Na luta contra a invisibilidade, PSOL tem as duas únicas candidatas trans para prefeituras

Publicado pelo PSOL, em 2 de setembro de 2016

Travando diariamente uma luta dura contra todo tipo de violência e para transpor as marcas da invisibilidade sofridas pela comunidade LGBT, o PSOL se apresenta nessas eleições municipais de 2016 com importantes candidaturas de pessoas trans, em vários municípios do país. Com 11 anos de história, o partido tem se firmado, ao longo desse período, como uma alternativa programática de esquerda que vem atuando em defesa de mais direitos e contra todas as formas de opressão. O embate pelas pautas históricas dos direitos humanos ganha cada vez mais força com a atuação de sua militância país afora e de sua bancada na Câmara dos Deputados, em especial de Jean Wyllys (RJ), único deputado assumidamente gay na história do parlamento. Importante lembrar, ainda, que a defesa dos direitos de lésbicas, gays, transexuais e travestis ganhou peso importante na campanha eleitoral de 2014, nos debates feitos pela candidata Luciana Genro à presidência da República. E agora, na disputa municipal, o tema volta ainda com mais força, a partir do acúmulo do partido nos últimos anos.

Merece destaque, portanto, as candidatas às prefeituras de Alagoinhas-BA, Samara Braga, e de Caraguatatuba-SP, Thífany Félix. As únicas que disputam o executivo municipal em todo o país.

Em virtude da burocracia inerente à justiça brasileira, o enfrentamento para a disputa começa logo no momento de registrar as candidaturas. As candidatas ainda trazem na inscrição do TSE seus nomes de registro, embora na urna e nos materiais de campanha sejam utilizados os nomes sociais. Outro problema que comprova o quanto o estado ainda precisa avançar no que se referem aos direitos das pessoas trans é que nas estatísticas de cada partido das eleições deste ano, disponíveis no site do tribunal, as duas candidatas não aparecem na lista de candidatas mulheres a prefeituras, mas na relação das candidaturas masculinas.

Levantamento feito até agora pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) aponta que nas eleições deste ano há, em média, 68 candidaturas de pessoas trans, entre travestis e mulheres e homens transexuais, dos mais variados partidos. Para a presidente da entidade, Keila Simpson, essas candidaturas são fundamentais para desmistificar o estigma e o preconceito que essas pessoas sofrem, principalmente as travestis, que muitas vezes deixam de se assumir como tal.

Do PSOL, foram apuradas, até agora, 14 candidaturas, incluindo as duas a prefeitas. Confira, ao final do texto, a lista das candidaturas trans do partido.

Protagonistas na política

Samara Diamond Fonseca Braga, candidata em Alagoinhas, explica que sua militância política começou por conta de sua inquietude diante das injustiças sociais e da necessidade de mudar a realidade do seu município, no interior da Bahia. Ela aponta a discriminação, o preconceito e a falta de oportunidades para a população pobre como marcas ainda muito fortes em Alagoinhas. Lutar contra a LGBTfobia, o racismo, o machismo, as opressões e toda forma de injustiça na cidade é o seu principal objetivo. “Como candidata do PSOL, não tenho nenhuma bandeira específica, em detrimento de outras que são essenciais. Mas tenho muita propriedade e disposição para defender os direitos da comunidade LGBTQI, mulheres, negros e, embora não seja praticante assídua, das religiões de matriz africana”.

Em relação às candidaturas de pessoas trans do PSOL, Samara considera como um importante avanço para a luta contra a discriminação e a invisibilidade. “Fui a primeira pessoa trans a pleitear uma candidatura majoritária no Brasil. Isso foi muito bom, pois trouxe para a sociedade uma ótica acerca das pessoas trans, geralmente invisibilizadas, estigmatizadas, marginalizadas, as quais são tratadas com visões estereotipadas. Foi grande a minha alegria ao ver, pouco tempo depois, a quantidade de pessoas trans que também resolveram entrar nessa luta. No PSOL, além de mim, temos também Tífany Félix, mulher trans, candidata à prefeita de Caraguatatuba, e mais uma boa quantidade de candidaturas para as câmaras municipais. E ainda temos candidates trans em outros partidos, o que mostra um novo cenário na política de nosso país, onde finalmente o segmento ‘T’, resolveu protagonizar a luta dentro da esfera política”, afirma.

Candidata no município paulista de Caraguatatuba, Thífany Félix afirma que, embora a sua militância tenha um recorte na luta pelos direitos LGBT, em especial para as pessoas trans, em sua campanha ela tem procurado dialogar com todos os segmentos da sociedade. Ela também vê as candidaturas de pessoas trans como um passo fundamental na luta contra discriminação e o preconceito. “Para mim é uma felicidade muito grande saber que entre o nosso segmento existem pessoas que estão se inserindo na política, mesmo que a sociedade tenha certa rejeição. Mas nós estamos nos inserindo exatamente para mostrar que dentro do nosso segmente existem pessoas totalmente capacitadas e que também se preocupam com a sociedade e não somente com as nossas bandeiras”.

Thífany, que é cabelereira de profissão, mas que atualmente tem se dedicado mais à política, comenta, ainda, o peso da responsabilidade que é ser uma das duas únicas candidatas trans, em todo o país, a disputar uma prefeitura nessas eleições. “Além de ser um peso muito grande nas costas, eu tenho certeza que se uma de nós duas, ou de repente se nós duas formos eleitas seremos muito mais cobradas que qualquer outro prefeito ou outra prefeita hétero cis normativo. Mas eu já contava com isso, sei que a luta vai ser árdua. Se eu for eleita, pretendo mostrar ao Brasil inteiro que nós temos capacidade, que nós temos uma visão totalmente laica, que todos deveriam ter, uma visão igualitária. Vou tentar ser a melhor prefeita que esta cidade já teve”.

“Para que serve o nome social se não é para nos proteger?”

Militante dos direitos LGBTs e de profissionais do sexo, a doutoranda em teoria literária pela Unicamp, Amara Moira aprofunda a crítica sobre as dificuldades que as pessoas trans enfrentam no cotidiano, destacando o momento de entrar na disputa eleitoral. Ela cita como uma das marcas do preconceito a permanência do nome de registro nos dados do TSE. “Pensar, por exemplo, que nossos nomes de registro estão expostos para quem quiser ver em todos os sites que divulgam informações sobre as eleições de 2016. E aí fica a pergunta: para que serve o nome social, se não é para nos proteger da exposição desnecessária desse dado? Esses sites, inclusive, usam o masculino pra se referir a nós. Pensar também que não nos aceitaram na cota de mulheres, e que aquelas que tentaram peitar o TRE e se inscrever como sexo feminino tiveram sua candidatura bloqueada até retificarem esse registro”, explica a candidata a vereadora pelo PSOL em Campinas.

Travesti e feminista, a militante é autora do livro “E se eu fosse puta”, publicação em que aborda a sua experiência como prostituta sob uma perspectiva feminista e também literária. Amara também integra a Associação Mulheres Guerreiras, o Grupo LGBT Identidade e o Coletivo TransTornar, na Unicamp, primeiro coletivo trans de uma universidade brasileira.

Sobre a importância que essas candidaturas representam para o país nessas eleições, num momento de avanço do conservadorismo e da intolerância religiosa, Amara Moira afirma que as pautas do movimento de direitos LGBTs passam a ganhar maior e peso e importância no debate político e nos espaços públicos. “Não são só candidaturas trans, mas candidaturas fortes, com alcance, repercussão, disputando a opinião pública, capazes de surpreender nas urnas. Somos poucas ainda, mesmo no PSOL, mas nunca fomos tão protagonistas como agora, o que significa que estamos fazendo com que essas pautas assumam importância no processo eleitoral, forçando candidatos, partidos e mesmo a sociedade a assumirem suas posições em relação às nossas demandas e a reconhecerem a seriedade das nossas demandas”, pontua.

Educação para uma sociedade inclusiva

Na capital paulista, o partido conta com a professora de Filosofia, Luiza Coopieters, mulher transexual e lésbica, na disputa por uma vaga à Câmara de Vereadores. Formada pela Faculdade de Filosofia da USP, a candidata é representante do segmento “T” no Conselho Municipal LGBT de São Paulo.

Temas como gênero e política fazem parte do seu repertório como militante e nas diversas palestras que participa, abrindo diálogos e esclarecendo conceitos que ainda são estigmatizados por falta de informação. “A resistência social é motivação para somar conhecimento, pois apenas com a educação e informação conseguiremos uma sociedade inclusiva, que não mais exclua pessoas por sua condição”, afirma a professora.

Transrevolução

“Uma puta vereadora” é o lema da campanha de Indianara Siqueira, que disputa uma vaga, pelo PSOL, para a Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Transgressora para fazer o que ela chama de transrevolução, a candidata de 45 anos afirma que tem dialogado com sua própria base de apoio durante a campanha eleitoral. “Minha campanha é junto da minha base social, dos movimentos que me apoiam. Sei que não vou contar com o apoio da família tradicional e recatada e nem espero por isso”.

Da mesma forma que a companheira candidata em Campinas, Indianara também destaca as dificuldades enfrentadas pelas candidaturas trans. “O embarreiramento  do TRE no momento da inscrição de nossas candidaturas em não aceitar o nome social, e com isso veio a demora da confirmação do registro e da liberação do CNPJ, fez com que eu tivesse pouco mais de 30 dias para fazer campanha”, critica.

Em função de todas as dificuldades e a falta de recursos financeiros, as características da campanha de Indianara são criatividade, originalidade e ousadia. Sem material impresso até bem pouco tempo para distribuir nas ruas da cidade, devido à demora na liberação do CNPJ pelo TRE, a candidata à vereadora no Rio lançou a campanha “corpos como panfletos”. “Não temos material na rua, mas temos corpos, que se transformarão em propaganda e divulgarão a nossa candidatura e campanha por todos os becos, ruelas, bares, puteiros e por essa cidade toda, para que a cidade se transforme em uma puta cidade”.

Confira as candidaturas trans do PSOL

Candidatas a prefeitas
– Thífany Félix, 50, Caraguatatuba / SP
– Samara Braga, 50, Alagoinhas / BA

Candidatas a vereadoras
– Amara Moira, 50250, Campinas/SP
– Indianara Siqueira, 50169, Rio de Janeiro/RJ
– Professora Luiza Coppieters, 50222, São Paulo/SP
– Cristal Lopez, 50035, Belo Horizonte/MG
– Linda Brasil, 50180, Aracaju/SE
– Adriana Lopes, 50888, Belém/PA
– Ana Paula Sander, 50505, Porto Alegre/RS
– Erika Hilton, 50123, Itu/SP
– Alexandra Braga, 50555, Mogi das Cruzes/SP
– Mel Campus, 50055, Londrina/PR
– Lara Bianck, 50123, Santa Cruz/RN
– Luiza Eduarda dos Santos, 50500, Novo Hamburgo/RS

Reportagem: Leonor Costa, da redação do PSOL Nacional

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