O estranho silêncio das palavras que devem ser ditas

Gésner Braga*

silencioExistem experiências na nossa vida que, por serem positivas, relevantes ou transformadoras, temos obrigação moral de compartilhá-las. Exatamente por isso, busco tornar públicos certos capítulos da minha biografia se algum proveito eles tiverem, por exemplo, para o movimento social LGBT do qual faço parte. Mas algo aconteceu comigo dias atrás que me fez perceber o quanto tenho estado inconscientemente egoísta com pelo menos uma história pessoal. E que ódio eu tive de tal omissão por tanto tempo.

O fato sistematicamente ocultado por mim diz respeito à primeira vez que declarei expressamente à minha família que eu era gay. O caso aconteceu por volta dos meus 46 anos, quando eu começava a trilhar os caminhos do movimento social LGBT, e foi um divisor de águas nas minhas relações familiares. Pela minha idade à época, a iniciativa parece tardia, mas três razões justificam as circunstâncias. Primeiro: nunca tive necessidade de revelar minha orientação homossexual, visto que era algo óbvio e expresso no meu jeito, nos meus gestos, nos meus gostos e na ausência de namoradas. Enfim, eu sempre tive uma atitude gay. Segundo: eu não sofri pressão ou violência motivada por preconceito no seio da minha família. Adversidades dessa natureza foram encaradas no ambiente escolar desde os meus cinco anos. Terceiro: apesar da convivência salutar com meus pais e irmãos, nunca senti um ambiente aberto para falar sobre sexualidade. Eu sabia que minha família, mesmo tolerante, tinha um perfil conservador.

Então deixei o rio seguir seu curso, até que um episódio me fez mudar de opinião. Um irmão meu, provavelmente influenciado por dogmas aprendidos em igrejas evangélicas, reproduziu para toda a família uma mensagem por e-mail que não era de sua autoria, mas que continha um teor generalizante, preconceituoso e ofensivo, sobretudo para um gay. A atitude dele foi duramente contestada por mim, decisão que compartilhei com todas as pessoas envolvidas. Se antes eu não me sentia à vontade para falar ao meu respeito com pessoas tão próximas, os novos fatos mudaram o rumo da história. De imediato, eu disse que começaria com uma revelação óbvia e escrevi: “eu sou gay”. E do alto da minha indignação, desconstruí palavra por palavra, absurdo por absurdo daquela mensagem odiosa.

Depois veio o silêncio e ninguém mais encaminhou qualquer resposta. O recado estava dado e nenhum arrependimento se abateu sobre mim. Eu me senti irremediavelmente liberto e estava disposto a pagar o preço, ainda que fosse um abismo aberto naquela base familiar que eu ousei contestar. Até aquele momento, eu gozava de respeito sobretudo pela minha retidão de caráter. Depois do meu atrevimento, restava aguardar o desfecho.

Imediatamente, minhas duas irmãs, das quais eu sou muito próximo, telefonaram-me para pedir desculpas e reafirmar o apreço por mim. A minha cunhada, esposa do irmão que enviou a mensagem, fez o mesmo e desculpou-se também em nome dele. Ou seja, minha resposta contundente e audaz poderia ser o pivô de uma ruptura, mas surtiu efeito contrário. Por meio dela, mostrei-me determinado a desafiar o preconceito e a violência sofrida em razão da minha orientação homossexual e sobretudo a ter este enfrentamento como uma bandeira de luta. Meu destemor fez aumentar a admiração daqueles ao meu redor. Ainda hoje, minhas irmãs ficam apavoradas com possíveis consequências da exposição à qual eu me sujeito deliberadamente e por instinto de sobrevivência, mas também sentem profundo orgulho por reconhecerem minha coragem.

E por que toda essa catarse agora? Para entender, é preciso voltar ao fato ocorrido dias atrás. Por uma ligação estreita que eu tenho com o grupo Mães pela Diversidade na Bahia, fui convidado a participar de uma entrevista com a cineasta Tatiana Issa, diretora do documentário Dzi Croquettes, uma obra que eu venero por resgatar a história quase perdida do espírito inquieto, ousado e revolucionário de um grupo que deixou sua marca eterna no movimento da contracultura nos anos 70 no Brasil.

Como se não bastasse Tatiana ser a mentora de um documentário de importância vital em meu ativismo social no movimento LGBT, ela também foi responsável por despertar em mim um insight de potência transformadora. Tudo aconteceu quando, na terceira e última pergunta da entrevista, ela quis investigar um pouco as minhas relações familiares. Aleguei exatamente o que disse acima: que minha família não é tão aberta à diversidade, apesar de tolerante, razão pela qual não me sinto à vontade para falar sobre minha sexualidade, e esclareci que conversas dessa natureza não são mais possíveis com minha mãe que já é bastante idosa e tem saúde frágil. Desse modo, minha resposta se restringiu a avaliações negativas, quando na verdade a minha relação familiar é muito boa, apesar de certas limitações.

Mas o pior de tudo foi expor o episódio da minha réplica à mensagem do meu irmão sem discorrer sobre seus desdobramentos. E aqui surge o insight. Ao chegar em casa após a entrevista e refletir sobre minhas respostas, dei-me conta de que nunca, absolutamente nunca falei sobre esse assunto com ninguém, em meus seis anos de ativismo. Já citei a tal mensagem algumas vezes, mas nunca abordei as implicações posteriores que demonstraram o quão positivo foi para mim ter tido coragem de ser aberto e franco com a minha família, mesmo correndo riscos. Por minha condição de ativista, esse exemplo de diálogo possível, sincero e eficaz jamais poderia ter sido mantido em sigilo.

Não compreendo por que guardei essa história até agora. Não entendo como e por que meu cérebro agiu para ocultar esse fato inclusive na recente entrevista. Mas aqui estou eu redimido e decidido a mudar o rumo dos acontecimentos. E esse estalo eu devo a Tatiana Issa. Não sei o que ela fará da minha entrevista. Não sei se aproveitará alguma fala ou se descartará tudo, o que pode ser inevitável e compreensível quando se tem vasto material de pesquisa. Mas posso garantir que, para mim, a experiência valeu imensamente e só tenho a agradecer. E a compartilhar também, claro!

Gésner Braga é gay, ativista social, jornalista e mantem o site Clipping LGBT

•••

CLIQUE AQUI E CONHEÇA A PÁGINA DO CLIPPING LGBT NO FACEBOOK.

 

12 thoughts on “O estranho silêncio das palavras que devem ser ditas

  1. Querido Gesner, não sou gay, entrei como simpatizante e militante por não compreender os processos que geram a não aceitação do outro. O que me leva a uma possibilidade: Falta de senso crítico reflexivo. Se me questiono e me forço a buscar compreender meus processos internos, mais provável que eu entenda que ser cis e heteronormativa não me faz melhor ou mais ou menos normal. Muito bonito ver seu processo de reflexão pessoal corajosamente sendo dividido. Obrigada e parabéns.

    • Adriana, eu lhe conheço há pouco tempo, mas tenho referências muito fortes de sua história que me fazem concluir quão fundamental foi para o movimento LGBT a sua adesão às nossas causas. Senso crítico reflexivo você tem de sobra! Sim, vamos compartilhar tudo isso para ver se colocamos mais juízo nesse mundinho tão pequeno de alguns.

  2. Olá Gesner,
    Te conheci sábado na festa das Mães. Sou do Grupo Mães pela Diversidade. Tenho um único filho, maravilhoso, que é gay. Para mim é tão normal ele ser gay quanto eu ser hétero. Nessa caminhada em meio a tanto preconceito, eu e ele não achamos necessário estar discutindo nem mostrando nossa sexualidade, desde quando em nosso entendimento, nossos familiares não são, vamos dizer, ignorantes. Mas ambos sabemos que eles (nossos familiares) preferem se absterem de falar sobre o tema. Mas isso não impede que nós ( eu e meu filho) não falemos abertamente do assunto, quando necessário, sem imposição, mas com tranquilidade. Nunca aconteceu de termos necessidade de dizer abertamente sou gay ou sou hétero, mas se surgir essa necessidade creio que tanto eu como meu filho o faremos, sim.
    Gostei de sua reflexão.
    Grande abraço.

  3. Amigo q eu amo! Parabéns, parabéns por todas as vitórias, externas e internas. Vc não imagina o quanto sua lucidez, amor, companheirismo me ajudam diariamente. Quanto ao q vc escreveu estive refletindo um dia desses. Acho q até escrevi algo. Sobre sair do armário, mas o armário não sair da gente! Não é fácil sair do armário, mas, depois q saímos, vira luta q impulsiona. Mas a gente sempre tenta guardar o armário de casa, da família. É comum isso acontecer. Tb reconheço em mim e nos companheiros q tive! Fico feliz por vc ter saído do armário ha tantos anos e talvez, só agora, se dado conta de q o armário tb tem q sair de vc.
    Te amo!

    • A verdade é que eu nunca estive no armário. Pelo meu jeito de ser que evidenciava minha orientação sexual mesmo numa época em que ela não estava definida, eu nunca tive direito ao armário e por isso sou vítima de preconceito desde os cinco anos.

      O silêncio na família tinha outras razões. Eu nunca travei uma discussão sobre sexualidade com meus pais nem por iniciativa deles próprios. Se outros irmãos tiveram, não foi do meu conhecimento. Ou seja, não se conversava sobre esse assunto. Mas isso não era algo que eu sentia falta pelas razões que expliquei no texto.

      Essa “saída do armário” não foi exatamente uma saída, mas um alerta para o fato de que as portas dele sempre estiveram abertas e que, exatamente por isso, muitos assuntos seriam objeto de reflexão profunda. Foi o que eu promovi.

      • Acho q entendo. Passei por algo semelhante. Sempre me reconheci gay, desde criança. O armário é uma analogia, pelo menos na minha vida ele existiu. Existiu quando eu ouvia em silêncio os despautérios dos familiares sobre o tema. Existiu quando eu negava levantar a visão e contemplar a estética masculina, existiu quando ia entrar num banheiro e tinha medo q imaginassem algo de mim. Quando saí de casa eu sai do armário, confrontei todas essas coisas na minha vida. Declarei todas as dores e sorrisos em minha vida “fora de casa”. Mas o armário do silêncio lá ficou. Todos “sabiam”, era óbvio. Eu tava casado com um homem! Mas ninguém nunca comentava nada! O silêncio era as paredes do armário! Faz poucos anos q eu resolvi gritar e quebrar esse silêncio. Hoje, tanto fora de casa quanto dentro de casa eu falo sobre ser gay, sobre o respeito q se deve ter comigo e sobre o amor q sentem por mim. Sendo gay, assumido, tanto dentro, quanto fora de casa. O armário não existe mais! Hoje mesmo fiz isso no meu face.

        • O silêncio é uma espécie de armário… Sim, concordo. Era o armário conveniente da família e era o meu armário sempre que eu não reagi a insultos, coisa que eu só aprendi a fazer depois de adulto.

  4. Meu amigo, estou aqui para mais uma vez dizer…Quanto orgulho tenho de ti e mais ainda, de tê-lo por perto!! te amo por tudo que você representa na nossa familia <3

  5. Sempre querido, sempre amado, sempre respeitado irmão, Gésner, tenho a impressão de que a família nunca se manifestaria do mesmo modo que, geralmente, não interferia nas opções sentimentais de cada um de nós.
    Acredito que, daí a sua surpresa no desdobrar daqueles acontecimentos. Sempre fomos família de barulho nas brincadeiras, contudo sempre discretos nas demais manifestações e sempre procuramos respeitar o silêncio de qualquer um de nós. Você foi, é e sempre será orgulho e exemplo para todos nós. Amamos você do mais profundo dos nossos corações.

    • Hoje eu dizia a Luiz Mott que não posso reclamar da família que tenho. Em 51 anos, apenas um único episódio que fez eu me sentir ofendido por ser gay. Isso é nada perto de tantas histórias que conheço. Além disso, foi um momento que se converteu em aprendizado para todos. No fundo, foi ótimo ter acontecido aquilo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *