“Nasci pelo avesso, renasci para ser feliz”, conta homem trans Théo Meirelles

Por Théo Meirelles*
Publicado pelo coluna Me Salte do portal Correio, em 27 de janeiro de 2017

http://www.correio24horas.com.br/blogs/mesalte/nasci-pelo-avesso-renasci-para-ser-feliz-conta-homem-trans-theo-meirelles/

(Foto: acervo pessoal)

Ser trans é transcender a si mesmo, é encarar o espelho com amor e o mundo com coragem. Ser trans é entender que não é errado ser diferente, e que ser diferente significa que você é forte o suficiente para não ter que ser igual.

Eu sou trans com orgulho de ter meu lugar de fala num país escroto, onde eu saio de casa sem saber se vou voltar, sou trans com ousadia de não deixar que a transfobia que assola lá fora seja as grades da minha prisão dentro de mim mesmo.

Ser trans é resistir, é ter a possibilidade de renascer, de si, das cinzas do que se foi, do que você nunca foi. Ser trans é se reinventar num amor próprio que transborda em amor ao próximo. Ser trans é acolher a confusão do outro, é abraçar a dor do outro, é vencer os próprios limites.

Bendita seja a diferença que colore o mundo, bendita seja a hora que essa incumbência recaiu sobre os meus ombros. Hoje sou um homem melhor, mais justo, sensível, mais amigo, mais comprometido, mais coerente, mas evoluído, diferente da mulher acuada que outrora tive que encenar no espetáculo da vida – fui um péssimo ator.

Hoje vivo sem roteiros, com o compromisso de ser eu sob a luz das responsabilidades que chegam. Não tenho raiva de quem fui, tudo o que deixei de viver me preparou para ser quem eu sou hoje, um ser humano inteiramente grato.

Não escolhi ser trans, eu entendi a transgeneridade e o meu papel nesse desafio. Nasci pelo avesso, renasci para ser feliz.

Dos presentes que ganhei nessa, até então, curta caminhada, destaco os amigos que fiz, os nós que desfiz, as novidades que aprendi, as oportunidades que abracei, as referências que criei, as expectativas que renovei, os planos que consegui traçar, as capacidades que descobri ter, os corações que me permitiram fazer morada e a gostosa responsabilidade de inspirar pessoas por aí.

A única desvantagem de ser trans é lidar com a limitação não digo nem intelectual, espiritual mesmo, de quem não quer entender que o diferente não é pior ou melhor, que o diferente apenas não é igual, e, que é nas diferenças que os encaixes são simétricos.

A descoberta de ser trans me fez reacender a luz que eu mesmo apaguei um dia, e assim, enxergar um caminho de amor nesse mundo de tantas injustiças. Eu sou amor, da semeadura à colheita, e, ser trans, me fez perceber com ainda mais clareza, o quanto posso ser multiplicador do bem.

Finalizo esse depoimento com o profundo desejo de que a mesma força e coragem que me guiam, cheguem aos tantos irmãos ainda confusos, para que o esclarecimento os permita enxergar que somos muito mais que o espelho reflete.

*Théo Meireles, 26 anos, graduando em jornalismo pela Faculdade Social da Bahia

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