Para minha Tainah, que me ensina a ser alguém melhor

Comovente relato de Otília Lins, integrante do grupo Famílias pela Diversidade, sobre sua relação com Tainah, sua filha, e sobre como o mundo se abre ao nosso redor quando estamos igualmente abertos a ele.

“Naqueles dias, você estava mais introspectiva, voltada muito para seu quarto, parece que se afastando do mundo que iria enfrentar. Pensei ser uma depressão. Deve ter sido também, mas era um pouco de tudo da descoberta e do medo da rejeição.

Eu estava ligada em você, sabia da sua inquietude, mas até então não sabia o que estava se passando. Achava normal menina gostar de futebol, não gostar de Barbie nem de roupas “frufru”. Eu, que sempre vivi com você na caminhada da vida, percebi seu gosto diferente, mas isso nunca me incomodou. A birra no ballet e o fascínio pela bola Medicine Ball.

Enfim, tive a resposta quando você, angustiada, contou-me lá em casa, na sala, e depois, quando a mãe da Dani, sua amiga da escola do time, veio me chamar desesperada pra uma conversa. Na hora que ela me contou o que estava acontecendo, foi uma bomba que passou ali na nossa casa e eu fiquei com os destroços para colocar no lugar.

Primeira reação foi ofender, foi repugnar, foi pensar nos outros, foi querer morrer, foi ofender você e isso até hoje me dói ter feito. Te proibi de tudo. Tirei você do treino, seu time desfalcou e vocês perderam jogos.

E eu estava lá naquele quarto possuída por um egoismo misturado ao medo de tudo, da reação do seu pai, da família, dos amigos, do mundo. Medo dos malucos homofóbicos, de como as pessoas iriam tratar você. Enfim, naquele quarto escuro, eu buscava resolver todos os problemas que ainda nem tinham chegado e eu SÓ queria resolver, proteger, te culpar, muitas coisas juntas.

Você me pediu desculpas e prometeu que iria ser como eu queria. Eu fiquei ali por dias sem aceitar, fria e egoísta, como todo ser preconceituoso. Mas eu ainda, mesmo sendo mãe, não sabia do que esse amor de mãe é capaz. E foi nessa hora, olhando uma foto sua de criança – por que nelas eu procurava onde tinha errado – naquela foto de patins na escola, sorridente, eu vi a minha menina.

E fui até você e vi que você era a mesma menina, que nada tinha mudado entre nós. E daí começou a minha cura pelo amor e o meu mais lindo aprendizado.”

Otilia lins
Tangara da Serra, Mato Grosso, 3 de maio de 2016

•••

CLIQUE AQUI E CONHEÇA A PÁGINA DO CLIPPING LGBT NO FACEBOOK.

Share

You may also like...

1 Response

  1. Marcia ,Teixeira disse:

    Belo depoimento mãe !
    Que possamos nós todos e todas integrantes da família humana através do amor e da compaixão acolher a diversidade!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.