Os políticos evangélicos: função social e vexame público

Parlamentares evangélicos acreditam viver o auge de seu momento no Congresso brasileiro. Tornam-se claras as suas agendas de poder e dominação, no entanto, para eles, é cada dia mais difícil evitar o vexame público e esconder a função social de puro entretenimento que exercem.

Por João Sales 
Publicado na coluna Canteiro da revista Obvious, em fevereiro de 2015

(Charge: Latuff Cartoons)

(Charge: Latuff Cartoons)

Para evitarmos as incompreensões de ordem semântica cumpre esclarecer o que se denominou chamar de movimento evangélico no Brasil. Porque ainda que alguns tenham uma noção básica dos grupos que ali estão inseridos, não são poucos os equívocos quanto à compreensão desse crescente grupo que, atualmente, tem ambicionado fazer de suas bandeiras leis para toda a nação.

Assim o termo evangélico procede da palavra Evangelho, que em seu sentido etimológico veio do grego significando o mesmo que “boa notícia”. Ainda sobre o Evangelho trata-se especificamente de uma parte da Bíblia denominada de Novo Testamento em que quatro autores contam sobre alguns trechos e ensinamentos da vida de Jesus de Nazaré.

Portanto este movimento é uma parte do cristianismo, que tradicionalmente se chama de protestantismo – desde a Reforma Protestante de Lutero –, e que ainda segmenta-se dentro deste em variadas vertentes chamadas de pentecostais, neopentecostais, tradicionais etc., a depender de como cada um deles interpreta o próprio texto bíblico.

Interessantemente surge a primeira esquizofrenia destes denominados evangélicos: qualquer pessoa que se debruce sobre a leitura dos quatro livros, que compõem o Evangelho, verá que eles não passam sequer próximos dos ensinamentos que ali são contidos.

Não precisaríamos de argumentos da Ciência Política ou de qualquer outro tipo de argumento científico para demonstrar as idiossincrasias destes ambiciosos “homens de fé”, que atualmente lotam o Congresso brasileiro, pois é dentro da lógica de sua própria declaração de fé que reside a maior denúncia e reprovação de suas agendas de poder.

Se fôssemos conceber uma leitura política do texto bíblico, sem dúvida alguma, a Teologia da Libertação seria a mais próxima e aceitável por tomar os ensinamentos e atitudes contidos no Evangelho como uma denúncia às injustiças sociais, econômicas e políticas, pois neste sentido o Homem de Nazaré assume uma função social de libertador do povo da opressão dos sistemas impostos.

Isto porque Jesus, assim como os grandes líderes espirituais de todos os tempos e povos, praticou indefinidamente o amor – não como regra moral, mas como único princípio de vida condizente com o caminho para o “paraíso”. De forma que temos expressamente nas palavras ditas por Jesus o desprezo às regras morais de sua época para dar lugar a uma visão ética, amorosa e harmoniosa da vida e sociedade.

E, além disso, nunca houve nenhuma menção, expressa ou tácita, para que este ensinamento fosse transmitido por meio do exercício do poder, contrariamente, todo o seu ensinamento e vida revelam-se na mais alta prática do altruísmo, em que o outro possui a primazia em detrimento mesmo de nossas condições pessoais.

Lançados os fundamentos básicos do tema é quase que impossível agora justificar que se denomine evangélico um grupo de homens sedentos por poder e ávidos para impor, por meio do exercício de mandatos legislativos e funções públicas, normas de conteúdo moral em nome de uma prática de fé que nunca se interessou por isso.

Infelizmente a função social cumprida por muitos destes políticos “evangélicos” é a de entreter a nação rendendo infindáveis participações nos noticiários diariamente por suas posições medievais, debatendo um ou dois temas de conteúdo moral – temas estes que muitas vezes já estão superados – impedindo assim que outros assuntos mais relevantes tomem a pauta das discussões políticas.

Assim, prestam um desserviço tanto à fé que dizem defender quanto à própria população, pois impedem a construção de uma visão holística de país ao fazerem o recorte dos temas de suas conveniências. Concretamente falando quando um deputado “evangélico” faz suas declarações contrárias aos gays, ao aborto etc., estão reduzindo os problemas do país ao “pode e não pode” de suas regras morais.

Mais drasticamente ainda, propõem mudanças na legislação para que contenha normas axiologicamente orientadas conforme os padrões que julgam aceitáveis. Violam, entretanto, as leis mais básicas do nosso ordenamento jurídico, que define o Estado brasileiro como laico, pois lotam as casas do Congresso a fazer cultos, declarações e manifestações de fé, e ainda o fazem como propaganda dos seus territórios conquistados.

Em uma ambição sem fim pastores de cima de seus púlpitos ensinam fiéis a ocuparem posições políticas e de poder econômico na sociedade, para que assim exerçam influência e possam impor as suas agendas. Portanto os rebanhos são orientados a lotarem não somente o Legislativo, mas o Judiciário e também o Executivo, desde os mínimos cargos até mesmo as presidências, como agora se ufana o atual presidente da Câmara dos Deputados.

Trata-se de um movimento muito bem articulado e que caminha para impor a sua agenda de dominação usando a fé como pretexto para alienação de seus seguidores. Encabeçam um movimento aparentemente conservador, autodenominam-se defensores da família do cidadão-de-bem, mas em verdade praticam uma verdadeira usurpação da fé cristã, compondo uma vertente fundamentalista com planos de poder muito bem definidos e postos.

Desse modo, enquanto aqueles mesmos que se denominam cristãos não forem capazes de distinguir a conduta destes parlamentares “evangélicos” da fé que dizem seguir, veremos um Congresso espetacularizado pela participação de homens que desconhecem os reais problemas do país, e somente prestam serviço àqueles outros parlamentares que em silêncio praticam as variadas formas de corrupção.

Em outras palavras, enquanto nos distraímos assistindo ao show entre o deputado “evangélico” e o deputado X, que geralmente se dá em meio a declarações absurdas e medievais, outra parte dos parlamentares está complemente oculta, dando espaço tantas vezes à corrupção que praticam. Assim, estes parlamentares “evangélicos” impedem que se abra espaço para outros temas, e o pior: que a sociedade tenha conhecimento de reais problemas que assolam o país podendo assim debater, fiscalizar e oferecer soluções.

É um engodo acreditar que estes parlamentares defendem o interesse de qualquer que seja o segmento social. Diferentemente dos grandes líderes do protestantismo histórico norte-americano que se entregaram à luta social por igualdade de direitos, temos visto no Brasil surgir um vergonhoso movimento de poder sob a denominação de evangélico, mas que envergonha qualquer homem que se declara verdadeiramente seguidor de qualquer ensinamento contido no Evangelho.

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