Mulher trans, bonita, inteligente, independente, à procura de um amor verdadeiro

Giowana Cambrone
Publicado pelo Observatório de Direitos Humanos, em 12 de junho de 2017

https://ladih.wordpress.com/2017/06/12/mulher-trans-bonita-inteligente-independente-a-procura-de-um-amor-verdadeiro/AMOR – Mulher trans, bonita, inteligente, independente à procura de um amor verdadeiro.

Imaginem um anúncio de classificados assim. Desses de correio sentimental e alguém que espera um amor. Poderia ser escrito por mim ou por tantas outras mulheres trans. Embora a busca por este amor idealizado exista, a caça do par perfeito seja comum, para muitas pessoas é inimaginável uma relação com um mulher trans que vá um pouco além do sexo.

Desafio aqueles que saírem para comemorar o dia dos namorados a procurarem nas mesas ao redor do seu jantar romântico um casal formado por um homem e uma mulher trans… ou em qualquer outro espaço que esteja. Não é impossível que aconteça mas a maioria das mulheres trans não receberão flores, nem presentes, nem declarações de amor… não serão levadas para jantar, e muito menos serão pegas após o trabalho para algum momento romântico além do sexo. Talvez até sejam procuradas para satisfazer o desejo sexual depois do sujeito já ter romantizado com a namorada ou com a esposa.

Aaaahh o amor… esse sentimento tão festejado em prosa e verso, é seletivo em relação a certos corpos e desejos. Não raro muitas mulheres negras, pessoas fora das medidas idealizadas, com algum tipo de discapacidade física, ou fora dos padrões de beleza compulsoriamente impostos, relatam a ausência de amor em suas vidas. Também é assim para muitas mulheres trans, e quando digo mulheres trans, me refiro a mulheres travestis e transexuais. E nesse dia dos namorados escrevo por fazer parte de um universo de mulheres que são impedidas de namorar, num território em que o tempo e as minhas experiências tem me permitido refletir e que compartilho trechos de um artigo que estou construindo.

Pelas minhas aventuras e desventuras amorosas tenho percebido que em minha e em outras vidas trans, o amor inexiste ou há presença de pouco amor, consistindo em uma das nossas verdades privadas mais perversas, que sequer é cogitada por outras pessoas, e quando o é raramente é discutido em público. Escreve-se e se discute sobre direitos, saúde, políticas públicas para pessoas trans… mas o amor nem é algo cogitado ou quando é se fala de forma muito tímida. Amar e ser amada não é uma tarefa fácil para travestis e transexuais, tanto nas suas intimidades quanto mais no seio social. Tanto não é fácil que, raramente nós, mulheres trans, falamos sobre nossas experiências afetivas e amorosas.

Baseio minhas reflexões no texto “Vivendo de Amor”, da feminista negra bell hooks para me aventurar a expor as venturas e desventuras emocionais daquelas que rompem com as estruturas normativas de gênero e ao mesmo tempo exercitar o desabafo pessoal de quem vivencia e sente no corpo e na alma essa ausência de amor. Em seu texto a autora apresenta o conceito que M. Scott Peck define o amor como “a vontade de se expandir para possibilitar o nosso próprio crescimento ou o crescimento de outra pessoa”, sugerindo que o amor é ao mesmo tempo “uma intenção e uma ação”.

Partindo dessa definição como base de reflexão, o amor é expresso através do que sentimos e de como agimos. Ao levar em consideração as vivencias de mulheres trans é possível perceber como se sentem frustradas como amantes. O sexismo, o machismo, as normas de gênero e a condenação social das sexualidades que fogem ao padrão heteronormativo tradicional, impõe condições difíceis, não impossíveis, para que mulheres trans possam cultivar o amor tornando-o presente em suas vidas. É necessário reconhecer que a opressão criada pela ditadura de normas distorce a nossa capacidade de amar, e impede a possibilidade de sermos amadas.

A prevalência da supremacia das pessoas cisgênero, aquelas que possui a sua identidade de acordo com o que se atribui ao sexo biológico, somada a histórica condenação das sexualidades dissidentes da norma heterossexual, estigmatiza e vulnerabiliza as vivências de pessoas trans, transformando os nossos corpos em manifestos políticos de luta pela sobrevivência e por direitos, mas também transforma nossos corpos em interditos ao afeto. Essa interdição por questões políticas impede que o sentimento do amor floresça bem como que sejamos destinatários desse sentimento pelos outros, interiorizando o sentimento de inferioridade em relação ao outro e que sentimos e vivenciamos.

Como aponta bell hooks, esse tipo de sistemas de dominação e opressão são muito eficazes pois ao alterar nossa percepção de nós mesmos, também modificam a nossa “habilidade de querer e amar”. Já foi dito por Janaína Dutra que mulheres trans “são ilhas cercadas por violências por todos os lados”, e essas violências diárias, não são somente as violências físicas que temos conhecimento pelas notícias e são facilmente identificadas e coloca o país no topo do ranking da transfobia, mas as violências silenciosas, protegidas pela intimidade ou pelos segredos de alcova, mas que causam feridas emocionais profundas que afetam nossa capacidade de sentir e consequentemente, de amar e de ser amada. A vontade de amar se torna nesse contexto ato de resistência onde descobrimos nossa incapacidade, ou impossibilidade, de dar e receber amor.

Nossas dificuldades com o ato de amar estão intimamente ligadas com a normatização das performances de gênero e da heteronormatividade. Não é novidade que historicamente utilizam o sexo como potente forma de diferenciação entre os sujeitos, normatizando nossos corpos, identidades, desejos e afetos impondo aquilo que é lhe atribuído a condição biológica. Essa construção histórica e social determina como os sujeitos devem ser, como devem se comportar e quem podem amar. E qualquer vivência divergente dessas imposições dá motivo para a exclusão e marginalização dos sujeitos que ousam fazê-lo.

Recentemente, a namorada de um amigo descobriu que ele a traiu com mulheres trans, os dois terminaram e depois tentaram reatar posteriormente. Me contou depois que ela superou a traição, mas não superava o fato de que tinha sido com uma mulher trans. Por mais que alguém diga que vê a mulher trans como uma “mulher normal”, no fundo, lá no mundo, a maioria das pessoas nos vêem como mulheres de “segunda categoria”. E a imagem do homem hetero que se relaciona com uma mulher trans fica tingida por uma mácula, uma rasura de não ser tão “homem” assim – hetero mais nem tanto – que o contamina com o medo e o receio do que vão falar dele, o que a família vai pensar, e quaisquer privilégios de “macho” que possa perder.

Essa imagem de “homem hetero” também é rasurada na identidade do sujeito. A construção da subjetividade heteronormativa é tão forte, que muitas vezes o homem fica em paranóia quando vivencia uma experiência fora dos padrões convencionados pela sociedade. Já aconteceu várias vezes depois do sexo, o homem me perguntar: “- e agora? O que eu sou?”, e eu respondo: “- o que sempre você foi”. O homem possui uma identidade heterossexual e apesar de estar ali sentindo atração pelo corpo feminino, pelo gênero feminino e ter tido prazer, por ter sentido tesão por um corpo fora do padrão considera a hipóteses de ter tido sua frágil heterossexualidade violada após o sexo, provocando o questionamento de ser ou não heterossexual. Seres humanos são mais do que as caixinhas estabelecidas como supôs a modernidade, a ciência e a medicina, e o desejo e o amor não obedecem uma lógica matemática a ser seguida conforme atribuição do sexo biológico.

Neste contexto, o impacto das normas de gênero e da heteronormatividade nas vidas e corpos das mulheres trans constitui a origem da dificuldade na arte e no ato de amar. Pessoas trans são excluídas e marginalizadas a todo tempo, e vitimizadas por tantas formas de violências todos os dias, experienciam um não-lugar no mundo que dificulta a compreensão daquilo que a gente chama de amor. Muitas mulheres trans são expulsas de casa, ainda na adolescência por não serem aceitas pelas famílias, e ganham como debutantes não uma festa, como sonha toda menina, mas uma calçada como ponto para se prostituir. Diferente de outros grupos populacionais que são estigmatizados, as pessoas trans não encontram acolhimento e esse amor incondicional idealizado que dizem existir nas famílias. Claro que há exceções de famílias que amam de tal maneira que buscam compreender e respeitar. Mas as normas de performance de gênero são tão potentes que transformam as pessoas que, em tese, deveriam se amar em algozes.

Só que os seres humanos não são uma equação matemática perfeita em que o resultado final será sempre o mesmo. O fato de uma criança ter nascido com um pênis ou uma vagina não pode ser determinante para a vida de um sujeito que é atravessado por “n” outras questões. Tal pensamento vigente impõe uma hierarquia do biológico sobre o humano, como se a genitália, e o significado atribuído a ela, fosse mais importante que o indivíduo. E quando, normalmente na adolescência, o sujeito rompe com essa lógica que transforma a construção-social de gênero em uma ditadura, e se apresenta outra identidade de gênero que não a esperada, rompem também laços familiares e afetivos. Casos de negação ou exclusão de mulheres trans pelas famílias não são raros, pelo contrário é comum a maioria das mulheres trans, não raro as famílias assumirem os discursos de negativa das identidades trans do tipo “amamos o fulanO, por isso não aceitamos que seja beltranA”, como se fossem pessoas distintas.

Mas para além do rompimento dos laços familiares, nesse cenário de negação e exclusão promove em muitos casos com que as primeiras experiências afetivas ou sexuais de mulheres trans se dão as margens, e travestis e transexuais aprendem por experiência própria, o quanto é difícil experimentar ou manter uma relação amorosa. É certo que muitas mulheres trans se sentem ansiosas para vivenciar relações de intimidade, compromisso e paixão, fora dos limites impostos para essa vivência, mas também é certo que muitas se encontram despreparadas para praticar a arte de amar. A ruptura de relações familiares, a invisibilidade das pessoas trans, o não-lugar do afeto em suas vidas, a objetificação sexual dos corpos, o modelo hierárquico de relações afetivas nos moldes heteronormativos, a necessidade de reprimir sentimentos para a sobrevivência poderiam ser alguns elementos que que criam essa dimensão.

Um dia conversando com minhas amigas Jaque e Karol, uma delas me disse “- Garota, não importa o quanto o homem diga que você é linda, inteligente e maravilhosa, ele nunca vai querer nada com você”; aquela frase me deixou curiosa e questionei como era isso já que eu estava entre duas mulheres muito bonitas. Carol me respondeu “- Somos as mulheres do mas Gi… se você não é operada ele vai dizer você é linda, maravilhosa, gostosa, inteligente e divertida, tem todas as qualidades que aprecio em uma mulher, mas não é operada. Se você é operada ele vai dizer você é linda, maravilhosa, gostosa, inteligente e divertida, tem todas as qualidades que aprecio em uma mulher, mas… não pode me dar um filho… mas a minha família não aceita… mas o que os outros vão pensar.” Na época eu estava casada e achei um exagero as colocações delas. Mas hoje, eu chego a me sentir muito mal quando sou excessivamente elogiada porque sei que serei um “mas”, para aquele homem que me leva para a cama, mas sei que seria incapaz de vir me cumprimentar em público ou que jamais me chamaria para tomar um vinho ou jantar.

Nas minhas últimas cinco relações afetivas, pude perceber as idiossincrasias do desejo e ao mesmo tempo da abjeção dos corpos trans, protagonizados por homens loucos de tesão e desejo e obrigados a negarem esses desejos; a gana dos amantes de mulheres trans (T-lovers) ou dos caçadores (T-hunters) que costumam negligenciar que atrás da pele, carne, hormônios e próteses tem uma pessoa sedenta de afeto e desejo; dos territórios de sociabilidade e desejo e a intensa objetificação dos corpos.

Valeu o textão e o desabafo mais ainda utilizar dessas vivências para refletir e escrever… Ainda sigo acreditando na possibilidade de amar e ser amada apostando em mais uma tentativa possível, entre o que vale se permitir ou até onde o coração aguenta, sabendo que hoje não receberei flores, promessas ou um convite para jantar, não receberei qualquer menção de afeto ou carinho além de um convite para o sexo, tudo por ser uma mulher do “mas”.


Giowana Cambrone é uma mulher trans, advogada, professora de Direito e está à procura de um amor verdadeiro.

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