Pela primeira vez, Prefeitura de São Paulo registra funcionária travesti com nome social

Dediane Souza assumiu cargo na Coordenação de Políticas LGBT da Secretaria de Direitos Humanos; militante desde os 16 anos, ela afirma que “ala fundamentalista” do Legislativo barra aprovação de lei para alterar nome em documentos

Por Amauri Arrais

Publicado pela revista Marie Claire, em 21 de julho de 2014

Dediane Souza, que foi nomeada para o cargo de Assessor Técnico da Coordenação de Políticas LGBT da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania (foto: divulgação)

Sem nenhum alarde, o Diário Oficial da Cidade de São Paulo registrou na edição da última quarta-feira (16) a nomeação de Dediane Souza, nome social de José Batista de Souza, para o cargo de assessor técnico da Coordenação de Políticas LGBT da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania.

Foi a primeira vez que um órgão municipal reconheceu, em documento oficial, o nome adotado por uma pessoa de identidade sexual diferente da que está em sua certidão de nascimento. Uma portaria de 2010 já garante a travestis e transexuais o direito de ter seus nomes sociais em crachás, cartões de ponto e outras identificações de funcionários.

“Acredito que qualquer legislação que venha respeitar o uso do nome social é algo essencial. Quando falo meu nome, não é o de registro. Meu nome como sujeito social e político é Dediane Souza”, diz a recém-nomeada funcionária. Cearense de Santana do Acaraú, ela chegou a São Paulo há pouco mais de um mês para coordenar o braço da secretaria responsável pelas políticas voltadas ao público trans –que engloba travestis e transexuais.

Em Fortaleza, Dediane, de 25 anos, trabalhou por oito no Grupo de Resistência Asa Branca, principal entidade de defesa dos direitos LGBT da cidade, foi conselheira municipal e estadual sobre o tema, além de coordenar várias edições da Parada do Orgulho Gay.

Mais velha de cinco irmãos, ela conta não ter sofrido discriminação no ambiente familiar por sempre ter tido o apoio da mãe, que se separou do pai quando ela tinha apenas 7 anos. “Sempre fui um menininho muito pintoso e minha mãe deixava bem claro que tinha que me afirmar.” Aos 16, virou presidente do grêmio da sua escola e conheceu os movimentos sociais. “Foi quando me reconheci como travesti e abracei o movimento LGBT”, lembra ela, que uniu o apelido de infância Dedé ao nome da irmã, Lidiane, para criar o seu.

Mesmo reconhecida pela militância, ela diz ainda sofrer constrangimentos comuns para quem assume uma nova identidade sexual. “São várias as situações, desde o processo para embarcar em um avião até a entrada numa universidade”, conta ela, que trancou o curso de Comunicação Social numa universidade cearense para se dedicar ao novo cargo.

Principal bandeira do movimento trans, a alteração do nome em documentos oficiais, já realidade na vizinha Argentina, por aqui ainda depende da aprovação de uma lei. “Temos um problema no Brasil que é nosso Legislativo, que tem uma ala fundamentalista grande que estanca muitas políticas sociais”, critica. “Queremos retificar nosso nome civil, mudar nosso pré-nome, ser respeitadas não só profissionalmente, mas como cidadãos. Ser de fato o que a gente é.”

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