RS é o primeiro Estado a assinar meta da ONU para eliminar a aids

Governo do Estado e 15 municípios prioritários se comprometeram em erradicar o vírus até 2030

Por Fernanda da Costa
Publicado pelo portal ZH, em 10 de dezembro de 2015

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(Foto: Jean Pimentel / Agencia RBS)

O Rio Grande do Sul foi o primeiro Estado do país a se comprometer oficialmente com a Organização das Nações Unidas (ONU) em eliminar a epidemia de aids até 2030. Além do governo estadual, 15 municípios assinaram a declaração internacional, chamada Carta de Paris. Juntas, essas cidades representam 70% das pessoas vivendo com HIV ou aids em solo gaúcho.

O comprometimento foi firmado em cerimônia na manhã desta quinta-feira, no Palácio Piratini, em Porto Alegre. De 2005 a 2013, o Rio Grande do Sul foi o Estado que mais apresentou casos de aids por habitante, por isso é considerado prioritário para o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (Unaids). No último ano, perdeu apenas para o Amazonas, mas ainda apresentou uma taxa duas vezes maior que a média nacional.

Porto Alegre, um dos municípios que assinou o documento, registrou uma taxa quase cinco vezes superior à do país, sendo líder entre as capitais no número de casos por habitante. Além da Capital, assinaram a carta Alvorada, Cachoeirinha, Canoas, Caxias do Sul, Esteio, Guaíba, Gravataí, Novo Hamburgo, Rio Grande, Santana do Livamento, São Leopoldo, Sapucaia do Sul, Uruguaiana e Viamão, todos com taxas de detecção maiores que a média nacional em 2014.

Para eliminar a epidemia até 2030, estados e municípios precisam agilizar a resposta ao HIV, segundo a diretora do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (Unaids), Georgiana Braga-Orillard. Por isso, a organização definiu uma meta chamada “90-90-90”, que precisa ser cumprida até 2020. O objetivo é que as cidades diagnostiquem 90% das pessoas que vivam com HIV, forneçam tratamento a 90% dos diagnosticados e façam com que 90% dos tratados tenham carga viral indetectável — efeito do tratamento que reduz a quase zero a chance de transmissão. Ao assinar o documento, o Estado e os municípios prioritários se comprometeram em cumprir a meta.

— Prefeitos do mundo inteiro estão assinando a declaração, demonstrando que o trabalho deve ser feito a nível local. Para acabarmos com a epidemia aqui no Brasil, precisamos dar enfoque ao Rio Grande do Sul — afirmou Georgiana.

A diretora comemorou que, pela primeira vez na história, uma meta da ONU foi cumprida antes do prazo. O objetivo da organização era que 15 milhões de pessoas infectadas com HIV estivessem em tratamento até o final de 2015, mas o mundo encerrará o ano com um milhão a mais de soropositivos tratados. No entanto, para acabar com o vírus, Georgiana afirma que apenas o tratamento não basta:

— É necessário reinventar a prevenção e promover a justiça social e os direitos humanos. Não há desenvolvimento sustentável onde persistem a violência, o preconceito e a discriminação.

A especialista acrescenta que as metas são importantes para que os governos não deixem pessoas para trás, como tem acontecido. Georgiana afirma que os jovens, embora com cada vez mais acesso à informação, não têm instrumentos para entendê-las. Isso refletiu em um aumento de 40% nos casos de aids entre pessoas com 15 a 24 anos no país, nos últimos 11 anos.

Outro problema é o aumento dos registros de HIV e aids em gestantes, cuja taxa de detecção cresceu 30% nos últimos 10 anos, o que pode aumentar os casos de vírus em bebês quando as mulheres não recebem tratamento adequado. Georgiana ressaltou que 17 países da América Latina e vários países da Europa já eliminaram a transmissão vertical, quando a mãe passa o vírus para a criança.

No entanto, no Rio Grande do Sul, esse tipo de transmissão aumentou nos últimos dois anos. Em 2013, 6,2 crianças com menos de cinco anos foram detectadas com HIV para cada 100 mil habitantes, contra 7,2 em 2014 (aumento de 16%). Quando a gestante realiza o pré-natal, o bebê tem menos de 2% de chance de ser infectado com o vírus. Já quando não faz, o risco aumenta para 25%.

— Nenhum bebê deveria nascer com HIV aqui ou em nenhum país do mundo — ressaltou a especialista.

A partir da assinatura da carta, prefeituras e Estado devem desenvolver um plano de ações prioritárias para atingir as metas. O Rio Grande do Sul possui atualmente 83,8% dos infectados diagnosticados, 49% dos diagnosticados em tratamento e 71% dos tratados com carga viral indetectável. Conforme o secretário da Saúde, João Gabbardo dos Reis, o maior desafio gaúcho é aumentar para 90% as pessoas em tratamento:

— Anteriormente, elas tinham muita dificuldade de adesão ao tratamento por causa do número de cápsulas que precisavam tomar e por causa dos efeitos colaterais. Agora, podem tomar apenas um medicamento, é preciso conscientização — afirmou.

Gabbardo ainda ressaltou que a entrada no mercado dos autotestes de HIV de farmácia, que devem estar nas prateleiras na metade de 2016, contribuirá para o aumento dos diagnósticos.

No Brasil, assinaram a declaração as cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Brasília e Manaus. No Interior, três municípios do Amazonas, da região do Alto Solimões, também aderiram ao documento: Tabatinga, Benjamin Constant e Atalaia do Norte.

Apenas em 2014, cerca de 40 mil pessoas descobriram que estavam com aids no país, 10% delas no Rio Grande do Sul. Desde o início da epidemia no país, nos anos 1980, quase 800 mil brasileiros foram diagnosticados com a doença. No Dia Mundial de Combate à Aids, 1º de dezembro, o Ministro da Saúde, Marcelo Castro, afirmou que o país quer o primeiro a cumprir as metas. De todas as pessoas que o governo estime estarem infectadas, 83% haviam sido diagnosticadas até 2014, 52% dos diagnosticados estavam em tratamento e 46% dos tratados tinham carga viral indetectável.

Clique na imagem para acessar o infográfico do portal ZH.

https://infogr.am/onu-2109074381268

 

 

 

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