O ativismo LGBT começa na palma das mãos

Nos encaravam de cima a baixo, terminando seus olhares repressores em nossas mãos. Queriam intimidar. Mas não foram mais fortes que nossas mãos, unidas e ativistas.

Salomão Cunha Lima
Fundador do GAMES, grupo que discute diversidade e inclusão no mercado
Publicado pelo portal HuffPost Brasil, em 16 de junho de 2017

Nossas mãos, enquanto minorizados, deverão permanecer sempre juntas, unidas e ativistas em prol de uma cidade mais humana. (Getty Images/Istockphoto)

Era uma dessas tardes no meio da semana em um bairro empresarial de São Paulo. Eu e meu companheiro nos encontramos para almoçar ali perto. Ambos brancos, de estaturas medianas, vestidos elegantemente com blazer e terno, dress code default para nossos cargos profissionais.

Em território corporativo conservador, leia-se aqui heteronormativo e machista, nos colocamos de mãos dadas, como o fazemos em qualquer espaço social, seja público ou privado. Desta vez, percebemos ativamente olhares diferenciados. Parecíamos estranhos ao local. Eu disse “estranhos”?

Eram (não todos, vale ressaltar) homens de meia idade, brancos, cisgêneros e, provavelmente, heterossexuais. Nos encaravam de cima a baixo, terminando seus olhares repressores em nossas mãos. Queriam intimidar. Mas não foram mais fortes a ponto de conseguir desgrudar nossas mãos: unidas e ativistas.

Por que será que dois homens bem vestidos em ambiente corporativo expressando um relacionamento entre indivíduos de mesmo gênero incomodam tanto os outros? Seria por insegurança de seu autoconhecimento? Medo do diferente do que já é, atualmente, usual?

Somos mesmo obrigados a reproduzir hábitos e comportamentos padronizados? Precisamos nos encaixar nos limites impostos por culturas organizacionais retrógradas, criadas por gestores de gênero e cor dominantes que não contemplam a diversidade?

Por que precisamos adotar padrões masculinos e machistas para alcançarmos espaço no ambiente corporativo? Só assim obteremos respeito profissional e conseguiremos emplacar ideias e ações?

Muitos preferirão aceitar e reproduzir piadas machistas, homofóbicas, racistas. Outros acharão melhor “permanecer no armário”, evitando reprimir sua sexualidade e expressão sexual, com receio de que tal “saída” prejudique sua ascensão profissional. Muitas levarão cantadas machistas e engolirão a seco o vazio do respeito que não existe no dia a dia de muitas dessas profissionais.

Em um mundo em que quem ganha qualquer negociação é quem fala mais alto, quem mostra virilidade masculina, quem banca o mais esperto – e ser “mais esperto” é, muitas vezes, desrespeitar o outro -, há duas opções de atuação: adesão ao sistema opressor ou o empoderamento para se contrapor.

Como ouvi de uma importante mulher negra, o empoderamento se expressa quando, ao entrar e sair de qualquer lugar, nos sentimos os donos da festa. E ser dono da festa é estar seguro de si, é tratar todos bem, como convidados queridos, independentemente de quem seja. É estar com a cabeça erguida e ter muito respeito e cordialidade com o próximo, seja quem for.

Somos todos agentes diários de transformação social. E esta mudança já passou da hora de acontecer efetivamente. Para isso, nossas mãos, enquanto minorizados, seja por nossa cor, orientação sexual, religião, etnia, gênero ou identidade de gênero, deverão permanecer sempre juntas, unidas e ativistas em prol de uma cidade mais humana.

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