Profissão Repórter e nossa arte de reverter danos

Gésner Braga*

(Reprodução/Globo.com)

(Reprodução/Globo.com)

No último dia 22, o “Profissão Repórter”, programa da Globo comandado pelo jornalista Caco Barcellos, levou ao ar dores e adversidades do cotidiano de homossexuais, travestis e transexuais. De todos os relatos apresentados, um em especial despertou revolta de muitos ativistas LGBT: Tiago César Leite (foto), um rapaz que viveu por dez anos como travesti, voltou a assumir a identidade masculina e agora tem esposa e filha. A notícia caiu como uma luva para os defensores da “cura gay”, mas ouso afirmar ser possível explorar a história em favor da diversidade se lançarmos mão de elementos presentes na matéria exibida e de argumentos do próprio rapaz.

A indignação do movimento social é justificável, pois a consequência esperada veio imediatamente. Indivíduos de mente tacanha, visão estreita e sobretudo formação religiosa apelaram para aquela transição de gênero como um exemplo de que a tal “cura gay” era possível. Para pessoas que lutam pela afirmação de sua identidade trans, a biografia de Tiago feriu como um punhal atravessado no peito. Porém, uma análise mais apurada da reportagem permite ao movimento LGBT converter o conteúdo da cobertura jornalística em instrumento potente para denunciar mais uma vez as pressões sociais e culturais que fazem sonhos ruírem.

Para isso, voltemos à polêmica narrativa: um rapaz, que um dia foi travesti, hoje é casado com uma mulher e tem uma filha. Isso é fato e, como tal, pode ser explorado por meios jornalísticos. Ou então alguém precisa me apresentar alguma razão bastante plausível para que essa história e outras iguais sejam varridas do mapa. Ao meu ver, esta seria uma atitude cruel e, na contramão deste entendimento, eu defendo que nós devemos nos debruçar sobre esses casos com um olhar cauteloso.

O programa foi dividido em quatro blocos e, em cada um deles, alguém assume o protagonismo em torno do qual orbitam outros depoimentos. Dos quatro personagens centrais, Tiago foi o único catalisador do repúdio de pessoas do movimento LGBT. Porém, são justamente as palavras dele próprio que entregam ferramentas para desconstruir a defesa do, digamos, “milagre da transformação”. Quando a repórter perguntou as razões dos cabelos cortados e da remoção dos silicones, ele alegou decepções amorosas e com amigos, mas também pontuou como justificativa o grande preconceito de que travestis e transexuais são vítimas. Ponto para nossos argumentos.

Na sequência, a coordenadora da Associação de Travestis e Transexuais de Pernambuco, Heymilly Maynard, confirmou a existências de casos semelhantes e sustentou, de modo coerente, uma postura de respeito a essas decisões, mas destacou a existência de limitações e pressões sociais que impõem, muitas vezes, a renúncia à identidade de gênero assumida, condição esta motivada pela falta de oportunidades, pelos vínculos com a família que são quebrados e pelas portas fechadas quando o quesito é empregabilidade. Outro ponto para nossos argumentos.

Querem mais? Pois temos! Temos uma mãe que, na primeira transição do filho para o gênero feminino, entendeu que ali estava a felicidade da pessoa que ela amava. A reportagem trouxe ainda algo inusitado: a preocupação de clientes quando se depararam com Tiago de cabelos curtos e aparência masculina. Acharam que ele poderia estar doente ao desistir do seu status de travesti. Como assim? Normalmente, o que a gente vê é o oposto. Mais dois pontos a nosso favor.

Enfim, se o programa abordou a reversão de gênero, o casamento, a gravidez, a filha e a felicidade da família, também mostrou um rapaz sem brilho, de uma felicidade contida e que reconhece que a mudança ocorreu pela ação de fatores externos que devem ser denunciados: frustrações, discriminações, preconceitos e muita violência que implicam diretamente a abdicação de sonhos, de projetos e da própria identidade por pressões sociais e culturais muitas vezes insuportáveis. Se forças contrárias às demandas LGBT usaram a matéria exatamente do modo como já sabemos que fariam, nós temos munição para contestá-las.

Todos esses discursos seriam suficientes para o movimento LGBT usar o conteúdo da reportagem em seu favor, mas não pararam por aí. Além de Tiago, o Profissão Repórter do último dia 22 mostrou a história de Pâmella Severo Machado, uma transexual que venceu o concurso de beleza feminina em sua escola e agora busca um emprego; o processo criativo de Luís Tomaz de Souza, artista que incorpora a personagem drag Mina de Lyon; e os desdobramentos do recente episódio de agressão homofóbica contra Caio Tomaz da Rocha e seu namorado, ocorrido no último dia 11, no Centro de Tradições Nordestinas, em São Paulo.

Vimos Pâmella à procura de oportunidade no mercado de trabalho, em um calvário motivado seguramente pelo preconceito, pela transfobia. Mas vimos uma família a apoiá-la e acolhê-la com o carinho tão necessário. Vimos dois homens heterossexuais unidos e vibrando pela realização do sonho do irmão, Luís Souza, na estreia da sua personagem drag. Vimos famílias orientadas pela diversidade e pelo respeito.

O programa mostrou ainda a crueldade praticada em nome da homofobia irracional contra Caio e seu namorado, no Centro de Tradições Nordestinas. O rosto espancado daquele rapaz somado às lagrimas que ele derramava era um grito estridente contra a LGBTfobia. Além disso, ouvimos as falas firmes de ativistas, como Agripino Magalhães e a Mãe pela Diversidade Clarice Cruz Pires.

No mesmo bloco, tivemos a fala didática do diretor de comunicação do Centro, Diego Monteiro. Em contraste com o erro cometido pela equipe de reportagem ao tratar travestis no gênero masculino, ele prontamente fez uso correto do artigo feminino. Além disso, exibiu cartazes dispostos no Centro que chamam atenção ao público para o respeito à população LGBT como norma da casa. Também brilhou ao defender o uso do banheiro feminino por travestis e mulheres trans, além de ter informado a troca da equipe de segurança do local após o incidente.

Enfim, as peças estão postas. Agora precisamos ser sábios e habilidosos na arte de reverter danos.

Gésner Braga é gay, ativista social, jornalista e mantem o site Clipping LGBT

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