LGBTs não vão bem na política brasileira porque não “votam unidos”? A meu ver, não é bem assim…

Por Joao Marinho

eleicoesVeja, minha posição, penso, divergirá da maioria dos colegas.

Em primeiro lugar, eu considero que, só numa utopia, LGBTs votarão sempre unidos. Isso porque, além de LGBTs, existem outros interesses que guiam um voto, como a predileção pela esquerda ou pela direita, a concordância ou discordância sobre o tamanho do Estado e até sobre a gestão da saúde.

Se vale um consolo, também considero equivocada a análise de que os fundamentalistas votam unidos. Não, eles não votam. No caso dos fundamentalistas, até a interpretação da Bíblia ou a igreja a que se filia um político induz ou faz desviar a intenção de votar em alguém.

Então, como se explica o sucesso dos fundamentalistas no Legislativo?

Uma maior e melhor articulação política.

Em primeiro lugar, a maior articulação política ocorre por uma questão de envolvimento político-partidário, de um lado, e pela oferta de candidatos, de outro.

Os fundamentalistas têm bons candidatos, que sabem cativar o público, executam um trabalho de longo prazo em suas bases ANTES de saírem candidatos e que conseguem falar e personificar os valores que sua base defende.

Entre a militância LGBT, a ideia corrente é que “gay não vota em gay”. Eu particularmente, minha opinião, nunca considerei isso verdade. Se fosse por isso, o prefeito de Lins, Edgar de Souza (PSDB), em São Paulo, gay assumido, não tinha sido eleito – e Jean Wyllys (PSOL-RJ) não tinha recebido nenhum voto, ainda que tenha entrado puxado por um candidato mais votado – e, parte desses votos, podemos assumir, veio de LGBTs.

Eu digo que não é verdade que “gay não vota em gay”. Gay, como qualquer outro cidadão, não vota é em quem não conhece – e aí começa um grande problema para nós outros. Nossa militância, historicamente, tem uma tradição, na minha avaliação, de pouca comunicação com o que deveria ser sua base eleitoral.

Poucos gays não militantes – e LGBTs não militantes são maioria – conhecem quadros de nossa militância. Não sabem o que eles fazem, não sabem como agem, não sabem que benfeitorias trouxeram. “Nunca os viram mais gordos”, como dizem no popular. Aí, o militante vai lá, se candidata, diz que é gay ou lésbica ou trans e é claro que isso por si só não vai convencer um LGBT a votar nele.

Vai contra nós também o fato de que nossa militância, sejamos sinceros, passa boa parte do tempo envolvida em picuinhas. Isso se traduz na hora de alguém sagrar-se um candidato, porque, em vez de haver uma união da militância em torno daquele quadro para dar-lhe visibilidade, rola uma puxada de tapete danada – e NÃO RARO por causa de questões partidárias, que, erroneamente se sobrepõem à questão LGBT (falarei disso mais tarde). Então, se for verdade que LGBTs não elegem representantes porque são desunidos, isso é muito mais um pecado da militância que do público eleitor, na minha opinião.

Já os fundamentalistas não saem da mídia. Todo mundo sabe quem é Silas Malafaia e Marco Feliciano. Todos sabem quem é Magno Malta. Todos sabem o que eles defendem, e eles trabalham com sua base eleitoral o tempo todo, tornam-se visíveis, e não apenas na época de eleição. LGBTs não fazem isso. Se você sair por São Paulo, duvido que encontre algum, na Vieira, que saiba ao menos o nome do presidente da Parada, a maior do Brasil.

Segundo ponto, e aí concerne a todos nós. Fundamentalistas não votam unidos, mas têm maior consciência – ao menos, a elite que domina o rebanho – política. Então, já desde há muito tempo, têm entrado em massa nos partidos. De maneira que, se um fundamentalista votante não quiser votar em X, Y estará ali, num outro partido e com outra bandeira, pronto para receber seu voto – e são todos conhecidos, famosos, ilustres representantes de segmentos religiosos, ao contrário dos LGBTs.

O resultado, portanto, é que com mais oferta e com mais ofertas BOAS de candidatos, fundamentalistas elegem mais representantes, que estão literalmente contaminando todas as siglas.

Em segundo lugar, vem a questão da melhor articulação política. No Legislativo, os fundamentalistas não são maioria. Defendem X e Y bandeiras, mas são flexíveis e espertos o suficiente para se unirem em torno de interesses comuns com outros que, às vezes, professam religiões e ideologias que eles odeiam. Isso, no Legislativo, amplia seu poder – e é o que os torna tão “irresistíveis” aos políticos de fora.

Você já foi evangélico? Se não foi, saiba que os evangélicos são muito críticos à Igreja Católica. Mesmo os mais letrados veem a igreja de Roma como a “prostituta da Babilônia”, idólatra e apóstata. Os fundamentalistas a odeiam – e isso é ensinado nos templos. Eu aprendi, na Igreja Batista, esses adjetivos. Espíritas? Falam com demônios. Ponto.

No entanto, na hora de se unirem contra a criminalização da homofobia e contra o aborto de fetos anencéfalos, essas diferenças são postas de lado em torno de um objetivo comum, e assim ganha-se força. Boa parte da força dos fundamentalistas evangélicos vem de se unir com outros setores conservadores da sociedade e das casas legislativas, notadamente católicos e espíritas, e saber costurar alianças em torno desses objetivos comuns. Quando o objetivo não é comum, aí eles criticam, por exemplo, o acordo Brasil – Vaticano.

E nós, LGBTs, fazemos isso?

Em países como os Estados Unidos, sim. Em países como o Brasil, não.

Infelizmente, aqui, as questões ideológicas não LGBTs se sobrepõem às LGBTs, e não há, costumeiramente, uma confluência de forças em torno de um nome ou de objetivos comuns. É a questão partidária que se sobrepõe à LGBT, como disse mais acima.

Os fundamentalistas não são um bloco monolítico. De uma igreja para outra, quem, como eu, já viveu no meio deles, sabe que há diferenças profundas.

Pentecostais e protestantes históricos sequer concordam sobre os dons do Espírito Santo, e se acusam, mutuamente, de serem heréticos. No entanto, na hora de defender o que consideram uma “bandeira cristã” convergente, deixam essas querelas para depois e se unem. No momento adequado, voltam a lutar pelas suas diferenças, cada qual em seu campo.

Nós não agimos assim.

Deixamos que o que o PT diz sobre saúde, economia, Estado, etc. se sobreponha à questão LGBT. Deixamos que o que o PSDB diz sobre privatização, economia de mercado, acordos internacionais sobre sobreponha à questão LGBT.

Assim, nas casas legislativas, permanecemos divididos, e rola aquela “puxada de tapete” a que me referi mais acima. São poucos os quadros LGBTs militantes que tenho visto ter a flexibilidade política de um fundamentalista (e eles são os fundamentalistas, vejam só!).

O correto seria educar a nossa própria militância para mudar as coisas. As diferenças entre PT, PSDB, PSOL, etc. são louváveis e devem existir. LGBTs vão votar separadamente, mas, na hora em que estiver em pauta o que for de interesse LGBT, por favor, devem esquecer o que diz o partido e dar apoio até àquela pessoa que é do partido inimigo por empunhar a mesma bandeira. Depois de resolvido isso, nos preocupamos com o que for menos importante. Sim, para mim, a questão LGBT tem de estar politicamente acima das outras, para termos força.

Isso acontece em outros países? Sim. Com efeito, muitos gays REPUBLICANOS, vimos durante a campanha, decidiram apoiar OBAMA, democrata, por estarem decepcionados com as declarações de seus candidatos.

Na hora de aprovar o Obamacare, essas diferenças vêm à tona… Mas vamos eleger o Obama agora, porque, mesmo ele sendo dos “sujos democratas”, ele defende os LGBTs – e, antes de republicanos, somos gays.

Cadê nossa flexibilidade brasileira nesse sentido? O que tenho visto é LGBT petista, por exemplo, chamando Dilma de “amiga” quando ela claramente não é. Eu, se fosse LGBT petista, apoiaria até o Diabo contra Dilma, se o Diabo fosse menos homofóbico, e CONTRA a resolução de meu partido, como qualquer fundamentalista faz, com sucesso.

Então, para mim, a questão passa por outras soluções:

– Estimular a consciência política dos LGBTs votantes, que de fato é baixa: e temos um momento histórico importante com isso, com LGBTs não militantes boicotando marcas e nervosos com Marco Feliciano, e estamos deixando passar;

– Construir candidaturas a longo prazo. Antes de um LGBT sair candidato, ele tem de ser conhecido e as pessoas têm de saber o que ele fez (e não só no Congresso. Antes de chegarem lá, Malta e Feliciano eram conhecidos como pastores já). Acredito que Jean Wyllys será um bom termômetro nesse sentido, para ver se tenho razão.

– Saber colocar, sempre, a questão LGBT acima do conteúdo programático dos partidos. Sim, seguimos o conteúdo programático. O partido pisou na bola? Damos prioridade ao que é LGBT antes de qualquer coisa. Como os fundamentalistas fazem (e eles lidam com algo ainda mais profundo que ideologia partidária: religião. Não entendo nosso problema de fazer o mesmo).

– Saber construir e costurar com outros setores alianças mais amplas e mais estáveis e, principalmente, que tenham retorno. Uma mão lava a outra, é assim que tem de ser.

Bom, essas são minhas opiniões. Se formos esperar para os LGBTs votarem sempre “unidos” em torno de uma coisa só, vamos só esperar e nunca vamos chegar lá. Porque não é o que vi funcionar em nenhum lugar no mundo.

Nem para os fundamentalistas.

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1 Response

  1. Falta curso político, falta acesso aos bens públicos, falta sair dessa situação de massa de manobra.
    Falta informação, mas acima disso tudo falta respeito a quem luta pela causa, empoderar e visibilizar quem vos defende.

    Falta entender que aqui no Brasil a política decide o valor do pão na mesa, falta entender que o avanço, autoafirmação da sexualidade garante um alívio não mensurável.

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