4 de março de 2024

Kéren Morais (keren@agenciaaids.com.br)
Publicado pela Agência de Notícias da Aids, em 20/10/2023

A Profilaxia Pré-Exposição, mais conhecida como PrEP, é um dos avanços significativos na prevenção do HIV. No entanto, desde a sua implementação enquanto estratégia de prevenção, muitos mitos e equívocos cercam o uso desta profilaxia.

Disponível no SUS desde 2018, na modalidade oral, ainda há um desencontro de informações quando o assunto é prevenção combinada e a falta de conscientização, desinformação e estigma associado ao uso da PrEP podem impedir a adesão. Além disso, equívocos sobre a PrEP, como a ideia de que ela substitui o uso de preservativos na prevenção de todas as ISTs, precisam ser esclarecidos.

Existe ainda a PrEP injetável, que é uma forma de prevenção do HIV em que medicamentos antirretrovirais são administrados por injeção em intervalos regulares, em vez de comprimidos diários. Um exemplo é o Cabotegravir, que funciona da seguinte forma: o paciente recebe a primeira injeção, toma uma segunda dose quatro semanas depois e, depois disso, precisa receber uma dose a cada oito semanas (dois meses). Essa abordagem é uma alternativa para pessoas que têm dificuldade em aderir ao tratamento diário com comprimidos, sendo mais uma opção conveniente de proteção ao vírus. A modalidade de PrEP injetável foi aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em junho deste ano, mas ainda não foi incorporado no Sistema Único de Saúde (SUS).

Para simplificar o assunto, a Agência Aids conversou com o médico infectologista Mateus Cardoso (foto), que atende no Centro de Referência e Treinamento DST/Aids em São Paulo. O médico traz uma visão mais ampla sobre o medicamento profilático, esclarecendo as principais dúvidas, mitos e verdades, e o seu impacto no contexto brasileiro. Confira:

A PrEP é 100% eficaz na prevenção do HIV?

Dr. Mateus Cardoso: Diversos estudos internacionais publicados desde 2010 e realizados em diversos países, com diferentes grupos étnicos e perfis de comportamentos sexuais demonstraram que os níveis protetores para infecção de HIV são muito elevados. Vale lembrar que como qualquer medicamento ou imunizante, a proteção não é total, portanto é importante que os profissionais da saúde reforcem metodologia de prevenção combinada, ou seja, estratégias de uso simultâneo de diferentes abordagens de prevenção, por exemplo, rastreio de infecções sexualmente transmissíveis.

A boa adesão a PrEP influencia em sua eficácia?

Verdade. Os estudos demonstraram que quanto maior o grau de adesão, maior será a manutenção da concentração do medicamento na corrente sanguínea e tecidos. Esses níveis adequados são fundamentais para a proteção.

A PrEP protege contra outras infecções sexualmente transmissíveis, além do HIV?

Mito. A profilaxia pré-exposição é direcionada à proteção do HIV exclusivamente, por isso é fundamental que as metodologias de prevenção combinada sejam discutidas e trabalhadas com as pessoas que escolherem esse formato de prevenção. A Prevenção Combinada representa uma estratégia que faz uso simultâneo de diferentes abordagens de prevenção (biomédica, comportamental) aplicadas em múltiplos níveis (individual, nas parcerias/relacionamentos, comunitário, social) para responder às necessidades específicas de segmentos populacionais e de determinadas formas de transmissão do HIV.

A PrEP é recomendada para qualquer pessoa sexualmente ativa?

Não. Hoje, qualquer pessoa que tenha peso superior a 35 kg e acima 15 anos pode usufruir da medicação quando sua vida sexual é ativa. Vale lembrar que há possibilidade de utilizar a PrEP oral na modalidade “sob demanda”, com boa indicação para as pessoas que têm relações sexuais com frequência inferior a 2 dias por semana e na modalidade “diária”, para as pessoas que mantém relações sexuais com maior frequência. É importante mencionar que a forma “sob demanda” possui contraindicações para mulheres cis e em pessoas que usam hormônio a base de estradiol.

Existe contraindicação ao uso de álcool e outras drogas para quem aderiu a PrEP? 

Não há interação conhecida entre medicamentos para PrEP e álcool ou drogas recreativas. Mas se um usuário de PrEP acreditar que o uso  está interferindo com a tomada regular, isto poderá reduzir o efeito protetor da PrEP, que está intimamente relacionado com a adesão.

A PrEP pode ter efeitos colaterais? 

A maioria das pessoas não tem efeitos colaterais. Estudos apontam que 1 a cada 10 pessoas que usam PrEP pode ter náuseas leves, cefaléia ou cólicas abdominais, com duração de poucos dias. Não foram observados outros efeitos adversos graves. Algumas pessoas podem ter toxicidade a longo prazo, além de impossibilidade de uso por alterações renais ou ósseas.

É possível ter acesso à PrEP em diferentes em países?

A PrEP é usada nos Estados Unidos desde 2012 e recentemente foi adotada por outros países, como França, Quênia, Peru e Austrália. No Brasil, a PrEP começou a ser oferecida no Sistema Único de Saúde no final de 2017, e está disponível gratuitamente em várias unidades de saúde.

A PrEP só pode ser prescrita por um médico infectologista? 

Não. A prescrição da medicação não precisa obrigatoriamente ser feita por um infectologista, nem pela categoria médica. Além dos profissionais da enfermagem, existe uma portaria da Secretaria Municipal de Saúde da cidade de São Paulo, de número 364, datada de 01 de outubro de 2020, onde farmacêuticos e cirurgiões-dentistas foram incluídos no sistema de controle logístico de medicamentos do Ministério da Saúde. Portanto, esses profissionais possuem prerrogativa legal e podem prescrever PrEP, além de solicitar exames pertinentes de acordo com o protocolo clínico de diretrizes terapêuticas para PrEP e PEP (profilaxia pós-exposição ao HIV), do Ministério da Saúde. 

A PrEP é uma opção estratégica para casais sorodiferentes, quando um vive com HIV e o outro não? 

Apesar de um conhecimento demonstrado em 4 estudos multicêntricos importantes, onde ficou provado que pacientes vivendo HIV e com carga viral indetectável num período de 6 meses não apresentam nenhum risco de transmissão sexual, a profilaxia pré-exposição é mais uma importante ferramenta de prevenção, já comprovada em estudos científicos e estatísticas de vida real. 

Há estudo sobre os efeitos do uso prolongado de PrEP? 

Assim como todo e qualquer medicamento, existe a possibilidade do desenvolvimento de efeitos adversos a longo prazo. Sabe-se que menos de 1% pode desenvolver uma alteração renal e óssea causada pelo tenofovir, ambas reversíveis com a interrupção da PrEP, segundo revisão sistemática da literatura liderada pela OMS (Organização Mundial da Saúde) e publicada em 2022 no periódico Lancet HIV. Foram analisados os dados de mais de 13.500 indivíduos participantes de ensaios clínicos de PrEP. Nestes estudos, indivíduos com maior propensão a desenvolver as alterações renais leves após o início da PrEP foram aqueles com idade maior que 50 anos e/ou que já tinham algum acometimento da função renal antes do início da profilaxia. Caso exista alguma dúvida sobre usar ou não a PrEP, converse com o profissional de saúde que poderá auxiliar nesse processo de escolha.

Tanto na PrEP diária quanto na opção sob demanda, a medicação pode ser interrompida a qualquer momento? 

Sim. Há vários motivos para parar de tomar a PrEP. O principal é verificar que o risco da pessoa se infectar foi reduzido por alterações na vida sexual (status de relacionamento, parceria única). Além disso, você pode não querer mais tomar um comprimido todos os dias e avaliar que há outros métodos de prevenção que funcionem melhor para a sua realidade. Independentemente do motivo para deixar de tomar a PrEP, é importante que você converse com o profissional de saúde que te acompanha antes de tomar essa decisão, com objetivo de manter a sua segurança.

O uso de PrEP aumenta a possibilidade de infecção por outras ISTs? 

Esse é o maior argumento das pessoas que são contra o uso deste formato de prevenção, todavia não concordo com essa perspectiva visto que estamos há anos insistindo no uso do preservativo.  Dados do Ministério da Saúde e do IBGE, mostram uma queda entre 2004 e 2013 no uso regular de preservativo na faixa etária entre 15 a 24 anos, tanto com parceiros eventuais, quanto com parceiros fixos. Observando estes dados, podemos considerar que as infecções sexuais ocorreram pela falta do uso de preservativo. Com a chegada da PrEP, os valores relacionados a novas infecções diminuíram não apenas no Brasil, mas em diversos outros países. 

No Brasil, médicos da rede privada podem prescrever PrEP? 

Sim, a medicação pode ser adquirida em farmácia após orientação/prescrição, ou então o usuário pode fazer sua consulta no sistema privado e retirar a medicação no sistema público. Os formulários de prescrição estão disponíveis na Internet, no site do Departamento de Aids. 

É possível adquirir a PrEP nas farmácias sem prescrição médica? 

Apesar de ampla discussão com relação a facilidade de acesso e prescrição, para a compra da medicação é necessária a prescrição em receituário simples após avaliação por profissional da saúde para que seja descartado quadro de infecção por HIV e que seja estabelecido adequado seguimento com as devidas orientações sobre prevenção e educação sexual.

Pessoas que usam PrEP precisam fazer testes regulares de HIV? 

De acordo com as orientações fornecidas pelo Ministério da Saúde, a testagem de HIV deverá ser realizada previamente a cada retirada da medicação, que é no máximo para 120 dias (04 meses). Dessa forma, periodicamente, além da sorologia para o HIV, outras exames poderão ser solicitados como: função renal e sorologias para outras ISTs.

Usuários de PrEP podem abandonar o preservativo nas relações sexuais?

A PrEP é uma ferramenta para a proteção contra o HIV. As outras infecções sexualmente transmissíveis podem ocorrer, portanto é prudente que as pessoas façam uso de ferramentas combinadas para prevenção, seja o uso de preservativos, testagens regulares, imunizações…

A PrEP é uma ferramenta importante na luta contra o HIV? 

Sem dúvida tem sido muito importante, visto que as taxas de novas infecções em diferentes grupos populacionais apresentaram redução. Atualmente, acredito que a discussão entre os especialistas deixou de ser apenas sobre a importância e passou a ser sobre formas de administração que possibilitam níveis protetores prolongados e também na garantia de acesso. 

“Como a PrEP é uma ferramenta de prevenção ao HIV, assim como todas as outras que já citamos, nenhuma situação pode ser descartada. A prevenção às ISTs deve ser um ato de autocuidado. Cabe à pessoa avaliar seu o risco e as formas de prevenção que mais se adequa ao seu estilo de vida.”

O especialista assegura que a PrEP vem se consolidando cada vez mais como uma ferramenta valiosa na prevenção ao HIV, mas ela não substitui a responsabilidade em relação ao sexo seguro. A PrEP complementa, não substitui. Os mitos em torno dela podem criar desinformação e medos infundados. No Brasil, estamos progredindo na disponibilidade e no acesso à profilaxia, mas afirma que a batalha contra o HIV exige educação, consciência e o rompimento dos estigmas e preconceitos. Este é um esforço conjunto para garantir que todos tenham a oportunidade de se proteger e viver uma vida saudável.

“É necessário que possamos discutir a saúde sexual de forma mais integral e aberta e os profissionais de saúde têm que estar aptos a mostrar as opções para que cada pessoa tenha autonomia no processo de decisão’’, finaliza.

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