“Logo vi que ali dentro a homossexualidade não era um tabu”, diz Ney Matogrosso sobre período na Aeronáutica

Capa da edição de dezembro da Rolling Stone Brasil, cantor revela a importância da energia sexual em sua arte

Da redação da revista Rolling Stones, em dezembro de 2013

neymatogrossoSexo é o que movimenta a arte de Ney Matogrosso. Talvez por isso ele pouco envelheça. Completou 72 anos em 1º de agosto, mas esse número não diz coisa alguma a respeito da aparência física dele: Ney está bonito, elástico e jovem como era há 20 ou 30 anos. A idade também diz menos ainda sobre as ideias que lhe vêm à cabeça, que ele explana na longa entrevista de capa da edição de dezembro da Rolling Stone Brasil, nas bancas a partir desta sexta, 13.

Sexo. Talvez venham também dessa fonte as analogias que se costumam fazer entre o trabalho de Ney e os de ícones internacionais como David Bowie e Mick Jagger – artistas tão imortais quanto ultrassexuais. Os mesmos caminhos o levam às afinidades com Caetano Veloso, outro símbolo da liberação sexual no Brasil desde os anos 1960.

2013 marca os 40 anos da estreia fonográfica de Ney Matogrosso: foi em 1973, com o primeiro álbum do Secos e Molhados, grupo do qual participou por poucos anos. No mês passado, Ney lançou Atento aos Sinais, primeiro álbum de estúdio desde 2009. O repertório intercala canções de veteranos, como Paulinho da Viola e Itamar Assumpção, ao de novatos, como Dani Black e Criolo. Como já é seu costume, o cantor testou as músicas ao vivo antes de entrar em estúdio para registrá-las. Em cena elas crescem, pois o palco é o lugar de Ney Matogrosso.

Na conversa com o repórter Marcus Preto, Ney revela o quanto a energia sexual é importante para sua arte – ele inclusive conta que nunca teve um orgasmo no palco, mas já chegou perto. “Tem um fenômeno que acontece comigo. Depois de certa altura, tive que botar uma coisa pra me proteger. Porque eu ficava tão excitado que minha calça ficava molhada”, diz.

Veja abaixo alguns trechos da entrevista. Você lê muito mais na edição 87 da Rolling Stone Brasil.

Você saiu de Mato Grosso para Brasília? 

Não, eu saí de Mato Grosso com 3 anos. Morei em Recife, em São Paulo e no Rio de Janeiro. Aqui fiquei dos 6 aos 13. Com 13, meu pai foi transferido no trabalho e voltamos para Mato Grosso. Com 17, vim servir no Rio e nunca mais voltei.

A Aeronáutica foi a sua carta de alforria? 

Sim, era um pretexto que usei para sair de casa.

Você não devia ter grande vocação para recruta, tinha? 

Não, mas foi bom. Foi uma experiência interessante. De repente, caí no meio de 40 homens da minha idade. E, entendendo que nada me era dado, os espaços de todo mundo tinham que ser conquistados. Parecíamos um bando de bichos, um bando de adolescentes de 17 anos. Alguém respeita alguém? Então se tratava de impor limites. “Daqui não passa.” Saí na porrada com um camarada duas vezes. Rolamos pelo chão.

E a sexualidade aos 17 anos…

Ai, meu filho, isso tudo rolava lá. Muita coisa louca. Éramos 40 e tínhamos que tomar banho de 20 em 20. Foi meu primeiro susto: eu não era acostumado com isso. Mas logo entendi que, se não tirasse a roupa e entrasse logo no banho com eles, aí sim ia ter um problema. Porque vi que era todo mundo bicho. E hormônios latejando, né? Éramos os 40 recrutas dentro de um quartel onde existiam mais de 500 homens. Aí, começaram a acontecer coisas.

Que coisas? 

De acordar de noite e alguém pegando em mim. Acordar no escuro e ver um vulto sair correndo. Ou acordar com porra de gente em cima. Gente que se masturbava na escuridão. Logo vi que ali dentro esse assunto não era um tabu. Ele era digerido, sabe? Comecei a entender que aquilo não era um bicho de sete cabeças.

Relações sexuais entre homens. 

Sim. Eu tinha como referência esse bicho de sete cabeças, mas vi muito acontecer lá dentro. Vi dois remadores desta largura se beijando. Dei um flagrante. E não era imitação de mulher – eram dois homens másculos. Contei isso pra Hebe [Camargo] e ela me disse que não podiam ser másculos. Eram sim, Hebe. Você está enganada. Ou você não está bem informada. Não tem nada a ver uma coisa com a outra. Eu vi isso. E foi uma revolução na minha cabeça. O negócio era muito para lá do que eu imaginava. E isso me deu certa tranquilidade com o assunto. Porque essa coisa já passava por mim. Não admitia, mas já passava.

Você já era tão sexual aos 17 anos? 

Não era. Mas as pessoas viam alguma coisa nesse sentido em mim que eu não sabia. No quartel, falavam umas coisas pra mim que eu não entendia direito. Falavam de pele e eu dizia: “Pele, mas que pele? Que conversa é essa?” Eles eram ultrassexuais. O fato de eu ter visto isso me acalmou com relação ao assunto, mas eu não queria realizar isso com qualquer um. Tinha uma coisa na minha cabeça, um ideal romântico. Eu poderia ter realizado, mas queria que tivesse sentimento envolvido.

Até o período dos Secos & Molhados, em 1973, você transava homem e mulher, certo? 

Não, até depois. Muito pouco depois. Só que era assim: homem e mulher junto. Eu tinha um namorado e tinha uma namorada. Ficávamos os três juntos.

Parece bem divertido. 

Era, era. Mas sabe o que é? As pessoas colocam um tabu em uma coisa que é divertida e é agradável, sabe? Não existia essa questão. A primeira vez que trepei na minha vida foi com mulher. Eu tinha 13 anos. Lá em Mato Grosso, na fazenda do meu avô.

E a relação com Cazuza, foi no final dos 70?

Sim, foi em 1979 que a gente transou e que a gente namorou. Muito antes de ele ser cantor, de ser tudo. Ele era apenas filho do João Araújo.

A imagem que tenho de Cazuza é a de uma pessoa agressiva. 

Mas ele não era isso na intimidade, sozinho, careta. Aquilo era loucura. O álcool o deixava daquele jeito. Mas ele não era assim. Eu fiquei louco de amor, perdido, apaixonado. Quando ele saía de perto de mim, olha que loucura, eu ficava mentalizando na minha cabeça para ele vir, para ele vir. Sabe? Muito doido. Eu saía com ele para os cantos assim, né? E as pessoas me diziam: “Ney, eu nunca te vi assim”. Eu respondia: “Mas eu nunca estive assim, mesmo”.

E ele ficou também apaixonado? 

Também. Foi uma coisa. Foi assim intenso por três meses. Mas a loucura foi maior.

A loucura dele? Foi isso que separou vocês? 

Foi a loucura. A loucura dele. Ele ficou três dias desaparecido. Quando apareceu na minha casa, veio com um traficante. Cazuza estava imundo, sujo, fedido. Briguei: “Você traz um traficante pra minha casa? Não quero ver você sujo, fedendo. Não quero ter um traficante na minha casa”. Ele me chamou de careta. A gente teve uma discussão. Expulsei-o, ele cuspiu em mim e eu meti porrada na cara dele.

Nesse dia, ele virou o estereótipo do Cazuza que as pessoas conhecem. 

Nesse dia. Porque já estava cheirado, enlouquecido. Já andava com o traficante do lado. Mas, uma semana depois, a gente já estava entrando de mãos dadas dentro do restaurante.

Você continua lendo esta entrevista na edição 87 da Rolling Stone Brasil.

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