Trans brasileira estrela campanha de cosméticos

Conheça Maria Clara Araújo e entenda suas ideias e ideais: precisamos questionar porque as pessoas trans não estão convivendo com a gente no dia a dia

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Maria Clara fez campanha para a Lola Cosmetics (Divulgação/Facebook)

Vinícius de Melo (entretenimento@band.com.br)
Publicado pelo portal Band, em 23 de agosto de 2015

Maria Clara Araújo ficou conhecida nas redes sociais por sua militância na questão trans. Recentemente, ela anunciou que vai ser o rosto da nova campanha de maquiagem da marca Lola Cosmetics.

Ela se torna, assim, a segunda mulher trans no mundo a representar uma marca de maquiagens e a primeira no Brasil. Em uma conversa franca com o Portal da Band, Maria Clara falou sobre a importância da representatividade e da extensão de sua militância para outras plataformas.

Ela também comenta as conquistas das pessoas trans, como o programa Transcidadania de São Paulo, fala da humanização das pessoas trans e relata os próximos desafios de sua militância.

“Acho extremamente importante, a partir desse meu pioneirismo no Brasil, nos questionar porque as pessoas trans não estão convivendo com a gente no nosso dia a dia. Por que essas pessoas não estão em nossas universidades, não estão em trabalhos formais?”, questiona.

Confira abaixo a entrevista completa com Maria Clara:

Você poderia contar como foi feito o convite para você se tornar garota propaganda de uma marca de cosméticos? Como aconteceu?

Pelo que me passaram, a filha da diretora da empresa me acompanha nas redes sociais e falou muito de mim para a mãe dela. Então, quando surgiu a ideia de fazer um editorial para o lançamento da marca de maquiagens, a Lola tentou se firmar mais ainda como uma marca que busca uma pluralidade dentro da categoria mulher. Enquanto marca de produtos para cabelo, elas sempre tentaram trabalhar itens que fossem úteis para todos os tipos de mulher: cabelos cacheados, cabelos alisados, cabelos lisos e afins. E, dentro da marca de maquiagem, elas queriam continuar explorar isso. Então elas pensarem em ter uma garota trans como uma das meninas propagandas para continuar esse trabalho de diversidade, da pluralidade. Para entenderem que somos muitas e com diferentes demandas nessa questão estética.

Quando você recebeu esse convite, foi uma surpresa? Como foi a sua recepção?

Foi uma surpresa para mim porque eu sou militante, eu sou escritora, eu sou uma pensadora – digamos assim. E eu nunca havia feito fotos de uma forma profissional. Então, de primeira instância, toda a questão de ser modelo me deu uma surpresa. No entanto, quando eu cheguei no Rio de Janeiro [a sessão fotográfica foi realizada na capital carioca] e eu conversei com a Dione Vasconcellos, diretora da marca, e fiquei muito tranquila. Porque aí eu entendi a proposta que elas pensaram, que elas tinham, que é justamente trabalhar essa pluralidade, essa diversidade. Fazer uma marca mais inclusiva e trabalhar essa questão das mulheres invisíveis. Fiquei feliz com o convite. De certa forma, estou estendendo minha militância para uma área diferente.

Você acha que ser garota propaganda de uma marca de maquiagens dará melhor representatividade para as pessoas trans?

Dentro do nosso contexto brasileiro, a trans só é representada em contextos específicos que são: na delegacia, na questão de serem presas; na prostituição; e na ridicularização, em programas de humor e afins. Então quando a gente fala de uma mulher trans ser o rosto propaganda de uma marca de maquiagem, isso é algo muito importante para a representatividade. Ali não é a Maria Clara. É uma mulher trans que pode ser vista por outras meninas como uma representatividade boa. Elas vão poder ver algo bom sendo relacionado à questão da mulher trans e não mais a questão de morte, questão de criminalidade, de prostituição e afins. E isso é algo que precisa ser combatido. As nossas mulheres estão no ramo da prostituição porque elas não têm outra chance. Entende? Então, ver as mulheres trans em atividades como modelo, de ser o rosto de uma marca de maquiagem, é trazer humanidade para nós. Porque existe um contexto que leva essas meninas, como eu, a não serem modelos. Eu sou a segunda [mulher trans] do mundo a ser rosto de uma marca de maquiagem. Então, por que eu sou a segunda do mundo? Por que as pessoas nunca contrataram uma mulher trans para ser rosto de uma marca de maquiagem? Por que as pessoas evitam ter a sua marca relacionada à mulher trans? Então, eu fiquei muito feliz de trabalhar essa questão da representatividade, porque a gente deve continuar a visar representatividades boas para grupos de pessoas marginalizadas, que não são reconhecidos como seres humanos.

(Divulgação/Facebook)

Você também é ativista do movimento negro. Como está a situação da mulher negra no mercado estético?

No nosso contexto brasileiro, ou até mesmo no mundial, a gente tem um déficit muito grande de maquiagens para a pele negra. As mulheres negras não têm maquiagem para elas. A produção é muito pouca. Isso também é falta de representatividade. Nós não temos uma representatividade suficientemente boa da estética negra. Então, essas meninas, o que elas fazem? Elas alisam o cabelo, porque elas só veem as mulheres negras com o cabelo alisado e elas tendem a usar maquiagem – base, no caso – com dois ou três tons abaixo dos seus porque elas não encontram paletas de cores acessíveis para o tom de peles delas. Então, quando a gente fala de representatividade de uma mulher trans ser rosto de uma marca, a gente está falando também de acessibilidade. De uma menina trans estar vendo, eu no caso, e pensar que: ‘Nossa, eu também posso ser modelo. Essa menina está sendo reconhecida como ser humano. Então eu posso ser vista como ser humano. Eu sou ser humano’. O valor simbólico de eu ser uma garota propaganda é muito grande, é muito representativo. Principalmente dentro do contexto brasileiro, onde somos o país que mais mata travestis e transexuais no mundo.

O mundo está caminhando para a humanização da figura trans? Temos aí figuras importantes como Caitlyn Jenner e Laverne Cox…

É visível que as discussões sobre transexualidade estão se tornando emergentes. A gente vê aí, a cada quinzena, um debate sobre isso nas universidades. E há dois ou três anos não havia essas discussões. Isso, de certa forma, acontece não porque a sociedade está dando isso, mas porque tem gente pedindo e demandando. O programa de Transcidadania de São Paulo, por exemplo, não foi criado porque Haddad teve a ideia e criou. Foi mostrado para ele que havia uma defasagem de trans e travestis no âmbito educacional. Então, é algo mais conquistado do que dado. Acho que a visibilidade da população trans é algo mais conquistado do que dado. Então, particularmente, eu fico muito feliz que essa humanização da população trans tem se proliferado no mundo.

E, para você, qual seria a próxima fronteira que as pessoas trans têm de enfrentar para se integrarem de vez à sociedade?

Não seria uma próxima fronteira, mas acho que temos que trabalhar a questão de representatividade. Por que as pessoas trans não estão no cinema interpretando elas mesmas? Por que pessoas trans não estão trabalhando em bancos, em farmácias, supermercados? Acho extremamente importante, a partir desse meu pioneirismo no Brasil, nos questionar porque as pessoas trans não estão convivendo com a gente no nosso dia a dia. Por que essas pessoas não estão em nossas universidades, não estão em trabalhos formais? Perceber por que as pessoas trans como um todo – sejam transexuais homens, transexuais mulheres, travestis ou pessoas que se agrupam nesse termo – não estão no meio formal, no nosso dia a dia. É um questionamento que nos trará um resultado muito positivo.

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