“Macho, discreto e fora do meio”: o preconceito dentro do armário

Em um mundo inundado de smartphones e marcado pelo amplo acesso a novas tecnologias, notam-se mudanças profundas nos modos de vivência da sexualidade e dos afetos.

Renan Quinalha*
Publicado pela Revista Cult, em dezembro de 2016.

http://revistacult.uol.com.br/home/2016/12/macho-discreto-e-fora-do-meio-o-preconceito-dentro-do-armario/

21ª Parada do Orgulho LGBT na praia de Copacabana,
no Rio de Janeiro (Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil)

Para o bem e para o mal, a depender da perspectiva, aquele amor romântico da geração dos nossos avós entrou em extinção. Relações monogâmicas e exclusivas vão dando lugar a relacionamentos abertos ou poliamorosos. Aplicativos possibilitam encontros para todos os tipos de finalidades de modo cada vez mais objetivo e direto. A intensidade das interações parece perder em profundidade para ganhar em amplitude, com trocas cada vez mais fortuitas e menos duradouras.

Até aí, ninguém deveria ter saudade mesmo do amor romântico dos avós, quando a liberdade individual e a escolha pessoal eram suprimidas por convivências familiares ou imposições externas das quais era impossível de escapar, com uniões que deveriam durar eternamente.

No caso dos homossexuais, proliferaram os aplicativos de pegação, substituindo, em grande escala, as outras formas mais tradicionais de sociabilidade e de interação dentro dessa comunidade. E uma das figuras mais frequentes nas telas dos celulares navegando por essa modalidade de aplicativos é o famoso tipo “macho, discreto e fora do meio”.

Diversas razões estruturais ainda dificultam que as pessoas homossexuais vivam com naturalidade sua orientação sexual. A reprovação da família, a dificuldade no trabalho, o preconceito dos amigos, o bullying nas escolas, a representação caricata na televisão, enfim, uma série de instrumentos de que se vale uma sociedade machista e homofóbica para restringir as possibilidades de vivência mais plena da sexualidade e do desejo.

Assim, fazer uma crítica a esse tipo “macho, discreto e fora do meio” não tem o objetivo de querer tirar todo mundo do armário. Assumir-se, sem dúvida, é um dos atos políticos mais importantes para uma pessoa homossexual. Isso facilita a auto-aceitação e o respeito dos que estão à sua volta. Mas cada um tem um tempo e um processo próprio. Essa trajetória de cada subjetividade precisa ser lida em seu contexto e há que se ter tolerância para esse diálogo, pois a culpa geralmente é da pessoa, mas das estruturas que a oprimem.

O que não se justifica, em hipótese alguma, é a propagação de preconceitos por trás de enunciados machistas e homofóbicos. É fato que os aplicativos de pegação não inventaram os preconceitos, mas eles potencializaram e expuseram de modo mais escancarado essa dimensão tão preconceituosa no interior do universo gay.

O confinamento do sexo furtivo, sigiloso, discreto e fora do meio não foi uma escolha, mas uma imposição de uma sociedade que não aceitava a homossexualidade e não tolerava a vivência pública de outras formas de desejo e de afeto que não fossem aquelas reconhecidas pela heteronormatividade.

O que era “normal” para os gays nessa época eram as saunas, os banheiros públicos, a escuridão de becos e parques, enfim, os lugares em que eram isolados a uma distância segura e sob vigilância de uma sociedade que não os acolhia e que não permitia sua circulação em espaços mais tradicionais. Assim, não há do que se orgulhar dessa condição histórica de isolamento, felizmente cada vez menos presente, ainda que persistente.

É verdade também que os homossexuais não viveram apenas passivamente essa condição que lhes foi imposta; antes, eles ressignificaram o gueto como espaço da sociabilidade gay, das trocas e aprendizados mútuos, da realização do desejo e dos fetiches, da transgressão das cercas impostas. Enfim, transformaram essas “prisões” em um lócus de construção de identidade, de reinvenção do corpo e de solidariedade de grupo. Foi essa união que permitiu, em última instância, romper os muros dos gueto e a ocupação de espaços outrora interditados para os que desejavam pessoas do mesmo sexo.

Não foram os “machos, discretos e fora do meio” que, do aparente conforto de suas vidas duplas e clandestinas, conquistaram os direitos que nos beneficiam hoje. Foram as bichas, as afeminadas, os viados, as travestis, as pintosas que se expuseram, sofrendo mais duramente o peso da discriminação, mas abrindo mais espaço para nossa cidadania ainda incompleta.

Você não precisa ser ou agir como elas e eles. Mas você tem o dever de desconstruir os preconceitos que você dirige contra essas pessoas, ainda que tenha dificuldade para desconstruir os preconceitos que dirige contra si mesmo. Sempre lembrando, contudo, que os direitos dos homossexuais não foram encontrados dentro de um armário ou na escuridão de um gueto.

E, se hoje estamos aqui, com possibilidade de casar, adotar filhos, andar de mãos dadas nas ruas, irmos a baladas e outros espaços de sociabilidade LGBT à luz do dia, é porque essas pessoas tiveram a coragem e a ousadia de romper com os lugares que lhes eram impostos. Elas não aceitaram os limites do preconceito.

Portanto, fazer hoje essa escolha por reproduzir preconceitos como se fossem apenas “gosto” é reforçar a estigmatização que a sociedade patriarcal, machista e homofóbica impunha às gerações que nos antecederam. Em outras palavras, é introjetar a violência simbólica do macho, discreto e fora do meio, que precisa esconder sua sexualidade porque não a aceita com naturalidade.

Gosto também pode ser preconceito. E muitas vezes é exatamente isso de que se trata. Os gostos são construídos socialmente, não são dados de um desejo natural, biológico cuja origem seria insondável na alma humana. Não é por acaso que você diz não gostar de homossexuais afeminados, pouco discretos e que vivem “no meio”. Você não nasceu com essa opinião, mas foi educado pelos valores machistas e homofóbicos na sua sociabilidade a discriminar essas pessoas.

É certo que ninguém vai te obrigar a sentir tesão do mesmo modo que todos os outros sentem. Cada um tem seus fetiches e fantasias sexuais e não cabe a ninguém fiscalizar o desejo alheio. No entanto, é pertinente e necessário sim problematizar as normas, os valores e instituições que conformam nossos gostos, questionando sempre e até que ponto estamos reproduzindo papeis que deveríamos desconstruir.

Mesmo sendo “macho, discreto e fora do meio”, você pode e deve se aceitar. Mais do que apenas reproduzir a postura dos que não te aceitam, você deve é lutar para que aceitem. E, para isso, é preciso cara no sol, empatia com seus pares e celebração da memória dos que lutaram para chegarmos até aqui, sem reproduzir os valores machistas e homofóbicos que também te afetam.

* Renan Quinalha é advogado e militante de direitos humanos, com formação em Direito e em Ciências Sociais na Universidade de São Paulo (USP), onde defendeu o Mestrado em Sociologia do Direito e, atualmente, cursa o Doutorado em Relações Internacionais. É membro da diretoria do Grupo de Estudos sobre Internacionalização do Direito e Justiça de Transição (IDEJUST), do Conselho ²de Orientação Cultura do Memorial da Resistência e foi assessor da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo “Rubens Paiva”. Publicou o livro intitulado “Justiça de Transição: contornos do conceito” (Dobra/Expressão Popular, 2013) e, junto com James Green, organizou o livro “Ditadura e Homossexualidades” (EdUFSCar, 2014).

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