O Beijo

Wilson Gomes

beijo

1. Não é por causa de um beijo, é por direitos. Mais ainda: é por reconhecimento. Não deve haver amor ou desejo que não possa beijar, na intimidade ou à vista de todos, na telinha ou na alcova. Se todo mundo pode beijar, na vida ou na ficção, por que apenas aos gays da ficção televisiva, do nosso melodrama audiovisual preferido, não se reconhecia o direito ao beijo de amor?

2. É por causa de um beijo, sim. Se pode amar, por que não pode beijar? Na narrativa sentimental todo par amoroso se destina a um grande beijo, o definitivo, aquele que encerra os conflitos, as agonias, as peripécias, as buscas e, claro, as embromações. Se há pares amorosos gays, emoldurados numa ternura de timbres e olhares que dispensou até a convenção dos violinos, como poderia não haver beijos? No beijo de ontem, as narrativas sentimentais se reconciliaram com a verossimilhança. Aristóteles teria curtido.

3. Não era questão de um beijo, era uma questão de política e democracia. Foram tantas as pessoas que ontem murmuraram ou gritaram “já era hora!” e tão poucas as que sussurraram “pouca vergonha!” que até pareceu que uma das controvérsias morais e políticas mais resilientes tinha se resolvido em favor de um dos lados da comunidade política. Não é bem assim, mas o fato é que a ficção televisiva ontem foi a arena central de uma luta política entre o campo conservador e o campo liberal. A luta por representações justas, respeitosas, adequadas é uma luta por direito e por conhecimento, do ponto de vista liberal; e por valores, do ponto de vista conservador. Ontem não estava em causa apenas o desfecho de uma trama sentimental no melodrama das oito; ontem, meus amigos, o beijo entre dois homens nos três últimos minutos do folhetim da Globo (juntamente com a entrega amorosa derradeira de um pai homofóbico aos cuidados e ao amor de seu filho homossexual) foi política no sentido mais pleno do termo.

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