Presidenta, queremos muito mais do que discursos

Cristiano Lucas Ferreira

bandeira4Um Fórum Mundial sempre é um espaço de estabelecer diálogos, pensar em estratégias de luta e socializar experiência, as positivas e as nem tanto. Ideologias várias, perspectivas muitas, diversas visões sobre os Direitos Humanos e de como garanti-los trouxeram para Brasília, ativistas de tudo que é canto.

Pelos corredores do prédio, órfãos/as como eu, dos Fóruns de Porto Alegre, aqueles do início do século, quando os movimentos sociais, ONGs e a esquerda brasileira e mundial estabeleceram o plano para a construção de um outro mundo, atravessavam com os novos atores e atrizes sociais, que se potencializam com as inovadoras tecnologias da informação, sejam eles do campo e das cidades, das periferias, dos guetos, recém-saídos da pobreza ou do armário.

Se no FSM de Porto Alegre, as pautas eram tantas quantas fosse possível imaginar, o Fórum Mundial de Direitos Humanos aqui em Brasília, coloca em evidências os direitos (ou a falta deles) capazes de garantir a cidadania plena de negros e negras, mulheres, povos indígenas, pessoas com deficiência e claro, nós, gays, lésbicas, bissexuais e trans.

Ao conseguir, enfim, fazer de nossas demandas um tema de debate nacional, capaz de mobilizar amplos setores sociais, vários debates, oficinas e palestras discutem a questão da sexodiversidade no Brasil e no mundo. E foi num desses debates, sobre o avanço dos direitos LGBT na pauta internacional que estive hoje. Estava lá um representante da ONG Arc Internacional, outro do Setor de Direitos Humanos do Itamaraty, uma da ONU e o embaixador da Bélgica no Brasil. Depois da apresentação de dados, relatos, estatísticas, sobraram elogios para a política internacional brasileira e sua campanha para a aprovação de resoluções internacionais de proteção à população LGBT mundial.

Para muitos/as na plateia, ficou evidente ali a esquizofrenia da política do governo federal em relação a nós. Aos olhos do mundo, o Brasil se apresenta como um destino de viagem para as bichas ricas, lugar de tolerância e de cidadania plena. Mas para aqueles e aquelas que vivem por aqui, essa propaganda não convence.

Com a aproximação das eleições, o governo, mais uma vez, se aproxima dos fundamentalistas, de dentro e de fora do Congresso. As mudanças no texto do PLC 122, por exemplo, que nestes últimos anos foi perdendo sua essência, aquela que colocaria a homofobia no mesmo patamar de outras manifestações de preconceito como o racismo ou a origem, é um exemplo explícito da forma que o governo tem nos tratado. Da forma que o projeto está no Senado, nossos adversários terão agora aval do Estado para continuarem a proferir seus discursos de ódio e de intolerância.

Talvez as pessoas da mesa tenham se esquecido desse fato e do veto ao programa Escola sem Homofobia, do veto às campanhas de prevenção a AIDS entre jovens gays, das promíscuas relações entre os partidos da base que possibilitaram a ascensão do PSC do Marco Feliciano na Comissão de Direitos Humanos que aprovou, há duas semanas, a realização de um plebiscito para que a população decida se nós temos ou não direito de casar ou ainda da omissão do Estado em colocar em prática o Plano Nacional LGBT aprovado em 2011. Será que eles se esqueceram de que o Brasil é o país que mais mata bichas, sapas e travas no mundo?

Mas o pior ainda estava por vir. Será que alguém, naquele auditório enorme, realmente acreditou no que a presidenta Dilma disse? Quais políticas são essas que permitem a presidenta afirmar, para o mundo, que o enfrentamento da violência que atinge a população LGBT no Brasil é firme e inquestionável em seu governo?

Não, Dilma. Isso não é verdade. Continuamos como cidadãos de segunda classe. O seu governo não foi capaz de garantir direitos igualitários. Talvez para mim, servidor público, branco, classe média (fudida), ser gay não seja um problema tão grande. Mas para tantos e tantas, que vivem nas periferias pobres das cidades ou no campo, distantes dos espaços de sociabilidade mais tolerantes, ser gay, lésbica ou trans definitivamente não é nada fácil. É realmente um risco para suas vidas.

Quando participávamos do Forum Social Mundial, viajando num ônibus todo lascado, de Goiânia para Porto Alegre, não imaginávamos que teríamos um espaço exclusivo para discutir nosso presente e futuro. Não imaginávamos que a bandeira do arco-íris seria vista por todos os lados. Não imaginávamos que as pintosas socialistas seriam uma presença constante nas reuniões políticas.

Mas não somos daqueles/as que se encantam com o mínimo. Queremos mais do que uma tenda. Queremos mais do que propagandas, presidenta.

• O Fórum Mundial de Direitos Humanos aconteceu em Brasília, entre os dias 10 e 13 de dezembro de 2013.

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