Não há medo que me detenha nem ameaça que me acovarde

Gésner Braga*

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Homenagem às vítimas do massacre em Orlando
(Foto: Carlo Allegri / Reuters. Fonte: revista Época)

Ódio: aversão a pessoa ou atitude; paixão que impele a causar ou desejar mal a alguém; sentimento de raiva, de ira. Fobia: aversão ou medo mórbido**. LGBTfobia: conceito consagrado há pouco mais de dois meses, durante a Conferência Nacional LGBT, em Brasília, para definir esse ódio, essa aversão, essa fúria irracional contra lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, intersexuais, assexuais ou qualquer outra pessoa que não se enquadre ou pareça não se enquadrar na confortável – e autodeclarada inquestionável – zona da heteronormatividade.

Os primeiros estudos que cunharam definições deste ódio contra pessoas LGBT datam de mais de quatro décadas, mas as expressões desta cólera seletiva são infinitamente mais antigas e recheadas de exemplos ao longo da história da humanidade. Porém, o massacre perpetrado no último dia 12, na boate gay Pulse, em Orlando, nos Estados Unidos, ganhou gigantesco destaque em escala global.

Se, por um lado, o atentado foi festejado por segmentos conservadores radicais os mais diversos, desde cidadãos comuns a líderes políticos e religiosos, por outro a voz das 49 vítimas fatais não foram silenciadas. Ao contrário, elas gritaram por justiça, respeito e direitos no clamor de um turbilhão de pessoas ao redor do mundo, movidas por profunda indignação.

Deste modo, não é preciso muito esforço cognitivo ou percepção apurada para constatar que há neste contexto um movimento cíclico de ações e reações. Se uma onda conservadora e reacionária cresce sobretudo em templos e parlamentos, isso se dá em certa medida porque a luta LGBT ganhou holofotes, espaços privilegiados nas grandes mídias e aliados de peso.

E como isso impacta em meu microuniverso? De forma muito semelhante. A minha vida parou naquele dia 12. A minha perplexidade ante o ódio bestial de um sociopata era tamanha e eu não esbocei qualquer reação ao ler as primeiras notícias. Fui tomado de uma sensação estranha de sufocamento e de impotência.

Então pensei na rotina de violência do lugar onde vivo que mata uma pessoa LGBT por dia em crimes motivados exclusivamente por ódio, casos esses subnotificados, nós sabemos. Pensei no terror de quem vive a opressão cotidiana que aniquila e alimenta intenções suicidas. Pensei nos comoventes relatos de amigas e amigos ou mesmo daquelas pessoas que não conheço, mas cujas histórias me afetam. Pensei em mim.

E o que era espanto num primeiro momento foi, como de costume, dando lugar a uma revolta que já vem sendo semeada desde os meus cinco anos de idade. Eu sei que jamais agirei de modo execrável em nome dessa inquietação pessoal, pois existe ética e bom senso no caráter que me foi moldado. Mas tenho orgulho em dizer que é essa revolta que me move, que me faz lutar incansavelmente.

Não sei o que será de mim hoje, amanhã, dentro de um mês ou nos próximos anos. Não sei se engrossarei, mais uma vez, as estatísticas de violências consumadas por canalhas que espreitam na próxima esquina, como me aconteceu há quase duas décadas. Não sei se serei espancado até a morte e abandonado em uma vala ou se receberei uma lâmpada na testa, uma faca nas costas, uma pedra na cabeça ou um tiro no peito. Mas de uma coisa eu tenho certeza: não há medo que me detenha nem ameaça que que me acovarde. Ao contrário, eu parto consciente e determinado para o enfrentamento.

Ouso afirmar que não falo apenas por mim. Ainda que matem 49 de uma única vez ou uma pessoa de nós a cada dia ou que se cometam barbaridades a cada minuto, as bandeiras LGBT jamais serão guardas no armário novamente. Este é um caminho sem volta para o desespero daqueles que rejeitam o fato inconteste de que o mundo é diverso e dinâmico. Nós existimos e merecemos viver. E vamos!

Gésner Braga é gay, ativista social, jornalista e mantem o site Clipping LGBT

** Definições extraídas do dicionário eletrônico Aurélio.

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6 Responses

  1. Inês Silva disse:

    Não tem como não compartilhar!! 🙂

    • Clipping LGBT disse:

      Uma pequena contribuição ante tantas adversidades. Agradeço por fazer crescer essa corrente de indignação e resistência.

  2. Larissa Ramos disse:

    Com sensibilidade é que vamos mudar a situação. A causa é justa e urgente.

  3. Eliane Araújo disse:

    Eloquente, determinado, focado, sensato, correto, sensível, forte, por enquanto é tudo que posso dizer por este texto tão maravilhosa-brilhantemente escrito.
    É isto aí Gésner, motivo de orgulho para a família, para o movimento.

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