16 de abril de 2024

Com medicamentos antirretrovirais, pessoas com HIV têm qualidade de vida e longevidade preservadas, e podem nunca desenvolver a aids. Com tratamento, o vírus pode se tornar indetectável e intransmissível.

Por Milena Félix
Publicado pelo Portal Drauzio Varella, em 9 de agosto de 2023

Matheus Maia, de 26 anos, é jornalista, atleta, e também uma pessoa que vive com HIV. A descoberta veio por meio de um teste espontâneo, que acusou a presença do vírus no organismo do jovem que acabava de completar a maioridade. “Eu ali com 18 anos me vi frente ao fim da vida, para mim aquele era o ponto final de tudo. A primeira coisa que me veio à cabeça foi que não tinha salvação, cedo ou tarde eu ia morrer de aids“, relembra o dia do seu diagnóstico.

Ainda sem muita informação, Maia recorreu à família, amigos da faculdade e também ao atendimento médico. Em pouco tempo, descobriu a existência dos medicamentos que mudariam suas perspectivas de vida. “Eu rapidamente consegui uma médica particular, e acho que em menos de uma semana já tinha feito a minha primeira consulta e os primeiros exames de sangue, então, logo, eu já consegui fácil acesso aos medicamentos”, conta. No Brasil, os medicamentos antirretrovirais para controle do HIV são distribuídos única e exclusivamente de forma gratuita pelo SUS, ou seja, não é possível comprá-los.

Hoje, oito anos depois do diagnóstico, Maia já utilizou dois tipos de medicamentos: o comprimido 3 em 1, que reúne as drogas tenofovir, lamivudina e efavirenz, usada no início do tratamento do jovem, em 2015; e dois comprimidos que toma atualmente, um contendo as drogas fumarato de tenofovir, desoproxila e lamivudina e outro com dolutegravir sódico. No primeiro caso, houve efeitos colaterais. “Era um remédio extremamente eficaz, mas tinha vários efeitos colaterais. Desde lipodistrofia [alteração na disposição de gordura no corpo], desenvolvimento das glândulas mamárias, muita insônia, pesadelo, alucinação, e vários problemas psíquicos”, relata. Porém, com a segunda opção medicamentosa, que toma atualmente, Maia conta não ter tido nenhum efeito colateral, e uma ótima eficácia.

Com o tratamento em dia, Maia tem uma vida completamente normal. Atingiu o estágio de vírus indetectável e, portanto, não transmite mais o HIV, e passou a cuidar da própria saúde: “Fui construindo um novo estilo de vida, eu sempre fui uma pessoa que gostava muito de fazer algum tipo de atividade física, e hoje em dia é parte do meu cotidiano. Depois disso tudo, eu aprendi a me priorizar e a me cuidar mais, independentemente de qualquer coisa”.

O HIV é o causador da síndrome da imunodeficiência adquirida (aids), e, graças aos estudos sobre o comportamento do vírus, é que se pôde desenvolver medicamentos capazes de controlar e evitar a doença. A oficial de igualdade de direitos do  Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (UNAIDS) e pesquisadora Ariadne Ribeiro descreve a atuação do vírus no corpo humano. “O HIV é um vírus silencioso, portanto não tem sintoma. O vírus vai passar de um organismo para outro. Durante o percurso de sair de um corpo até infectar as células de defesa do outro, acontece a soroconversão, que pode durar cerca de 14 dias. Algumas pessoas, nesses dias, podem ter sintomas gripais, náuseas, um desconforto intestinal, mas não é muito comum”, explica a cientista.

É nesse período de soroconversão que pode agir a profilaxia pós-exposição, ou PEP. Esse tratamento é disponibilizado gratuitamente pelo SUS, e consiste em medicamentos antirretrovirais, que previnem a multiplicação do vírus no organismo. A PEP é indicada em casos de violência sexual, acidentes com objetos cortantes, e também em relações sexuais de risco. Vale lembrar, porém, que o tratamento precisa ser iniciado o mais rápido possível, até 72 horas após o contato, e deve ser feito por 28 dias.

De acordo com Ariadne, na década de 1980 era comum ver pessoas com aids com sarcoma de Kaposi, um tipo de tumor característico de pessoas imunossuprimidas. Além disso, sintomas como magreza extrema e lesões na gengiva eram comumente encontrados. Em 1996, o Brasil começou a oferecer medicações, porém, somente a pacientes com a imunidade muito comprometida. Foi apenas a partir de 2013 que o Ministério da Saúde passou a fornecer a medicação para todas as pessoas que vivem com o vírus. “Essa é a estratégia que combina tratamento com prevenção, porque se todas as pessoas que vivem com HIV tiverem acesso à medicação antirretroviral, isso salva a vida delas e também suprime a carga viral. Enquanto o vírus estiver indetectável, não há transmissão por via sexual, e a gente consegue fazer uma quebra da cadeia de transmissão”, explica.

Apesar de a medicação disponível atualmente ser um grande avanço na garantia de longevidade e qualidade de vida às pessoas que vivem com HIV, elas ainda não são uma cura. “A medicação antirretroviral vai seguir o princípio da inibição da protease e da transplantase reversa [enzimas utilizadas pelo vírus para se replicar]. E aí a associação da bioutilização desses dois componentes faz com que, quando uma pessoa é infectada, o vírus seja eliminado na corrente sanguínea. A gente não pode chamar isso de cura porque existem alguns santuários dentro do organismo de cada indivíduo, por exemplo, na cabeça, então algumas células infectadas vão ficar nesse santuário, adormecidas por muito tempo até que depois que não tiver mais a medicação correndo na corrente sanguínea, elas possam voltar e se replicar”, esclarece Ariadne.

É importante, portanto, que a pessoa que vive com HIV faça o uso correto dos medicamentos regularmente, sem parar de tomar os remédios, preferencialmente, nem por um dia. De acordo com Ariadne, existe uma tolerância de alguns dias, porém, a adesão precisa ser a maior possível. Segundo a pesquisadora, os medicamentos conseguem suprimir a carga viral em, no máximo, seis meses, de acordo com o organismo de cada pessoa.

Aids e desigualdade

Um dos objetivos do UNAIDS é enfrentar o HIV por meio do combate às desigualdades. Ariadne explica qual a relação entre o desenvolvimento da aids e questões sociais: “A gente vai ter discriminações somadas. O maior número de mortes relacionadas à aids é entre mulheres negras pobres. Além disso,  a primeira década de aids marginalizou ainda mais as pessoas LGBTs, principalmente gays e trans, excluindo estes grupos da sociedade. E aí esse público não consegue se tratar nem acessar nenhum tipo de política pública porque a sociedade vai fazer uma barreira”, explica a pesquisadora.

Segundo Maia, três dicas para quem acabou de descobrir a infecção pelo HIV, ou para quem está com suspeita, são:

  • Se você está em fase de descobrimento sexual, busque a prevenção combinada, com o uso da camisinha, e da profilaxia pré-exposição (PrEP), que deve ser utilizada diariamente por pessoas que consideram estar sob risco de infecção pelo HIV;
  • Se você descobriu o HIV, lembre-se e mentalize todos os dias: você é muito maior que um vírus. A partir de agora, você só vai precisar se adequar ao uso de uma medicação diária e ter mais atenção com a sua saúde.
  • Se você tem uma suspeita, vá a um posto de saúde o mais rápido possível, teste-se e oriente a pessoa com quem você está também a se testar.

* Mais informações sobre HIV/Aids acesse www.unaids.org.br 

Sobre a autoraMilena Félix é jornalista, redatora e, nas horas vagas, escritora e viajante. Interessa-se por assuntos relacionados à saúde da mulher, meio ambiente e à saúde e sociedade.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *