Sobre o “Clube do Carimbo”

Por João Marinho, publicado em 26 de março de 2015

clubedocarimboVou direto ao ponto: considero o “Clube do Carimbo” uma lenda urbana, como aquela que dizia que as pessoas saíam dando agulhadas umas nas outras na noite.

Em mais de 10 anos trabalhando e escrevendo na área de HIV/aids, já vi de tudo: pessoas que se revoltam e transam sem camisinha com outras de propósito para espalhar o vírus, gente que forja exames para transar com o/a namorado/a, pessoas que simplesmente não contam, pessoas que não se importam com quem tem ou com quem não tem, pessoas que simplesmente não sabem e pessoas que passam por uma fase deprê em que se permitem fazer uma série de coisas que normalmente não fariam.

As razões e motivações, porém, são as mais diversas para esses comportamentos.

Desde pessoas que realmente têm uma visão criminosa, de “passar adiante para espalhar” até pessoas que simplesmente têm vergonha, acreditam que nada vai sair errado, não sabem como introduzir o assunto, não sabem sobre sua sorologia e/ou descobrem depois de o leite derramado, estão numa condição emocionalmente vulnerável ou, até, que acreditam que se o outro topou fazer sem camisinha com ela é porque é positivo também – e mesmo pessoas que querem adquirir o vírus.

Dentre essas razões, apenas a primeira pode ser chamada de “carimbo” – e olhe lá.

Porque, além de francamente minoritária, geralmente cursa da forma tradicional: fazendo sexo sem camisinha com anuência do parceiro. Estratagemas do tipo “furar camisinha”, etc. até existem, se não não havia previsão legal, mas são raridade. Pergunte-se a quem é HIV-positivo se pegou dessa forma.

Pior ainda é considerar que esses atos minoritários e isolados se constituem em um “clube” – um “grupo”, uma “quadrilha”, uma “sociedade secreta” de “demônios gays” destinada a infectar toda a humanidade baseando-se em comentários de blogs questionáveis. Sim, foi puro sensacionalismo e desserviço aos positivos e à população em geral – e pior ainda por misturar no mesmo texto a Profilaxia Pré-Exposição, a PrEP, uma estratégia avalizada por estudos internacionais e pela própria OMS para propiciar que pessoas que preferem transar sem camisinha – e, desculpem, isso é um direito, desde que acordado – o façam com redução de possibilidade de aquisição e transmissão do HIV.

Ora, pessoas que transmitem HIV de propósito, mesmo os poucos que fazem uso de estratagemas do tipo furar a camisinha, existem – assim como quem rouba, estupra, mata, esquarteja. Constituem um “clube”? Não.

A própria reportagem, por sinal, falhou em identificar vítimas de “carimbadores”. O tal “militante pela causa do HIV/aids” acusa o namorado de ter transmitido HIV de propósito. Alguém sabe qual foi a motivação do namorado ao ter escondido sua condição? Não. E, mesmo se ele o fez de caso pensado, isso o torna membro de uma “quadrilha” ou “movimento” destinado a infectar pessoas? Não.

O outro entrevistado, da segunda matéria, pior ainda. O gay vai a uma sauna, transa sem camisinha com um certo número de pessoas, e o que esperava pegar, além de uma DST? Flores? Gente, me perdoe, mas essa forma de transmissão – o sexo sem preservativo – é a maneira com que quase todos nós adquirimos uma DST. Agora, esse rapaz sabe quem sequer transmitiu para ele? Não. Sabe se a pessoa tinha conhecimento da sua sorologia? Não. Sabe as motivações da pessoa, diante de todas as dezenas de razões possíveis? Não. Torna-se, portanto, esse praticante de sexo sem preservativo uma “vítima do carimbo”? Com certeza, não. E, se não existe certeza, existe probabilidade: qual a maior probabilidade para esse rapaz? Ter adquirido HIV nas relações sem preservativo que teve, de livre e espontânea vontade… Ou sendo vítima de um criminoso que, justamente no dia em que ele resolveu usar preservativo, o furou com uma agulha? Por favor…

Em suma, não se comprovou em nenhuma reportagem esse tal “clube” – quando muito, apenas se falou do que existe em lei e que já é passível de investigação há muito tempo: a transmissão intencional de qualquer doença grave.

Com essa reportagem, o que o Fantástico fez, em segundo lugar, e o Estadão, em primeiro lugar, foi simplesmente criar sensacionalismo e espalhar histeria e homofobia. Agora, parte da população acredita que existem “demônios gays” por aí que se unem numa “convenção ou sociedade secreta” para infectar o mundo. Resta saber se a mesma população vai achar que existem “héteros carimbeiros”, onde corre o HIV com a crescente feminização da epidemia no Brasil. Pelo tom da reportagem, claro que não: só os gays, é claro, são culpados, não é?

É onde se demonstra a homofobia. E é homofobia, sim, porque esse sensacionalismo é muito similar ao que aconteceu quando a mesma grande mídia começou a abordar o “barebacking”.

Lembro-me claramente de uma amiga que, mesmo informada, se deixou cair na armadilha: “João, você está vendo que horror, o que os gays estão fazendo? Transando sem camisinha, esquecendo-se do HIV, se arriscando a pegar e transmitindo com esse negócio de barebacking…”.

Eu simplesmente olhei para ela e disse: “F., você está namorando, não está?”. “Sim”. “E vocês usam camisinha?”. “Não”. “Fizeram algum exame antes de aposentarem o preservativo, ou bastou começar com a pílula?”. “Não fizemos exames”. “Você sabe o histórico sexual dele? Com quantas pessoas transou, quantas teve no último ano, se já teve alguma DST antes, tratada ou não, se tem alguma DST?”. “Não”. Respondi: “Parabéns. Você é uma barebacker”.

Espantada, ela disse: “Gente, eu nunca tinha pensado nisso”. Não, ninguém pensa nisso. No entanto, a verdade é que existe um vocabulário sinistro, que se altera de acordo com o sujeito do discurso: hétero transa sem camisinha? É natural, quer “constituir família” (mesmo depois que os filhos estejam crescidos e ingressos na faculdade). Gay transa sem camisinha? É barebacker. Hétero pega HIV? É porque teve má sorte, ou, no limite, traiu o/a companheiro/a. Gay pega HIV? É “carimbo”.

Só não vê quem não quer.

Agora, temos aí um Ministério Público preparado para mobilizar uma ação de grande monta que tem todos os riscos de misturar no mesmo cesto condições e situações que são muito diferentes, inclusive o barebacking de comum acordo, as relações estáveis, os casais sorodiscordantes em que o soropositivo oculta sua condição e, às vezes por algum acidente, acaba transmitindo (já que a única estratégia 100% segura é não transar nunca).

Resultado final: criminaliza-se, no limite, o sexo gay, o “sexo carimbeiro”, pura e simplesmente, independentemente do direito que cada pessoa e cada casal tem sobre o próprio corpo e o próprio erotismo. Enquanto isso, o sexo hétero, “natural”, corre solto na vida. Alguém me convença de que, na verdade, não são a Globo e o Estadão que devem ser denunciados e investigados pelo Ministério Público, porque, para mim, sem dúvida é quem devia ser.

•••

O CLIPPING LGBT TAMBÉM ESTÁ NO FACEBOOK. CLIQUE AQUI, CONFIRA E CURTA NOSSA PÁGINA.

Share

You may also like...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *