Eu só queria sambar

Por Márcia Rocha*

Publicado originalmente no blog Pau pra qualquer obra, em 21 de março de 2014

carnavalDia desses sonhei que estava em uma rua calma de periferia, em um país do exterior, e vi um grupo de brasileiros  tocando um pagode na calçada. Eram uns cinco ou seis tocando, e mais umas duas ou três moças dançando, todos animados e sorridentes, como já vi algumas vezes em minhas viagens internacionais no mundo real. Brasileiros gostam de se reunir e tocar um pagodinho quando vivem em outra nação.

Sem dizer nada, me aproximei e simplesmente comecei a sambar, coisa que gosto muito de fazer e, dizem, que faço até bonitinho. Sorrindo feliz, olhei para baixo e vi minhas pernas se movendo no salto alto, prestando atenção para não errar o passo, depois fechando os olhos para curtir a música.

Então, um rapaz cabeludo e com roupas simples me puxou e me guiou por uma abertura que havia em um muro junto à calçada, para me levar por detrás do muro até um pouco mais adiante.  Então percebi que o grupo de brasileiros havia se afastado de mim, indo tocar em um ponto mais adiante da calçada para deixar claro que eu não estava com eles, como se minha presença ali fosse motivo de vergonha ou algo assim, para esclarecer que eu não era uma deles.

Murada

O rapaz foi me levando para um ponto perto do grupo, mas oculta pelo muro, onde o som podia ser bem ouvido por nós, mesmo por detrás da parede. Sentou-se diante de mim e ficou me olhando, aguardando que eu voltasse a sambar, demonstrando claramente que tinha gostado da minha performance.

Acordei nesse momento, muito triste e repensei o sonho todo, analisando-o de forma freudiana, como aprendi e gosto de fazer. Era o resumo de minha vida hoje, do que tenho sentido. Eu só queria “sambar”, viver minha vida como sempre gostei de fazer, mas hoje só posso fazê-lo junto a alguns poucos grupos ou pessoas que são de alguma forma, igualmente rejeitadas pela sociedade. “O cabeludo esquisito em questão”, que gosta de me ver “sambar”, aprecia a minha existência, ainda que por detrás de um muro de invisibilidade e rejeição social.

Esse sonho foi o reflexo da sensação que tenho tido, de que não mais serei vista e aceita simplesmente como mais uma pessoa como todas as outras, alguém que só quer viver, divertir-se e estar com os demais. Tenho uma boa noção da importância que tem o ativismo ao qual me engajei e vivo diariamente tentando não me arrepender de minhas escolhas. Mas me sentindo um pouco como o personagem de Pink Floyd – The Wall, gostaria que não houvesse tantos tijolos nessa parede de isolamento.

Talvez seja a hora de pararmos de tocar e sambar para pegar nas marretas. Dos dois lados do muro.

* Márcia Rocha é advogada, militante e travesti. Livre como poucas, vive sua vida o mais intensamente possível, criando suas próprias regras da mesma forma como criou seu corpo escultural. Uma mulher especial com algo a mais, que vive para ser e fazer feliz.

Share

You may also like...

1 Response

  1. Eliane disse:

    Ainda bem que se tratava de um pesadelo. Um dia isto tem de acabar.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.