exames”.

Ela conta que quando começou a frequentar o movimento feminino de mobilização social contra a aids, naquele contexto estava enfrentando um momento complicado em sua vida, pois era recém viúva e se deparou com a responsabilidade de cuidar de seu filho sozinha. “Eu estava vivendo uma situação muito difícil e pesada, comecei a frequentar reuniões de mulheres no Rio de Janeiro para conversar, dividir os problemas, minhas dúvidas […] isso era muito importante para nós todas, porque saindo dali ficávamos fechadas em nossos mundos”.

Como mulher e negra, Glória diz que precisa se reinventar todos os dias e tenta levar a vida da forma que consegue. “Levo com bastante dificuldade, pois preciso trabalhar e estudar, mas não consigo participar de projetos a longo prazo […] tem dias que estou bem, tem dias que não estou… o emocional fica bastante abalado”.

Ela reflete o quanto é importante as mulheres pretas terem liberdade de falarem de suas dificuldades, vulnerabilidades e angústias relacionadas ao HIV, para que assim possam se fortalecer e encontrar força umas nas outras. “Um sonho que tenho enquanto mulher negra, de classe baixa e soropositiva é poder sempre ter a liberdade para falar do assunto que antes não era possível, devido ao preconceito”.

“Precisamos nos unir para nos fortalecer, precisamos da cura porque conviver com medicação ameniza e faz com que não desenvolvamos doença, mas é difícil as outras partes [da vida], ficamos vulneráveis principalmente quando somos pobres e precisamos estar no mercado de trabalho, cuidar dos nossos filhos […] não precisamos só de medicamentos, precisamos de outros recursos para continuarmos bem e vivas”, finaliza.

Enfrentei o preconceito e me fortaleci 

Cássia Dantas, 54, filha do policial Wilson Oliveira e da lavadeira Vilma Dantas, é nascida e criada em Itabuna, na Bahia. Com cinco irmãos paternos e uma irmã materna, Cássia teve uma infância tranquila, cercada de bons amigos. Sobre sua relação com a negritude conta: “foi permeada por ensinamentos de ter ciência e consciência do meu lugar de pertencimento, que deveria lutar para ocupar estes espaços de aquisição do conhecimento e que somente através  da educação alcançaria meus objetivos e conquistaria um espaço de poder libertário para contribuir com a coletividade”.

Cássia compartilha que descobriu sua sorologia positiva para o HIV em 2002; naquele mesmo ano, sua adesão ao tratamento foi cheia de medos, insegurança e receios, segundo ela, por conta da falta de informação, conhecimento, preconceito e da discriminação da época. “Passei por momentos dolorosos, fui julgada pela grande maioria, mas também contei com o apoio de amigos fiéis e verdadeiros que me trataram com amor respeito e solidariedade e que muito contribuíram para que eu chegasse onde cheguei vencendo meus medos”.

Vivendo já há 20 anos com HIV, a ativista ainda hoje se emociona ao trazer à memória todos os desafios enfrentados e conquistas ao longo de sua trajetória positiva. “Choro só em relembrar tudo que eu vivi ao longo desses vintes anos convivendo com pessoas perversas, maldosas que faziam questão de divulgar minha sorologia sem autorização, levando-me à depressão. Sofri preconceito e discriminação institucional, tive meu sigilo quebrado no CTA e no local de trabalho. Passei por todo tipo de preconceito e discriminação. Todo o sofrimento que essas pessoas me fizeram me fortaleceu.  Essas pessoas que se diziam do bem e de família decretaram minha morte civil, só se esqueceram que aquele que me sustenta nunca me desamparou”.

A militante pelo MNCP e pelo movimento negro organizado reforça que as mulheres pretas enfrentam discriminação em diversas frentes, primeiro devido ao gênero, em seguida pela combinação de ser mulher preta e, por último, por ser mulher pobre. Todas essas camadas de discriminação as tornam vulneráveis e viver com HIV/aids neste contexto, segundo ela, é especialmente desafiador, uma vez que estão sujeitas não apenas ao sexismo, ao racismo e à disparidade de classe, mas também precisam lidam com o estigma persistente e a discriminação que remontam aos anos 80, no início da epidemia.

“Experimenta nascer mulher, preta, pobre e de periferia vivendo com HIV/aids no Brasil, no mundo. Você sobrevive! Isso traduz todas as violências estruturais, toda discriminação e preconceito que possa existir. É ser alvo todo santo dia. […] Para as mulheres pretas com HIV/aids que assumem sua condição e são reconhecidas pela sociedade como pessoas que vivem com o vírus, a situação torna-se ainda mais complexa se forem lésbicas, pois enfrentam um peso adicional de discriminação [em razão da LGBTfobia estrutural].”

Identificação e troca entre pares

“Poder trocar com outras mulheres pretas vivendo com HIV é muito significativo e importante em saber que você não está sozinha com suas dores. Que outras mulheres vivenciaram e vivenciam as mesmas angústias, preconceitos e discriminação, mas que apesar de vivermos com HIV/aids não perdemos nossa essência, não deixamos de ser gente, (porque só saberem que temos HIV/aids somos tratados como lixo) de ser mulher, de ter desejos e anseios. É sabermos que apesar de estarmos na invisibilidade resurgimos das cinzas, dentro dos espaços de poder o qual reinvidicamos nossos direitos numa luta feminista e humana. Nós mulheres pretas somos maioria infectada com o vírus da aids, mas não lutamos somente contra o HIV/aids, mas sim contra o racismo na invisibilidade das mulheres dentro da luta feminista hegemônica. Nossa luta tem um caráter reflexivo sobre as Políticas Públicas de assistência a essas mulheres. Apesar de sermos maioria no que diz respeito à população, ainda somos minoria nos espaços de representação de poder. Nossa luta é que estejamos incluídas em todas as Políticas Públicas que são pensadas no Brasil. É preciso pensar em Políticas Públicas de gênero, raça, de classe e como poderemos estar inserindo essas outras mulheres  que historicamente são invisibilizadas e excluídas. Se faz necessário ter muita sensibilidade, empatia, sobretudo nas políticas de saúde, educação e promoção social para que essas mulheres estejam nos programas sociais, pois temos que pensar a partir dessa diversidade que a condição de ser mulher é para todas […]”, destaca.

“[…] com a presença de uma tríplice discriminação vivenciada cotidianamente pelo fato de ser mulher, preta e pobre, com tudo isso podemos afirmar que a vulnerabilidade ao HIV/aids que as mulheres negras estão expostas é consequência também da violência estrutural que incidir de modo mais perverso sobre nós, assim como a exclusão social, a qual estamos submetidas que influencia tanto no desenvolvimento como continuidade dos programas de prevenção que ainda não chegam a essas mulheres, principalmente nas comunidades pobre e vulneráveis. Para mim, adentrar o Movimento Social foi fortalecedor para atuar e defender minhas bandeiras de lutas que não foram e nem são pautadas somente acerca do HIV, o movimento me levou a refletir sobre qual era a minha responsabilidade para com os meus pares que ainda não tinham voz para reivindicarem seus direitos. Iniciei militando no Movimento Negro Unificado de Itabuna, depois no GAPA Itabuna e posteriormente na RNP+Brasil e o MNCP movimentos estes que me fortaleceram para vencer os obstáculos, lutar para defender os direitos a assistência, saúde e educação de qualidadeve igualitária para todos e todas”.

O maior sonho de futuro de Cássia é a chegada da Cura da aids; e se pudesse definir a si mesma com duas palavras, conta que escolheria: resistência e superação. 

Aquilombamento e infâncias pretas

Quanto ao futuro de sua comunidade, destaca que sonha com um enfrentamento ao racismo cotidiano que se baseie na união e fortalecimento da mulher preta, empoderando principalmente as infâncias pretas. “Se uma criança preta cresce entendendo a importância da sua etnia para a história da humanidade, certamente será mais uma a lutar contra o racismo e a desigualdade […] para as meninas e mulheres pretas, a mensagem que deixo é: enfrentar o racismo é uma luta diária, pra isso se faz necessário nos valermos de mecanismos para combater e enfrentar o racismo vivenciado no cotidiano. E que com relação às violências sofridas pelas mulheres pretas, precisamos ter o autoconhecimento do nosso lugar de pertencimento, de quem somos, da nossa ancestralidade, da herança ancestral das mulheres que vieram antes de nós e aprendermos com elas e com a forma como elas resistiram. Que possamos seguir denunciando todo e qualquer tipo de racismo e para esse enfrentamento; precisamos então nos organizar, porque tudo que conseguimos advém da luta coletiva. Precisamos atuar e agir sempre em coletividade”.

Clipping LGBT+ no Instagram
Clipping LGBT+ no Facebook

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *