Mensagem à ministra: “Quem definirá o que cada um será é a própria pessoa”

À Excelentíssima Sra. Ministra Damares Regina Alves

Venho, por meio desta, explicitar meu profundo lamento frente a vossa postura e fala que estão materializadas nos canais de comunicação e que copio aqui nesta mensagem (https://oglobo.globo.com/sociedade/menino-veste-azul-menina-veste-rosa-diz-damares-alves-em-video-23343024). Ao tratar da sexualidade humana, Vossa Excelência saltita e grita, em postura descabida, falando sobre cores de vestimentas e papeis a serem desempenhados por crianças.

http://www.huffpostbrasil.com/salomao-cunha-lima/o-ativismo-lgbt-comeca-na-palma-das-maos_a_22108417/

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Infelizmente, ou a senhora não sabe nada do desenvolvimento humano e das questões de gênero ou a sua égide ideológico-religiosa lhe cega. Isso é grave, visto que, as suas funções de Ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos impossibilitam tais posturas, tais falas e tais posicionamentos. Esse agir é incongruente com o seu papel.

Essa nova pasta, que foi criada pelo atual governo, vincula nela os Direitos Humanos que, inoportunamente, recebem deboches e desdéns de muitos dos seus correligionários e de vários da bancada do atual governo. Assusta-me perceber que Vossa Excelência também debocha deles. A sua função é justamente defender esses direitos e qualquer cidadão. Independente de vestir “azul” ou “rosa” e de ser “príncipe” ou “princesa”, ele/ela precisa dessa proteção de forma igualitária. Vossa Excelência se perde e acaba sendo desnuda com tais devaneios. A referência às cores (azul e rosa) e aos títulos (príncipe e princesa) reduz as demandas de gênero a um maniqueísmo tosco, tolo e perverso.

Entenda uma coisa Excelência – não é a senhora, não sou eu e nem será ninguém os responsáveis por definir a sexualidade de alguém. Quando a senhora afirma que agora menino e menina “veste isso ou aquilo” e que serão “isso ou aquilo outro”, Vossa Excelência traz para si uma presunção arrogante de controle. Não Excelência! Quem definirá o que cada um será é a própria pessoa. E quer saber, ele e ela poderão ser o que quiserem. É direito de cada um ter o arbítrio de escolher. É direito de cada um o ato de ser feliz. É direito de cada um ser o que é. Ele e ela vestirão a cor que desejarem. As suas identidades de gênero são escolhas somente deles e tais escolhas não são formatadas e modificadas por rompantes externos. Desse modo, não há cura para aquilo que não é doença.

Então, Excelentíssima Ministra deixo aqui o meu repúdio. Quero acreditar que tal postura não paire no seu consciente, mas sim que venha por impulsos inconscientes não analisados, pois, se assim for, será menos grave. Todavia, a despeito do motivador mental da senhora, quero registar que tal postura é perversa. Já que a senhora faz analogias com cores, eu terminarei essa carta com um trecho de uma bela música, intitulada alma não tem cor, que foi cantada por vários artistas brasileiros. Portanto, Alma não tem cor. Por que eu sou branco? Alma não tem cor. Por que eu sou negro? Entenda Excelentíssima Sra. Ministra Damares Alves que nós somos multicolor, pois o amor não tem cor específica, sobretudo em se tratando de gênero.

Régis Eric Maia Barros
Médico Psiquiatra
Mestre e Doutor em Saúde Mental pela FMRP- USP

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