Nossa apatia e o crime de lesa-cidadania

Sandro Lobo
Publicado pelo Correio Braziliense, em 14 de fevereiro de 2015

(rnemrede.com)

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Sabe, eu até entendo que um homem adulto sinta desconforto ao ver duas pessoas de mesmo sexo se beijarem em público, se amarem, casarem, adotarem filhos. Entendo, no sentido de que essas pessoas são tão obrigadas a esconder sua vida pessoal e seus afetos que, por não serem testemunhados como fatos corriqueiros do cotidiano, sua visão se torne inicialmente um pouco perturbadora.

Lembro de ter achado “ridículo” dois caras se beijando na rua bem no começo da adolescência, quando não cogitava arriscar autoanálises. No entanto, acho que é de uma aberração gritante que homens maduros, ou de maduro a idosos, como Malafaia, Bolsonaro, João Campos e Eduardo Cunha se coloquem em público como “contra” tudo que diz respeito a essas pessoas, a essa grande parte da sociedade, sendo eles ou estando eles como representantes de instrumentos de democracia e manipulando este poder.

Não é uma birra. Óbvio que representam outras pessoas de pensamento igual e estão legitimamente empossados em suas funções públicas (e isso é, em grande parte, o motivo de toda a sensação de derrota que nos dá a nós, que acreditamos em igualdade de direitos e sociedade democrática, mesmo sabendo que no fundo não há derrota, é apenas desânimo passageiro.

Eu acho que se eu fosse este tipo de ‘macho’ que esses caras pensam que são – se eu fosse dez por cento essa construção vacilante que eles carregam sustentando em seus paletós e gravatas – eu teria muita vergonha de fazer essas coisas estando em cargos públicos, e me pronunciando dessa maneira em público.

Acho que teria horror à possibilidade de que pensassem que eu fosse um recalcado, uma bicha enrustida, como é a primeira tese que nos vem à cabeça. Um ser humano que não goza e não deixa o outro gozar, se puder atrapalhar. Uma pessoa doente, para resumir. Teria vergonha de que pensassem assim de mim.

Mas mais grave do que isso é esta visão e comportamento patológicos ultrapassarem todas as fronteiras do aceitável (alguém pode guardar seus preconceitos lá no fundinho escuro do seu baú mental porque sabe que a vida em sociedade demanda aceitações, cessões, superações desses preconceitos e sobretudo respeito a todas as outras pessoas – acho OK que esta pessoa tenha seu preconceito e jamais o exponha por não poder reverter isso, mas também não ouse externá-lo).

E gravíssimo é que pessoas assim estejam na situação de ocupar um cargo na Casa do Povo, no lugar onde são iniciadas e finalizadas discussões em torno de LEIS que deveriam, a priori, melhorar nossas relações, promover o desenvolvimento dos cidadãos em todos os âmbitos. Gravíssimo é que estejamos tão apáticos que só façamos isso – utilizemos as redes sociais para veicular memes bem-humorados, postar frases a respeito do tema, ou escrever textos como este. Não basta.

2015 é o ano em que será preciso que os setores mais esclarecidos lutem à vera contra os representantes do atraso. Vai ser preciso juntar gente e, se for o caso, vai ser preciso gritar junto, levar cartaz, enfrentar a polícia e, quem sabe, recursos ainda mais drásticos. Sem aquela palhaçada de que tem um gigante acordando.

Eu espero sinceramente ter coragem e disponibilidade para isso, e que as pessoas, se resolverem se mobilizar por estas e outras questões que vêm adoecendo a sociedade brasileira, o façam sabendo exatamente porque o fazem. Que não aceitem ser cooptadas ou ter sua imagem utilizada para representar sandices como pedidos de impeachment ou volta da ditadura militar.

É preciso ir à rua para revogar as perdas de direitos trabalhistas, o aumento dos alimentos, dos combustíveis, da energia elétrica, a falta de água resultado de incompetência de gestão pública, a corrupção na Petrobras, mas é preciso ir às ruas também pensando nesta deformação mental que está ganhando cada vez mais espaço e conformando o pensamento do cidadão médio

Eduardo Cunha é o terceiro na hierarquia do poder no Brasil e diz sem qualquer vergonha coisas como “aborto e regulação da mídia só serão votados passando por cima do meu cadáver”, empáfia que para mim já beira algum tipo de crime lesa-cidadania, digamos assim.

Ele e seus comparsas precisam entender a básica lição de utopia: o poder emana do povo para o povo e em seu nome deve ser exercido. Mas, domesticados e amansados como estamos, quem vai fazê-los entender que eles não mandam nas nossas vidas tanto quanto pensam?

Sandro Lobo é jornalista e escritor

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