Michael Lucas e o pornô gay sem camisinha

Por João Marinho

michaellucasA notícia “passou batida” nos últimos quase três meses, mas é interessante pelos questionamentos que levanta.

Michael Lucas (foto, reprodução), ator pornô e produtor, dono da Lucas Entertainment, voltou atrás na defesa de filmes pornôs gays apenas com camisinha, na qual se irmanava a Chi Chi LaRue, outro nome de peso na indústria, e passou a produzir filmes gays “condomless” ou “condom-free”, ou seja, sem camisinha. Para alguns, filmes “bareback”, um título, porém, que considero inadequado e depois explico por quê.

Os argumentos levantados pelo ator/produtor em entrevista são a lucratividade, a pressão do mercado – é o tipo de filme que o público mais procura – e os avanços no tratamento e prevenção ao HIV, o maior receio dentro dessa estratégia de sexo sem camisinha, com a introdução de esquemas antirretrovirais mais modernos, manutenção da carga viral a níveis indetectáveis, o que tem sido atestado como redução no risco de transmissão entre parceiros sorodiscordantes, e, no exterior, a introdução da PrEP – profilaxia pré-exposição, que significa a tomada, por parte do parceiro soronegativo, de um medicamento antirretroviral para se proteger, em boa medida, contra o vírus, resultado trazido pelo estudo iPrEx.

As notícias que circularam nos veículos brasileiros foram, pelo que pude ver, em boa parte, sensacionalistas. O Guia Gay São Paulo chegou a terminar o texto com a frase “opiniões nas redes sociais avaliam a mudança como desespero para salvar sua empresa”.

Sério, cara pálida? Redes sociais como fontes jornalísticas têm uma série de “senões” que precisam ser bem colocados – e, via de regra, opiniões em redes sociais dizem pouco sobre temas como a saúde financeira de uma empresa, por exemplo.

Até onde me chega o conhecimento, a Lucas Entertainment é ainda uma empresa lucrativa no pornô, mesmo tendo de enfrentar, como todas as outras, uma retração no segmento – no exterior, relacionada à crise dos mercados que se alastra entre os países desenvolvidos desde 2008 –, a pirataria e, com ela, a disponibilização de material gratuito online.

Mesmo assim, como profissional do segmento adulto que sou, atesto que é fato que, não faz pouco tempo, realmente o público tem preferido os filmes sem camisinha. 

No Brasil, sobretudo, permanece ainda em boa parte do movimento LGBT, especialmente o gay, uma visão extremada sobre as consequências do sexo sem camisinha entre homossexuais que se relaciona à aids com a aura de terror que ela traz desde os anos 80. Uma aura já trabalhada, em outros termos, pela escritora Susan Sontag em seus textos “A doença como metáfora” e “A aids e suas metáforas”.

Essa “aura de terror” se impõe, ou, pelo menos vejo assim, na defesa estrita da camisinha em todas as campanhas de prevenção – e só, não se fala de mais nada – e no horror público, dentro e fora do movimento LGBT, incluindo aí os serviços de saúde, a qualquer menção à possibilidade de sexo sem camisinha entre homossexuais masculinos.

Em larga medida, esse horror público guarda uma dose de hipocrisia e de homofobia. Da parte do movimento LGBT, é um horror público no melhor sentido do termo, de que, publicamente, é essa a manifestação, sem quaisquer considerações outras. No entanto, na vida privada, não poucos deixam o preservativo de lado quando em relacionamentos estáveis de longa duração, pelo menos.

Do restante do público, o resquício de homofobia se manifesta na assunção de que o sexo sem preservativo, entre héteros, é encarado com naturalidade, mas, entre gays, com o tal horror que mencionei há pouco. 

É interessante observar, inclusive, a diferença de tratamento nos serviços de saúde: um casal hétero soropositivo ou sorodiscordante vai ao infectologista e comunica que quer ter um filho e, por isso, praticar o sexo sem camisinha. O médico acha “linda” a história de formar uma nova família.

A esse casal, tendo em vista que a fertilização in vitro e a lavagem de esperma não são técnicas disponíveis em todos os lugares, ou não baratas o suficiente, é dado todo o apoio em termos de redução de riscos, ou redução de danos, para uma gravidez tranquila da mulher, e, antes, para o sexo ser mais seguro entre os parceiros.

A verdade, porém, é que o filho é apenas parte da equação. Porque o que geralmente acontece? A mulher engravida, a criança nasce soronegativa, faz um ano, faz cinco, faz 16, entra na faculdade… E a camisinha nunca volta para a rotina do casal.

Já se o casal gay vai ao mesmo infecto e comunica a mesma decisão de fazer sexo sem camisinha, é tratado como “louco” – não há o filho para amenizar a verdade do prazer erótico, como há entre os héteros, que também o buscam. Essa diferença de tratamento acaba por levar esse casal gay a adotar estratégias próprias de redução de riscos e danos, nem todas elas com embasamento científico – e com chances de darem errado e engrossarem as estatísticas de transmissão mais à frente.

Sejamos sinceros, a camisinha, antes da aids, nunca teve o status pleno de prevenção que a ela se atribui hoje em dia. Esse status, corretamente, foi introduzido pelos gays e travestis nos anos 80, mesmo diante, na época, da falta de conclusões científicas sobre a eficácia da estratégia. Antes, em larga medida, a camisinha era um meio de evitar a gravidez, tão-somente.

Por isso mesmo, não é possível deixar de apreender a noção, cada vez mais presente, de que é vista como uma barreira, no sentido próprio do termo. Uma noção que permaneceu adormecida durante os anos mais negros do HIV, de mortes em massa no mundo ocidental, quando o uso e o não uso eram a diferença entre viver e morrer, mas que veio à tona com a evolução do tratamento e o aumento da expectativa de vida dos soropositivos – e, hoje, com a introdução de esquemas mais eficazes e estratégias diferenciadas para reduzir o risco de transmissão.

Observando a questão desse ponto de vista, considero natural que um casal, gay ou hétero, manifeste o desejo de remover a barreira em algum momento do relacionamento. Alguns não terão essa necessidade jamais, outros a terão em alguns meses, ou até antes, e outros após alguns anos. Faz parte da experiência erótica, especialmente entre pessoas que manifestam algum grau de interação amorosa, o desejo de “experimentar o outro”, “sentir o outro”, e isso significa, também, sentir seus fluidos, algo que permaneceu esquecido nas últimas décadas.

O que quero ao dizer isso? Defender o “barebacking”? Pregar o fim do uso da camisinha? Respondo que não é esta a questão. Sob todos os aspectos, o HIV/aids é ainda uma doença de difícil tratamento, os remédios são melhores e mais potentes, mas ainda trazem efeitos colaterais a curto e longo prazos, e mesmo que seja possível, sim, levar uma plena e feliz vida com HIV, fica mais fácil se essa plena e feliz vida não envolver o HIV, concordam inclusive os soropositivos. Ressalta-se, ainda, a maior vulnerabilidade de gays, travestis, homens bissexuais e mulheres transexuais ao vírus no contexto de epidemias concentradas, como no Brasil. Assim, não é o caso de se “aposentar a camisinha”, mas antes de mantê-la como estratégia primeira de prevenção e redução de transmissão.

No entanto, e é isso que proponho, é preciso olhar para esse OUTRO lado: o das exigências eróticas, que passam pelo direito ao corpo e ao prazer, e reconhecer que, ainda assim, haverá pessoas que quererão abster-se do preservativo, mesmo defensores que, eventualmente, quererão experimentar – e a essas pessoas deve ser dado todo o suporte possível para que adotem estratégias outras e vivam suas vidas sem necessariamente engrossarem as estatísticas da aids e os custos com os serviços de saúde, ou, no caso de aquisição do vírus, a manutenção do tratamento de uma perspectiva holística para reduzir seus impactos negativos, o que inclui, até, assistência psicológica. É aí onde estamos falhando.

Voltando ao caso de Michael Lucas, por causa de tudo isso, eu concordo com ele que não é que a “indústria pornô está estimulando o não uso do preservativo no público”. É o PÚBLICO que está estimulando o não uso do preservativo na indústria pornô, como ele esclarece, entre outros aspectos, na entrevista original em inglês. Esta, não sensacionalista. No fim, a indústria pornô é um negócio. Precisa de dinheiro para sobreviver e pagar seus funcionários, e, se há a demanda, precisa atendê-la.

É até curiosa a diferença de tratamento quando se fala dos públicos e das indústrias, porque, ao contrário da indústria pornô gay, a hétero sempre se manteve, majoritariamente, antipreservativo. Ninguém nunca estranhou e nem a acusou de “ensinar” nada aos héteros. Héteros sempre souberam fazer sexo sem camisinha. Gays precisam ser estimulados? Insustentável.

Isso porque não é algo que se “ensina”, afinal. É algo que parte do desejo erótico, a que mencionei mais atrás, e que se realiza, na fantasia, quando a pessoa assiste a um filme pornô. Quando muito, o filme apenas mostra o “como”, pode até apresentar algo que a pessoa não sabia que existe, como uma dupla penetração anal, mas nunca responde e muito menos ensina o “porquê”, uma tarefa que caberia mais corretamente aos psicólogos que aos diretores de filmes.

De tudo isso, a única verdadeira e objetiva preocupação no que diz respeito à indústria em si é com a exposição dos modelos e atores ao risco. Afinal, são profissionais que merecem ser respeitados e para quem devem ser adotadas todas as estratégias de segurança possíveis dentro do que se propuseram a fazer. Nesse sentido, cabe verificar, sim, junto à indústria, se todas essas estratégias vêm sendo empregadas. Se não com o uso da camisinha, então, com as demais para que a redução seja obtida ao mínimo no set de filmagem – e, segundo Michael Lucas, a Lucas Entertainment as tem adotado, da realização de exames de última geração com pouco tempo de janela diagnóstica e, novamente, à PrEP.

Se, desse ponto de vista, inclusive em termos legais, uma empresa estiver adotando o máximo possível para não comprometer a segurança de atrizes e atores, então, não cabe a proibição de filmes sem camisinha calcando-se no questionável argumento de que ela está “ensinando” ou “estimulando” algo a alguém, diante do discutido mais atrás. 

Caberia, talvez, a aprovação de leis que determinassem, com mais rigor, as responsabilidades que cabem às companhias e aos profissionais, mas a questão é: numa sociedade de “dupla personalidade”, como a nossa, em que o sexo aparece até em comercial infantil, mas um jogador croata nu é visto com ojeriza; em que o sexo eventual não é mais visto como problema, mas a prostituição permanece condenada e à margem de leis que garantam os direitos de prostitutos e prostitutas, quem estaria disposto a discutir politicamente a regulamentação do segmento pornô em termos democráticos?

Essas são as questões importantes que Michael Lucas nos trouxe, inclusive pelo próprio ter assumido abster-se do preservativo em seu relacionamento pessoal com o namorado soropositivo.

Como aconselhar os jovens, hoje o segmento com mais crescimento no número de novos casos, em um novo cenário em que a ciência indica a redução da transmissão com carga indetectável; em que há a PEP (profilaxia pós-exposição), em que há (no exterior) a PrEP, em que as exigências eróticas dos fluidos se fazem mais presentes, a ponto de impactar toda uma indústria que, sem atendê-las em termos de fantasia, pode naufragar? Como regulamentar os mercados que envolvem sexo e sexualidadades, da prostituição ao turismo sexual – sim, porque, quando envolve duas pessoas adultas, conscientes e não exploradas, é válido quanto qualquer outro –, dos shows eróticos à indústria pornô? Sem medo, sem falsos moralismos, sem homofobias parciais? Sem falsos argumentos, como aquele que diz que as “pessoas usam menos preservativo hoje porque não viram a devastação da aids nos anos 80”, quando pessoas que viram esta devastação TAMBÉM estão usando menos, como os idosos, outro grupo em que o crescimento é galopante?

Tudo isso vai muito além do simples “use camisinha” que vemos, se muito, apenas durante o Carnaval.

E por que eu prefiro não chamar os filmes de “bareback”? Porque existem dois significados dados pela expressão.

O “barebacking”, quando surgiu, ganhou caras de “movimento”, no sentido social, não político da palavra, com a clara opção pelo prazer e abstração dos riscos conjugados.

O barebacker era, então, a pessoa que optava pelo prazer e, não raro, pelo fetiche pelo sêmen. Ainda hoje, em muitas comunidades barebackers, e sei disso porque as pesquisei para uma reportagem, o fetiche pelo sêmen salta aos olhos, como nas expressões “leitar” e “ser leitado”.

Assim, a questão da aids e das outras DSTs era minorada ou desimportante, seja como consequência da prática, a ser resolvida posteriormente, seja como um não assunto: o verdadeiro barebacker, então, não questionava a sorologia ou status de seus parceiros, ou, se eventualmente os soubesse, não era um assunto que desembocaria numa estratégia de redução de danos a priori: havia a primazia do prazer.

Dessa forma, o prazer e o fetiche sublimavam esse lado da equação, e parte dos praticantes, inclusive, se descolou e se caracterizou com a prática do bugchasing, em que o HIV era elevado a um status quase erótico, ou erótico, e havia o desejo, a intenção, de adquiri-lo, até mesmo como uma forma de liberação para o prazer – adquirindo-o e “enfrentando o bicho-papão”, posso abstrair o assunto e me engajar sexualmente com mais conforto.

Foi apenas posteriormente que, no sentido lato sensu, “barebacking” se propagou como gíria, para se referir a qualquer ato sexual sem camisinha, especialmente o anal e especialmente o gay.

É aí que fica o meu desconforto, porque esse uso fatalmente guarda um quê de homofobia reflexa, pelo menos no Brasil. Isso porque, afastados dos grandes centros que estamos, a proposta bareback não foi totalmente compreendida e foi muito mal-recebida em terras tupiniquins, até por desafiar o status quo do preservativo.

Assim, dizer que alguém é “barebacker” ou pratica o “barebacking” traz, inegavelmente e na maior parte das vezes, uma carga semântica negativa, em que se lê, nas entrelinhas, uma condenação tácita a seu comportamento.

Por que eu menciono, então, uma homofobia reflexa? Porque o termo nunca é aplicado a heterossexuais. O hétero que transa sem camisinha é normal. O gay que transa sem camisinha é “barebacker” – e nisso se manifesta uma condenação, a priori, do segundo em favor do primeiro, sem qualquer consideração sobre COMO esses sexos sem preservativo são praticados: mesmo que o hétero o pratique em múltiplas parcerias, e o gay apenas no interior de um relacionamento estável em que a sorologia de ambos os parceiros é conhecida. É a mesma diferença de tratamento do infectologista que acha “lindo” formar uma nova família, mesmo que a camisinha jamais se apresente na relação hétero nem depois de a criança estar na faculdade, mas diz que o casal gay é “louco”.

Por isso, em todos os meus textos, e talvez eu seja minoria atualmente, “bareback”, “barebacking” e “barebacker” são sempre usados no sentido que considero original: o da prática do sexo sem preservativo em que a primazia do prazer e do fetiche – sobretudo, o pelo sêmen – se impõe e leva à abstração do que o restante da sociedade chama de “riscos”, já que o barebacker, ele-mesmo, não os percebe dessa forma.

Ora, desse ponto de vista, um casal por exemplo, que adota estratégias em que esse risco é assumido – e, não, abstraído – e propõe a si mesmo uma série de estratégias para minimizá-lo, ou uma indústria que faz o mesmo com seus atores e atrizes, não são barebackers. São pessoas que fazem filme ou sexo sem camisinha e adotam essas estratégias que enfatizam que o HIV não é uma abstração (como no barebacking) ou uma intenção (como no bugchasing), mas uma preocupação.

* João Marinho é ativista, jornalista diplomado pela PUC-SP e hoje atua como editor-chefe em veículos de conteúdo adulto, revisor e designer free-lancer.

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