Brasil registra aumento de 11% no número de infecções do HIV. Mundo reduz: a culpa é “só” do governo?

Por João Marinho*

aids7A questão do HIV/Aids é algo muito premente para mim, e o que me deixa consternado é que, cada vez mais, eu vejo o movimento LGBT brasileiro divorciado, desatualizado e mal-informado sobre a realidade da epidemia no Brasil e sobre os comportamentos sexuais atinentes à realidade de Homens que Fazem Sexo com Homens (HSHs) e Transgêneros, que estão, em todas as estatísticas, em todos os lugares do mundo e em todas as publicações, entre as populações mais vulneráveis ao HIV, não importa a fonte.

Depois que saiu na imprensa nacional que o Brasil, na contramão na redução mundial no número de novas infecções, registrou aumento, diversos quadros do movimento LGBT, sobretudo os antipetistas, saíram apontando o dedo para o descaso do governo e o crescimento do fundamentalismo na política nacional. No entanto, será que isso explica tudo? E será que, quando falamos em “redução”, os gays estão envolvidos nisso, exceto no caso do Brasil?

EXPLICANDO AS ESTATÍSTICAS

Um dado que parece escapar, por exemplo, a parte dos debatedores é que a informação transmitida pela imprensa nacional é apenas parcial dentro daquela divulgada pela UNAIDS.

Para quem se interessar e for familiarizado com o inglês, a publicação da UNAIDS trazendo as lacunas contra o HIV, atualizada até 2013 e na qual se baseiam os informes da mídia, encontra-se aqui.

Nessa publicação é que aparece a taxa de descréscimo no número de novas infecções no mundo e na América Latina e o aumento de 11% no número de infecções no Brasil.

No entanto, por que a informação é parcial? Porque a publicação não traz apenas isso.

Em relação ao que estamos discutindo, a informação da mídia é parcial, primeiro, porque o Brasil não foi o único país a registrar aumento no número de novas infecções.

No Leste Europeu, por exemplo, só para citar um, e em alguns países com população de alta renda (países ricos), esse aumento também se verificou. Na Ásia Central e no Oriente Médio, por exemplo, ele é particularmente preocupante, assim como na Rússia.

Segundo, porque a informação divulgada pela imprensa brasileira refere-se ao número total de infecções. Quando se isolam os gays, os transgêneros e os demais homens que fazem sexo com homens, a prevalência da epidemia, sempre alta (em média mundial, de 14 a 18% – o Brasil, 11%, encontra-se abaixo da média, mas há países em que essa prevalência chega à casa dos 50%), no entanto, tem geralmente se mantido ESTÁVEL – ou tem RECRUDESCIDO, mesmo em contextos em que as taxas de infecção gerais recuaram – caso, por exemplo, dos Estados Unidos.

Essa realidade torna os HSHs e os transgêneros parte das populações-chave para estratégias complementares à camisinha, como vimos recentemente por iniciativa da OMS.

Para além dessas estratégias, pedem-se a queda de barreiras legais, criminais e a adoção de políticas próprias em países que não apenas os deixam à margem dessas políticas, como ainda os levam à prisão, situação que contribui, entre outras, para as taxas globais tão altas.

Trocando em miúdos, a situação do Brasil não é confortável. No nosso caso, houve um aumento geral no número de novas infecções e, considerando a taxa de prevalência da população em geral x HSHs, certamente foram os HSHs que contribuíram consideravelmente, em termos proporcionais, com esse incremento.

É um erro, porém, acreditar que os países que reduziram suas taxas de novas infecções gerais tenham conseguido debelar a epidemia entre gays, HSHs e transgêneros na mesma medida.

Ao contrário. No mundo todo, considerando apenas esses grupos, as taxas têm geralmente se mantido estáveis ou cresceram. No próprio Peru e no México, citados como exemplos, a prevalência de HIV/Aids nessas populações é desproporcionalmente maior que em outros grupos, de maneira que, especificamente para HSHs, gays e transgêneros, não é verdade que a epidemia está diminuindo. Para mais detalhes, um dos estudos em que se baseia a publicação da UNAIDS (é preciso abrir cadastro gratuito para ler o estudo todo).

CONCLUSÕES DESCONFORTÁVEIS

Isso nos leva a duas considerações.

A primeira é que essa é uma discussão em que ambos os lados têm razão, tanto os que culpam o governo federal quanto os que argumentam que estamos em um contexto de novos comportamentos sexuais entre os HSHs (nem tão novos, mas usamos o termo por conveniência).

Sim. É verdade que parte do problema é “culpa do governo”, à medida que a própria publicação da UNAIDS reconhece que, para gays e outros HSHs e transgêneros, faltam campanhas direcionadas, mas não apenas isso: falta acesso a medicação, combate eficiente à homofobia (que deixa muitos de fora dos sistemas de saúde, ou que são atendidos pobremente por esses sistemas) e faltam campanhas e políticas que ampliem a testagem e o aconselhamento direto referente ao HIV, só para citar alguns exemplos.

Então, falta tudo – especialmente para os mais jovens: campanha não é só cartaz na parede, como pontuou um militante, de forma bem superficial, em um debate que acompanhei. Ora, mas, no Brasil, no contexto homofóbico que temos vivido, não apenas a campanha mais simples (o cartaz) tem sofrido com a adesão governamental ao fundamentalismo religioso: as demais ferramentas, logo atrás citadas, acabam tornando-se, também, um sonho distante.

No entanto, existe também um componente comportamental dos próprios HSHs, e o problema é que parte da “culpa do governo” elencada acima está em não conseguir captar esses novos componentes comportamentais. No entanto, não é só o governo que falha nisso. O movimento LGBT, também.

Então, eu peço, em nome de todas as pessoas que já têm, tiveram ou combatem o HIV/Aids que esse assunto seja tomado de forma menos partidária, usando dados incompletos seja para “acusar” os gays de aumento nos números em vertentes moralistas, seja para “culpar o PT” por causa de tudo.

Na verdade, o que isso requer, como movimento LGBT, é que primeiro voltemos à mesa e estudemos, percebamos os novos comportamentos (de novo, nem tão novos) que hoje desafiam as políticas tradicionais de prevenção e, então, também cobremos do poder público aquele leque de ferramentas necessárias para debelar a epidemia.

Está claro que uma campanha de “use camisinha”, sozinha, não tem… Repito – NÃO TEM – o mesmo grau de eficácia que antes. Está claro, igualmente, que outras estratégias, adicionais, são necessárias.

Entretanto, está claro também que, se essas estratégias são responsabilidade do governo, que com elas tem falhado miseravelmente, são também nossas, em propô-las – e vamos ser sinceros, a julgar pelo grau de “profundidade” que vi em muitos quadros do movimento LGBT durante os debates sobre a PrEP (profilaxia pré-exposição), está claro que estamos divorciados, boa parte de nós enquanto movimento, há muito do assunto HIV/Aids – e que, na cabeça de muitos militantes, quando se fala em “campanha contra o HIV”, só aparece mesmo a ideia de um cartaz no cinemão dizendo “use camisinha” ou um vídeo dedicado a gays no Carnaval, bloqueado pela presidenta…

Só que já faz tempo que isso não basta: eu diria que, no mínimo, uns 10 anos.

Então, vamos cobrar o governo, sim… Mas vamos também nos atualizar, porque o movimento LGBT não está apresentando boas propostas de combate já faz um certo tempo… E, em larga medida, apenas critica algumas dessas propostas com medo de “estigmas” e perguntando-se “e os héteros?”. Héteros que registram menos de 1% de prevalência: nós outros, 11%.

Dá até saudade daqueles militantes aguerridos dos anos 80, que primeiro propuseram a camisinha como um salva-vidas e lutaram pelo acesso à TARV e ao tratamento via planos de saúde (antes, rejeitado) na Justiça.

Lamento se ofendo alguém com esses comentários, mas, para mim, essa via de discussão que está sendo traçada vai levar apenas à conclusão de que a candidata A ou o candidato B “é melhor”. Ela ou ele ganham a eleição – enquanto 11% de gays e HSHs e transgêneros continuarão se infectando todos os anos…

Seria mais adequado talvez termos um plano NOSSO, enquanto movimento, para COBRAR a candidata A e o candidato B em período de eleição, em seus programas de governo, e no pós-eleição, se eleitos.

Questiono-me, porém, se há muitos ativistas interessados nessa ideia, já que parece, cada vez mais, que os interesses dos partidos sobrepujam nossos interesses enquanto pessoas LGBTs.

Infelizmente.

* João Marinho é ativista, jornalista diplomado pela PUC-SP e hoje atua como editor-chefe em veículos de conteúdo adulto, revisor e designer free-lancer.

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