Drag queen barbada vence o maior concurso musical da Europa, o Eurovision

Conchita Wurst, representante da Áustria, conquistou o primeiro lugar apesar de protestos da Rússia e de seu próprio país

Por Marcio Caparica

Publicado no site Lado Bi, em 10 de maio de 2014

Ela tem uma bela voz e uma presença de palco impressionante. Ela tem talento. Ela é austríaca. Ela tem a barba mais bem cuidada da TV. Uma das figuras mais interessantes do cenário musical internacional, Conchita Wurst ganhou, no último dia 10, o primeiro lugar no Eurovision, o principal concurso de música pop da Europa.

Considerada um símbolo da diversidade e tolerância na arte de seu país, Conchita venceu com a canção “Rise Like A Phoenix”. Na votação final, a vencedora reuniu 290 pontos. Os representantes da Holanda ficaram em segundo, com 238 pontos, e os da Suécia em terceiro, com 218.

Conchita tem 25 anos, e apesar de ter estourado no palco mundial apenas esse ano, já é uma figura conhecida em seu país há algum tempo. Thomas Neuwirth, sua identidade fora dos palcos, já havia em 2006 ficado em segundo lugar num programa de calouros austríaco, o Starmania. Em 2012, já como Conchita, ele ficou em segundo lugar no programa que seleciona os representantes da Áustria para o Eurovision. Além disso, ela já havia participado de dois reality shows na Europa: Os empregos mais difíceis da Áustria, em que ela trabalhou numa fábrica que processa peixes, e emWild Girls, em que viveu dentro de uma tribo local da Namíbia – vestida como drag.

Agora milhões de pessoas tiveram a oportunidade de também conhecer a talentosa drag barbada. Sim, milhões. O Eurovision é uma competição musical criada em 1956,  na ressaca da Segunda Guerra Mundial, como uma maneira de promover a paz e a integração das nações da Europa. Todos os anos cada país participante envia um representante para interpretar uma canção ao vivo. A disputa é transmitida por toda Europa, com audiência de mais de 100 milhões de telespectadores. Cada país pode votar num artista que não seja o seu próprio, e o artista mais votado é o grande vencedor. O Eurovision já revelou aos palcos internacionais a banda ABBA (que venceu em 1974 com o hit “Waterloo”), a cantora Céline Dion (que venceu em 1988 representando a Suíça com a balada “Ne Partez Pas San Moi”) e o espanhol Julio Iglesias.

Como era de se esperar, a figura da drag linda com uma barba mais linda ainda deu nó na cabeça de muita gente. Muitos tentaram simplificar seu mundo tirando-a de sua vista. Grupos homofóbicos da Armênia e da Bielorrússia fizeram petições para que as performances de Conchita fossem censuradas de seus países durante as transmissões ao vivo – petições negadas pela European Broadcasting Union, que organiza a competição e faz a transmissão. Na Rússia, o político Vitaly Milonov, um dos proponentes das leis antigay no país, declarou que Wurst era “um pervertido”, que estava transformando o Eurovision numa “parada gay para toda a Europa, insultando milhões de russos”. Mesmo na Áustria houve quem fosse contra Conchita. Durante a seleção para o Eurovision desse ano um político de direita, Heinz-Christian Strache, chamou Conchita de ridículo; ele deu seu apoio a outro cantor, Alf Poier. Poier também não fez por menos: “Se alguém não sabe se é um homem ou uma mulher, deveria procurar um psicoterapeuta, não participar de um concurso musical”, ele declarou na época. Conchita fez pouco caso: “Sabe, eu tenho casca grossa. É muito estranho que um pouco de barba cause tanta comoção”, ela disse na época.

Nada disso adiantou, e Conchita conquistou o coração dos austríacos e, agora, os de toda a Europa. A canção escolhida ajuda muito: “Rise Like A Phoenix” é poderosa, uma balada digna de um filme de James Bond. “É um relato sobre como é atravessar tempos ruins, combater coisas difíceis, crescer para superar isso tudo e, se tudo der certo, se tornar uma pessoa melhor”, declarou Conchita. “É algo muito próximo à minha própria vida”.

Conchita Wurst tem a intenção de inspirar não apenas com suas canções, mas também com seu próprio exemplo. “Eu criei essa mulher barbada para mostrar ao mundo que você pode ser o que você quiser”, ela explica. Seu lema é: “Seja a melhor versão de você mesma, ao invés de uma cópia ruim dos outros!”. E ainda por cima, modesta: “Eu não passo de uma cantora num vestido fabuloso, com um cabelo maravilhoso e uma barba linda!”. Quanto à homofobia que vem enfrentando, ela declarou na última quinta-feira: “Eu só quero dizer que 80 por cento dos pedidos de autógrafo que eu recebo vêm da Rússia e da Europa Oriental – isso que é importante para mim”.

Confira abaixo a performance final da mais nova diva europeia, assim como alguns de seus looks a seguir (ou veja muitos outros nas fotos que ela posta em sua página no Facebook).

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1 Response

  1. A Glantini disse:

    Vale ressaltar que Conchita tem total apoio da família. O pai o ama tanto que pôs o nome dela em uma das melhores salsichas produzida em seu país. A família tem negócios na área de produção de alimentos e o pai resolveu homenagear o filho desta forma. Conchita não só é uma drag mas também um fashion designer e make up artist por formação . Faz shows nas principais LG BT venues na Europa.

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