Crônica de um massacre autorizado

novosdialogosPor Marcos Monteiro*
Publicado na página Novos Diálogos,
no Facebook, em 23 de junho de 2016

Sobre o massacre acontecido domingo passado (12/06/2016), em Orlando, Flórida, é imperativo que se derrame uma enxurrada de textos e uma dose maciça de silêncio. Muita coisa se tem dito e muita análise de qualidade tem sido feita, mas a impressão que tenho é de que é muito pouco ainda. Quase como se fosse necessário parar todo outro pronunciamento e toda outra notícia para nos debruçarmos sobre esse momento, simbólico e assustador. De repente, toda a violência humana invadiu aquela boate, tornada uma espécie de buraco negro social, sugando toda a energia ao redor e aprisionando toda luminosidade humana.

Nesses momentos, simplesmente detesto as notícias televisivas. Porque o repórter precisa transmitir informações e fazer comentários no tom adequado com a emoção estudada, e o massacre me deu o direito de não ser obrigado a suportar isso. O jornalista hoje em dia tornou-se um fofoqueiro profissional e um ator de si mesmo, a serviço de qualquer coisa. Por isso, sobre tamanho derramamento de sangue precisamos de um derramamento de textos, desde textos panfletários até textos acadêmicos, com o compromisso apenas de que sejam textos dolorosos e indignados porque o massacre de seres humanos é massacre da humanidade. Também quando um ser humano assassina outro, assassina no outro a sua própria humanidade. Emblematicamente, Omar Mateen recebeu de volta a violência que desencadeou e foi morto pela polícia.

O massacre ocorreu nos Estados Unidos, espécie de paraíso da ideologia neoliberal, mas confortavelmente o assassino tinha nome de estrangeiro e era filho de afegãos, o que todo mundo tenta ressaltar, as vítimas ainda são anônimas.

Convenientemente também, o Estado Islâmico reconheceu a autoria, o que limita o massacre a um atentado terrorista feito por estrangeiros, fanáticos de outra religião: foi um massacre autorizado.

Mas esse ato é o holograma de uma totalidade cultural de violência em que estamos mergulhados, violência física, estrutural e simbólica. No campo do simbólico, a violência sagrada ocupa um lugar destacado porque propriamente sagrada, feita em nome de absolutos que não precisam, por definição, prestar contas a ninguém. Então, mais do que nunca textos teológicos dolorosos e indignados precisam fazer parte da cachoeira de textos de que precisamos. Um pastor batista fez imediatamente um pronunciamento classificando o massacre como “excelente” e disse banalizando a dor de centenas de “gays” e de suas famílias que “podíamos hoje dormir mais tranquilos”. Afinal, os “sodomitas” precisam desaparecer da sociedade porque são “abominação”.

Infelizmente, esse pastor não está sozinho. Sermões, estudos, pronunciamentos públicos ou rancorosos ou disfarçados de amorosidade, campanhas para negar mais direitos aos gays, são organizados por pastores e igrejas cristãs ocidentais, que reforçam preconceito e discriminação e autorizam direta ou indiretamente a violência. A luta contra a chamada “ideologia de gênero” na educação é apenas a luta para que as crianças não tenham nas escolas a oportunidade de contraponto a uma educação homofóbica que recebem em casa e nas igrejas cristãs, em sua maioria.

A homofobia está incrustrada igualmente na estrutura social. Desde a discriminação diante da oportunidade de trabalho até à proibição implícita de um comportamento visível, na maioria dos lugares públicos. Os meus amigos homossexuais sabem que não podem passear de mãos dadas em um Shopping Center, por exemplo. Beijo na boca, nem pensar, isso é um direito apenas para héteros. A comunidade evangélica organizou uma verdadeira cruzada contra uma novela em que aparecia um beijo na boca entre mulheres no primeiro capítulo e nunca organizou nenhum movimento contra o assassinato sistemático de gays, nem vai fazer algum pronunciamento público contra o massacre acontecido agora. Entre o beijo e a morte, o problema é o beijo.

A existência de boates gay é a denúncia de um apartheid sexual óbvio. Todo mundo sabe que numa boate de todas e todos, gays não podem dançar juntos, desejem ou não desejem, se beijarem na boca ou se esfregarem escandalosamente. Héteros podem. “Gay” significa alegre e toda alegria não normativa é perigosa, já achava a teologia de “O nome da Rosa”, o famoso romance de Umberto Eco. Um lugar programado para a alegria e para o prazer se tornou em matadouro de carne humana. E parte da população oferece esse sacrifício humano a Alá, a Javé e até mesmo a Jesus Cristo.

Então, Omar Mateen é apenas o braço armado de uma sociedade homofóbica e o momento é de profunda reflexão sobre os instantes em que cada um de nós colocou mais pressão na panela e mais lenha na fogueira. O simples fato de repassar aquilo recebido sem exames mais profundos e com um tipo de misericórdia melosa e superficial nos faz cúmplices, faltando apenas a honestidade do Estado Islâmico de reconhecer a autoria. O massacre também foi autorizado por nossa teologia que tem cheiro de mofo e está manchada de sangue. Não dá mais para esconder.

Precisamos de uma abundância de textos e depois de silêncio. Precisamos desautorizar todo pronunciamento, toda chacota, todo riso nervoso diante de piadinhas sem graça, toda repetição de chavões populares, todo sermão superficial e generalizante, toda discussão descabida, todo estudo bíblico superficial, todo debate inútil sobre se o amor entre homossexuais é pecado. Porque diante de tamanha violência sobre tantas vítimas, um minuto de silêncio é muito pouco, precisamos de uma eternidade.

* Marcos Monteiro é assessor de pesquisa do Centro de Pesquisa, Estudos e Serviço Cristão (CEPESC). Mestre em Filosofia, faz parte do colégio pastoral da Comunidade de Jesus em Feira de Santana (BA) e do grupo de pastores da Primeira Igreja Batista em Bultrins, Olinda (PE). Também faz parte da diretoria da Aliança de Batistas do Brasil e é membro da Fraternidade Teológica Latino-americana do Brasil.

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