Os filmes com tema gay em destaque na 47ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

Por Luiz Goulart*

Atendendo ao pedido do meu colega Gésner Braga, selecionei, entre os 41 filmes a que assisti na recente 47ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, os comentários sobre aqueles filmes que vi com temática diretamente ligada à homossexualidade ou que, de algum modo, tratam do assunto.

A Mostra Internacional de Cinema em São Paulo chegou, este ano, à sua 37ª edição com mais de 350 filmes longas e muitos outros curtas. As grandes dificuldades dos cinéfilos que, como eu, programam férias com um ano de antecedência para se dedicar exclusivamente a desfrutar dos filmes da Mostra são: escolher os filmes que deseja ver, conseguir achar vagas em sessões concorridas e muitas vezes lotadas e torcer para que os filmes escolhidos não tenham conflitos de horários.

Entre os filmes com uma temática diretamente ligada à homossexualidade, destaco seis produções. Duas outras abordam o tema de modo ligeiramente tangencial. Eis a lista com os comentários:

exercitodasalvacaoEXÉRCITO DA SALVAÇÃO – Filme franco-marroquino que conta a vida do primeiro escritor árabe e marroquino a assumir publicamente sua homossexualidade. O filme mostra sua vida em Casablanca, quando o jovem Abdellah passa seus dias em casa, com uma família complicada e tendo relações sexuais com homens pelas ruas da cidade. Dez anos depois, ele vive com seu amante suíço, deixa Marrocos e vai para Genebra, rompe com o amante e começa uma nova vida, pedindo abrigo em um posto do Exército da Salvação. O filme merecia um roteiro mais intenso e com um desenvolvimento mais arrojado já que trata da vida de um escritor. Mesmo as abordagens sobre os encontros fortuitos do jovem Abdellah com homens mais velhos não são exploradas de modo mais explícito. O garoto não exibe nenhuma emoção, é extremamente passivo e mesmo depois de adulto continua sem exibir emoção. A única cena em que se emociona é exatamente a última do filme quando ouve um conterrâneo marroquino cantar para ele uma canção do seu país.

lapartidaLA PARTIDA – Outro filme com a temática da homossexualidade. O diretor espanhol estava na sessão para apresentar o filme e debater com a plateia. A história se passa em Cuba sobre dois rapazes cubanos que adoram futebol, vivem quase na marginalidade e lutam para levar uma vida juntos quando se descobrem apaixonados. Mas a vida é muito difícil para ambos. Um trabalha cobrando e batendo em pessoas que devem ao seu sogro e o outro, casado e com um filho pequeno, prostitui-se nas ruas de Havana para pagar as contas de sua família que, por sua vez, sabe que ele se prostitui. As cenas de relações sexuais entre os dois rapazes e também com os clientes que utilizam seus serviços sexuais são muito intensas e bastantes explícitas. Ambos são muito jovens e nada para eles é fácil. O amor é um complicador nessa equação tão dolorosamente difícil. Quase dá para resumir o filme na famosa frase da música “Love hurts” ou na canção de Chico Buarque “Viver do Amor”, da Ópera do Malandro: “ O amor/Jamais foi um sonho/O amor, eu bem sei/Já provei/E é um veneno medonho”.

caracoisnachuvaCARACÓIS NA CHUVA – Um filme israelense que, creio, deve ter desagradado a muitos homossexuais que esperavam outro final. Mostra a relação de um belo casal de estudantes de 25 anos que vive em Tel Aviv e o belíssimo jovem começa a receber cartas de amor anônimas e obsessivas de outro homem que ainda está “no armário”. Como o admirador secreto demonstra saber tudo da vida do estudante ele começa a ficar ao mesmo tempo intrigado, assustado e excitado com isto e passa a reparar em todos os homens com que cruza. Lembra dos tempos do exército em que participava de inocentes (mas nem tanto) affaires homoeróticos e despertou um discreto interesse por pessoas do mesmo sexo, algo que ele havia sublimado, confundindo com camaradagem. Mas as chegadas das cartas despertam um desejo adormecido. A curiosidade da noiva que descobre as cartas e mesmo assim luta para manter o relacionamento prova que ela realmente o amava e estava disposta a enfrentar esse “pequeno” obstáculo para manter o seu homem. Apesar do final desapontador, para muitos, admirei a construção dessa personagem feminina com tantas nuances e força. O diretor foi ardiloso ao utilizar um ator com uma rara beleza e mostrar breves cenas de contato homoafetivo. Pôs o doce na boca das crianças e depois retirou. Está perdoado

tomnafazendaTOM NA FAZENDA – Esse foi um dos filmes que mais eu ansiava ver na Mostra, pois há quatro anos vejo filmes do diretor Xavier Dolan e sempre são muito bons. O primeiro (Eu Matei a Minha Mãe), o segundo (Os Amores Imaginários) e o terceiro (Lawrence Anyways), assim como este último são consagrados e Dolan atua também em três deles. Os temas sempre giram em torno das dores dos amores desfeitos ou das dificuldades da homossexualidade. O diretor, canadense, tem hoje 24 anos, é gay assumido e seus filmes sempre se passam no Canadá e são falados em francês. O seu primeiro filme foi premiado em Cannes e indicado pelo Canadá para concorrer ao Oscar de filme estrangeiro. O detalhe é que Dolan além de atuar, dirige e roteiriza seus filmes, o primeiro quando ainda tinha 19 anos. Aqui ele faz o papel título, Tom, um jovem que viaja ao interior rural do Canadá para o funeral do namorado de 25 anos quando percebe que nem a mãe nem o irmão do namorado sabia quem ele era ou que o morto era gay. O irmão do morto demonstra ser, apesar de belíssimo, um tipo violento e machista que enreda o visitante numa teia doentia e a mãe do jovem passa a fazer parte dessa intrincada relação de dominação e obsessão. Aos poucos, Tom descobre que está numa armadilha da qual não tem certeza se pode ou se quer sair, mesmo após muita violência física, pois envolve muitos aspectos psicológicos que são fantasmas dele próprio. O diretor foi extremamente corajoso em se colocar nesse papel que não tem nada de edificante. Acredito que os gays engajados devam querer crucificar o diretor. Eu aplaudo seu cinema, como sempre. Xavier Dolan sabe escolher seus atores pelo talento e pela beleza masculina e sabe muito bem escolher as músicas dos seus filmes, como fica claro na canção Bang Bang, ouvida em Kill Bill na gravação original de Nancy Sinatra, mas usada em seu filme Os Amores Imaginários, na voz da cantora Dalida. Destaques marcantes vários, entre eles uma belíssima cena de tango, involuntariamente e ao mesmo tempo explicitamente homoerótica ao som da canção “Milonga De Mi Amor”, do grupo argentino Gotan Project, e a música de encerramento, Going to a Town, na voz rouca do cantor canadense Rufus Wainwright: “I’m going to a town that has already been burned down/I’m going to a place that is already been disgraced/I’m gonna see some folks who have already been let down./I’m so tired of America” ou “Estou indo para uma cidade que já foi incendiada/Estou indo para um lugar que já foi degradado/Vou ver alguns camaradas que já foram decepcionados/Estou tão cansado dos Estados Unidos”. A música foi gravada também por George Michael e não sei realmente qual das versões acho mais impactante.

elgrancircoEL GRAN CIRCO POBRE DE TIMOTEO – Um documentário chileno que não me agradou muito. Fui com um amigo a quem recomendei e, como me senti culpado por não ser o filme que eu esperava, saímos depois para jantar em um restaurante chileno e, para compensar, apresentei a ele uma bebida e uma comida daquele país, que conheci quando estive lá e que ele não conhecia: pisco e ceviche. Já que o filme do Chile não valeu, pelo menos a culinária de lá compensou. Ah, o filme é sobre um circo decadente comandado por um gay, o tal Timóteo. Nele só trabalham bichas velhas que viajam com esse circo pelo Chile há 40 anos, instalando-se em grandes e pequenas cidades com um show paupérrimo de drag queens. O documentário claramente foi feito por uma pessoa que não soube ser objetiva na edição, pois é uma tal de repetição sem fim de imagens paradas do tal circo, da lona do circo, do logotipo do circo… afff que chatice… e depois vemos umas cenas e uns ensaios muito vagabundinhos. Acho que tem gente que deve ter gostado… deve ter achado muito autêntico, artístico, autoral… sei lá… eu gostei até a página 2. Ah, Timóteo está fechando o circo porque adoeceu sério. Ahã… coitados dos artistas… E o pisco do tal restaurante chileno ainda me deixou com ressaca no dia seguinte. O ceviche também não desceu muito bem.

tatuagemTATUAGEM – Um filme brasileiro que confesso que me decepcionou enormemente apesar de ter ganho o último Kikito do Festival de Gramado. A sessão estava superlotada, pois o diretor Hilton Lacerda é de Pernambuco, mas mora há anos em São Paulo, onde tem muitos amigos e, pelo jeito, muitos deles estavam no cinema para prestigiá-lo. Eu tinha grande expectativa porque, apesar de ser o primeiro filme dirigido por Hilton, ele é roteirista de filmes que adoro como Baile Perfumado, Baixio das Bestas, Amarelo Manga, A Febre do Rato e A Festa da Menina Morta. E, além disso, o filme é com um dos meus atores brasileiros favoritos, Irandir Santos. Não sei como um cara que roteiriza filmes tão fortes e viscerais como os que citei acima, dirige uma bobagem dessas. A história se passa em Recife, em 1978, durante a ditadura. Mostra um grupo de artistas gays, lésbicas ou multissexuais que se apresenta em cabarés com shows debochados de conteúdo político e amoral. Há muitas cenas de nudez e sexo entre dois homens, mas um filme excessivamente verborrágico com muitas coreografias de mãos e muitos braços abertos e discursos “poéticos”. Uma chatice, apesar de que as cenas de sexo são bem boas e ousadas, mas me incomodou certo tom datado e engajado. A plateia, pelo jeito, adorou, pois aplaudiu entusiasmada no final e ninguém se levantou para sair. Fui o único a deixar a sala no final. Parece que só eu não gostei. O povo ficou pra babar o ovo do diretor. Eu, hein Rosa!

evaendA PRIMERA VEZ DE EVA VAN END – Um filme do qual eu esperava mais, pois o diretor holandês é comparado, por alguns, ao diretor americano Todd Solondz, de cujos filmes eu sou fã. De fato, o filme até tem a mesma pegada de Solondz, mas se perde do meio para o fim e não mantém a força, com uma conclusão bem chocha e covarde. É a história de uma família disfuncional onde nem a mãe, nem o pai, nem os dois filhos e muito menos a filha, a tal Eva, têm qualquer empatia entre si. A chegada de um belíssimo jovem alemão, para um programa de intercâmbio, mexe com todas as estruturas desta família envolvendo medo, desejo e sentimentos que a família nem imaginava ter. A abordagem sobre a homossexualidade fica por conta da atração que um dos filhos da família holandesa, até então exclusivamente heterossexual e prestes a se casar com uma moça, descobre subitamente pelo belo visitante alemão, algo que, infelizmente, não se desenvolve. Lembra até o argumento do filme Teorema, de Pasolini, mas fica distante anos luz da força do clássico italiano.

pelomaloPELO MALO – Esse é um filme venezuelano e dei o azar de assistir a ele na sessão da juventude que é gratuita e tem todo dia no cinema da Livraria Cultura, bem como em outras três salas. Muitos adolescentes perturbaram a concentração da plateia de verdadeiros cinéfilos. Uma outra história sobre jovem. Aqui ele tem nove anos e é filho de uma mulher desempregada e mãe solteira. O drama de Junior é exatamente o título do filme: Pelo Malo ou Cabelo Ruim. Junior está de férias e sua mãe tem um preconceito que não esconde pelo filho ter o cabelo pixaim. Ele também odeia ter esse tipo de cabelo e faz de tudo para alisá-los. Sua mãe suspeita também que ele seja afeminado e nesse meio tempo desconta no menino suas frustrações, pois não consegue recuperar o emprego de segurança. A avó da criança entra no conflito com a mãe, pois ela prefere o neto como é em vez de ser como o pai dele, machão e que morreu a bala. O filme mostra a Venezuela machista e militarista nos estertores do governo de Hugo Chavez. Um belo e duro filme que ganhou a Concha de Ouro de melhor filme no Festival de San Sebastian da Espanha.

* Luiz Goulart é cinéfilo no sentido mais literal da palavra e mantém o blog Chacais Sempre Espreitam onde publica suas críticas de cinema entre outros textos de sua autoria.

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