Sobre masculinidade normativa, desconstrução e “ser homem”

Por Fernando Vieira

Publicado pelo site #MeRepresenta, em 14 de julho de 2014

homemRecentemente tenho tido contato com inúmeras polêmicas, algumas causadas por mim, sobre ” masculinidade normativa” ou masculinidade hegemônica. Estas polêmicas residem sobre a seguinte questão: propor a desconstrução da masculinidade normativa é, necessariamente, propor a desconstrução de toda a masculinidade? Ou seja: é propor o apagamento do “homem”?

Antes de respondermos a esta questão é preciso pensarmos sobre o que é a masculinidade normativa ou hegemônica que menciono. Pra isso basta que pensemos sobre os discursos correntes sobre ser homem, o que nos dizem sobre como devemos ser homens desde a escola? O que nos diz a televisão? Os pais? Como são os heróis que aprendemos que devem ser os “heróis de meninos”? Quais são os brinquedos que utilizamos? Como aprendemos a nos relacionarmos com pessoas do gênero oposto e com nossos “parças” do mesmo gênero? O que aprendemos sobre “viados” e “mariquinhas”?

Desde cedo lidamos com discursos sobre a masculinidade que são utópicos: nenhum homem pode alcançá-los. Os que tentam, encontram frente a si um caminho de negação de suas emoções, que incluem, não chorar, não ser fraco, não perder, não recusar-se a competir. A masculinidade tal qual a temos produzido e reproduzido propõe que o homem afirme-se como homem a todo momento: “Seja homem!”, meu pai sempre me disse isso, “Fale como homem!”, e eu, que nunca foi um “exímio macho’”, jamais pude entender porque eu não podia ser homem. Afinal, eu não conseguia atender as expectativas que sempre pesaram sobre mim, tão somente porque nasci com um pênis.

Sou professor e na sala de aula, sobretudo quando dei aulas para adolescentes, a necessidade de afirmar-se como homem sempre foi vital e frequente: os alunos se obrigavam a tomar parte naquela performance de “ser homem”, se obrigavam a “ficar” com meninas pelas quais não sentiam desejo, se obrigavam a assumir uma postura de rebeldia e negação do estudo, porque faltava virilidade “em ficar apenas estudando”. Vi não apenas garotos gays lidarem com a negação de sua “masculinidade” e com homofobia, mas vi também meninos estudiosos,ou mais introvertidos, calados, lidarem com uma homofobia baseada na presunção da sexualidade deles. E o que proporcionava a presunção da sexualidade? Eles não tomavam parte nos ritos performáticos de afirmação da masculinidade normativa.

É preciso perceber o quanto este discurso sobre a masculinidade é perverso e utópico. Vemos homens que se recusam a tratar ou buscar diagnóstico de câncer de próstata, porque não se permitem fragilizar, e porque temem o mítico exame do dedo, temendo com isso a sua “feminilização”. Vemos altos índices de alcoolismo e drogadicção entre homens, porque não se permitem jamais compartilhar o que sentem. E digo isso com conhecimento de causa, estive por três meses internado em uma clínica para drogadictos, e lá o ponto central do programa de recuperação proposta era a chamada “partilha”, colocar pra fora os fantasmas, aqueles que carregamos conosco a vida inteira. Vemos índices de suicídio imenso entre homens, que vivem em prisões emocionais. Vemos meninos que foram abusados em suas infâncias que por anos não falaram sobre isso, com medo de “deixar de ser homem”.

Não! Esse discurso sobre a masculinidade não pode continuar a existir. O peso de ser competitivo, racional, violento, forte não pode continuar a viver sobre as costas dos homens. E não estou a dizer, quero que isso fique muito claro, que os homens que desejarem ser competitivos e racionais, que desejarem ser “viris”, não poderão sê-lo, não! Eu digo apenas que “homens” devem poder ser “homens” de múltiplas formas. Obviamente, isso se refere aos que se identificam como homem ( sejam homens cis ou homens trans).

Esse discurso de masculinidade deve ser desconstruído. A normatização do “ser homem” deve ser desconstruída. O homem e sua identidade de gênero devem ser tais quais ele decida. Não proponho uma destruição absoluta do sistema de gênero, proponho, a liberdade pra pertencer ao gênero que quisermos, e que desempenhemos nossos papéis de gênero segundo a expressão de nossos desejos, afetos e subjetividades.

Não digo que a masculinidade é “tóxica”. Não digo que a masculinidade seja problemática em si mesma, tóxico é normatizar. Tóxico é dizer que aqueles que não seguem a norma são abjetos. Tóxico é punir com o rigor da homofobia, do bullying, do racismo aqueles que não se enquadrarem no modelo normativo.

Não importam as biologias neste caso. A genética e a biologia são eficientes em apresentar um padrão, uma prevalência “em indivíduos nascidos com pênis é prevalente este ou aquele modo de agir ou interesse”, entretanto ser prevalente significa simplesmente que a maioria é desta forma, e não que TODOS sejam desta forma. Nesse momento, convertem a média em norma e transforma aqueles que estão fora da média em identidades abjetas. Não quero pertencer a modelo normativo algum, que o fim das normas, e o início da liberdade. Que sejamos livres pra expressar quem somos, o que queremos e o que desejamos sem que caiam sobre nós o peso dos dispositivos de poder e aparatos de verificação: que um hétero possa ser amigo de um gay sem que isso suscite boatos acerca da masculinidade dele como se a homossexualidade fosse “contagiosa”.

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