A Ética Deslizante de Ziraldo

Rita Colaço
Publicado no site Boteco Comer de Matula, em 4 de maio de 2015

Segundo matéria publicada ontem na página virtual do jornal Hoje em Dia, anunciando uma sua entrevista, também o cartunista e escritor Ziraldo decidiu expressar suas pessoais opiniões sobre a dupla lésbica que vive em união estável há 35 anos, na novela Babilônia, atualmente em exibição pela Rede Globo de Televisão. Curiosamente, ao invés de criticar o autor da novela – Gilberto Braga -, Ziraldo optou por direcioná-las à atriz Fernanda Montenegro, uma das damas maiores do teatro nacional, e à Rede Globo de Televisão:

(Foto: www.hojeemdia.com.br)

(Foto: www.hojeemdia.com.br)

“A Fernanda Montenegro não tem direito de fazer apologia do afeto homossexual. Grandes fãs dela estão estarrecidos com isso. E mesmo que ela estivesse pensando em ajudar as mães dos homossexuais… Mas qual é a porcentagem de mães de homossexuais?”(Destaquei)

“O problema da homossexualidade é que ela está hiperdimensionada. A TV Globo acha que está fazendo um grande serviço ao ‘modus vivendi’, ao dar chance aos homossexuais de assumirem a sexualidade deles.”

Segundo essa sua lógica particular, Ziraldo parece pretender que homossexuais (masculinos e femininos) apenas poderiam legitimamente reivindicar o direito a serem tratados a si e à direção de seu desejo erótico como mera expressão da sexualidade, tão legitima como a heterossexual, nos precisos termos afirmados por Sigmund Freud em 1905 e repetido em carta à mãe de um jovem homossexual em 1935, caso representassem parcela majoritária da sociedade. Como não são, e historicamente foram (assim como travestis e transexuais) obrigados a viver nas sombras da invisibilidade, do medo e da marginalização, assim devem permanecer. Não foi essa, porém, a postura do escritor quando, através das páginas de O Pasquim, exercia o seu direito à liberdade de expressão para desqualificar a incipiente segunda onda do movimento feminista no Brasil. Ao que consta, as mulheres são e eram a maioria absoluta da população. (Ver texto onde abordo essa questão mais abaixo.)

Em 2015 Ziraldo propõe como exemplo de adequada forma de tratar a homossexualidade nas expressões literárias e de entretenimento, aquele estratagema empregado pelo escritor Guimarães Rosa, no romance Grande Sertão, Veredas, publicado em 1956, quando optou por dissimular a condição homossexual do personagem Diadorim. Ainda que tal expressão da sexualidade humana tenha sido tratada em romance publicado em 1895 (O Bom Crioulo, de Adolfo Caminha), segundo a opinião pessoal do escritor Ziraldo, em 2015, cento e vinte anos depois, a televisão não tem o direito de abordá-la como fenômeno social que é, com toda a sorte de antagonizações que ainda tem de suportar.

O ex suposto vanguardista libertário que nas décadas finais do século XX, nas páginas de O Pasquim, pontificava desqualificando feministas e sua agenda, na segunda metade da segunda década do século XXI decreta que uma atriz “não tem direito” (sic) de encenar um determinado personagem! E sentencia que atores devem ser meras linhas de transmissão do desejo, fantasia e visões de mundo do público (?!). – As censuras instaladas pela ditadura civil-militar de 1964 não chegaram a tanto!

Aos 82 anos de idade constata-se que o cartunista Ziraldo segue coerente consigo mesmo, ao demonstrar que continua a defender a dissimulação e a dupla moral, exatamente como fez no passado – nos casos do jornalista que assediou sexualmente uma recepcionista do Jornal do Brasil e no caso da chantagem ao médico e memorialista Pedro Nava, praticada por um michê (ver abaixo o link para o texto). Ziraldo também segue  pensando que o seu pessoal e peculiar padrão ético e sua visão de mundo devem balizar a vida alheia, as manifestações culturais e o exercício da arte e ofício de encenar. – A já muito saudosa Bárbara Heliodora deve estar horrorizada com semelhante disparate!

É deveras curioso como entre nós o fato de uma relação amorosa entre duas senhoras octogenárias provoque tanto repúdio e indignação, enquanto tantas relações pérfidas, corruptas, criminosas, cínicas, pululam na trama da novela e não causam nenhuma crise moral nem ao Ziraldo nem à bancada fundamentalista do Congresso Nacional, cujos parlamentares não tem mais o que fazer do que se preocupar com o tema abordado em um folhetim televisivo, em um contexto histórico onde o STF já reconheceu a juridicidade e o caráter familiar de tais relações e até mesmo o Papa vem acenando no sentido de integrar homossexuais e suas famílias ao seio da Igreja Católica Apostólica Romana.

Para os jovens e os que desconhecem as passadas manifestações dessa dupla moral presente no caráter do criador do Menino Maluquinho, sugiro a leitura de um texto que escrevi e foi publicado no Observatório da Imprensa em 2005, na edição 337 (12/07/2005), onde abordo essa sua estrutura de caráter, a partir de fatos por ele protagonizados. Chama-se Ética Deslizante. Basta clicar aqui.

Referências:

http://www.hojeemdia.com.br/almanaque/aos-82-anos-ziraldo-fala-de-amores-e-polemicas-1.315589
ROUDINESCO, Elisabeth e PLON, Michel. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998, p. 243-244.
http://observatoriodaimprensa.com.br/feitos-desfeitas/etica-deslizante/

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