Quer boicotar empresas pró-LGBT? Feche o Facebook, venda o iPhone e desista do Google

Por Guilherme Felitti 
Publicado na coluna Tecneira, da revista Época, em 2 de junho de 2015

Desde o dia 24 de maio, a propaganda do Boticário de Dia dos Namorados vem sofrendo uma reação contrária de grupos religiosos. O comercial mostra casais de homem e mulher, dois homens e duas mulheres, o que acusou consumidores religiosos a defender que o Boticário quer destruir a moral e os bons costumes da família brasileira. No YouTube, há uma clara disputa entre os grupos que apoiam o Boticário e os que seguem as críticas religiosas na ferramenta que mostra quem gostou e quem não gostou do vídeo. Até agora, mais de 156 mil pessoas aprovam o vídeo, enquanto mais de 146 mil reprovam. A polêmica ajudou a popularizar ainda mais a propaganda. Ontem, eram mais de 600 mil visualizações. Hoje, já são mais de um milhão. Os números, de visualização e de aprovações/reprovações, deverá crescer bastante nos próximos dias.

Entre os abaixo-assinados, posts no Facebook e tweets raivosos, houve até quem abrisse uma reclamação no site Reclame Aqui (!). Como resposta, o Boticário reiterou sua posição: o anúncio tem como objetivo “abordar, com respeito e sensibilidade, a ressonância atual sobre as mais diferentes formas de amor, independentemente de idade, raça, gênero ou orientação sexual”. Não foi a primeira marca de cosméticos a sofrer represálias religiosas frente a propagandas que defendem a diversidade sexual. O deputado Marco Feliciano (PSC-SP) propôs um boicote à Natura no começo do ano, por patrocinar a novela “Babilônia”, onde duas senhoras mantém uma relação estável.

Movimentos de consumidores contrários a posições corporativas não chega a ser uma novidade e, nos últimos anos, dada à maior projeção de movimentos homossexuais que buscam direitos iguais (algo totalmente justo, na visão desse blog), muitos desses movimentos começaram a se chocar com a orientação sexual. Houve o CEO da Barilla, Guido Barilla, que afirmou que nunca usaria um casal gay em um comercial da empresa por não concordar e defendendo que, se os gays não gostassem, “eles podem comer outra marca” (alô, media training, cadê você?). Elton John defendeu um boicote à grife Dolce & Gabbana após comentários homofóbicos feitos pelos designers.

As relações ficam ainda mais intrincadas conforme as empresas vão assumindo suas posições. E aí caímos na tecnologia propriamente, o tema principal desse blog. Poucas áreas de negócios são tão vocais ao seu apoio aos direitos igualitários entre pessoas do mesmo sexo do que a de tecnologia. Se apoiar o movimento LGBT é desvirtuar a moral e colocar a família brasileira em risco, então quem se preocupa com a questão deve, em nome da coerência, não parar nos perfumes e nos batons e ceifar da própria vida qualquer tecnologia que demonstre apoio ou simpatia ao movimento gay.

É aí que o calo aperta. No ultraje seletivo, escolhe-se quem ofende e quem não em nome da comodidade. Deixar um perfume pelo outro é fácil. E desistir do Facebook? A rede social apoia claramente o movimento LGBT. Mark Zuckerberg desfilou em uma parada gay em San Francisco. E deixar o iPhone, o iPad, o iMessage e o iCloud de lado? Tim Cook, o CEO da Apple, é gay e, desde que assinou um texto sensível e corajoso para a BusinessWeek no ano passado, vem falando cada vez mais sobre o tema e já desfilou com milhares de outros funcionários da Apple em uma parada gay em San Francisco. O Google, onde você faz suas buscas, vê seus mapas, gerencia seu e-mail, abre a internet pelo Chrome e manipula o smartphone com Android? Apoio total. Os(as) parceiros(as) dos funcionários gays do Google, chamados internamente de Gayglers, inclusive, usufruem do mesmo plano de saúde que todos os funcionários. Quer alternativas? Nem tente a Microsoft, outra gigante da tecnologia com um grupo interno só para apoiar funcionários LGBT. Quer comprar online? Esqueça a Amazon e o eBay. Guardar arquivos online? Nada de apelar para a Dropbox. Sem Twitter, Instagram ou Whatsapp. Jogos? Não os da Zynga ou da Electronic Arts (que faz os games de esporte mais populares do planeta, como as séries Fifa e NBA Live). Computadores que não usem chips da Intel? Boa sorte na escolha.

timcook2Pegou o raciocínio? Não é que uma ou outra se posicionou. TODAS as maiores empresas de tecnologia do mundo apoiam a causa LGBT. E não só na área. No começo de maio, o The Huffington Post publicou a lista com as 379 apoiando o casamento entre pessoas do mesmo sexo na Suprema Corte americana (Coca-Cola, Disney, American Airlines, Starbucks, Pepsico…). Quer realmente ser coerente no seu boicote a empresas que não só apóiam como reconhecem casamentos entre pessoas do mesmo sexo como algo natural da sociedade? Então a maior parte dos serviços e produtos comerciais de tecnologia não são para você. É como voltar a ser um homem das cavernas. Mas, convenhamos, se você acha que um comercial como o acima é um risco à família, é por que você já vive com a mentalidade de um.

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