Jornal A Tarde faz série de reportagens sobre vida de travestis; confira

Travestis pagam R$ 50 a cafetinas para ‘trabalhar’ na rua

Travestis l  – A difícil rotina dos que sobrevivem da prostituição

Andrezza Moura e Euzeni Daltro
Publicado pelo jornal A Tarde em 25 de novembro de 2015

Sabrina, que tem 18 anos, é de Aracaju (SE) e faz programas na orla da Pituba (Foto: Joá Souza l Ag. A TARDE)

A prostituição das travestis vai muito além do livre arbítrio de fazer o que quiser com o próprio corpo. Descer para a pista, em Salvador, está condicionado ao pagamento de R$ 50 por semana às cafetinas ou às pessoas designadas por elas para fazerem a cobrança. Quem não paga está passível de sofrer represálias.

A reportagem percorreu oito áreas de prostituição de travestis localizadas na orla, no centro e na Cidade Baixa durante a noite e a madrugada dos dias 2, 3 e 4 de outubro. E constatou um estruturado esquema de “cafetinagem” em sete dessas áreas. São elas: Avenida 7 de Setembro, Avenida Barros Reis, Dois Leões, Itapuã, Piatã, Pituba e Sete Portas. Entre as áreas percorridas pelos jornalistas, apenas no Largo de Roma não existe cafetina, conforme depoimentos das travestis que atuam nesse ponto.

Os relatos dão conta de que a cobrança por “pagar a rua” existe em todo o país e geralmente é feita às travestis que vêm de outras cidades ou estados. Daí o nome “pagar a rua”.

Travesti negocia com cliente no bairro da Pituba (Foto: Joá Souza l Ag. A TARDE)

As cobranças são feitas sempre na sexta-feira e, geralmente, são realizadas por outras travestis, prostitutas ou ex-prostitutas, acompanhadas por outras travestis e até mesmo homens que trabalham com elas. Mas quem controla o esquema não vai à rua cobrar.

“A cafetina vem, no carro, cobrar a pista acompanhada por mais cinco travestis. Se a travesti não tiver dinheiro para pagar, ela dá multa. Leva tudo que a pessoa tem. Se não tiver nada, descem as cinco [travestis do carro] para bater e até expulsar da pista”, contou uma travesti, que faz ponto na Pituba.

Na madrugada do dia 2 de outubro, uma sexta-feira, havia um carro preto com cinco travestis percorrendo as esquinas de prostituição na Pituba. E também uma travesti que percorria outros pontos a pé e, inclusive, conversou com a motorista do carro. Tanto esta última quanto a motorista do veículo vieram perguntar o que a reportagem estava fazendo.

“Eu já me prostituí, mas hoje faço um trabalho social com as travestis aqui na Pituba. Distribuo camisinhas e aconselho sobre sexo seguro e a importância de não se envolverem em brigas e crimes”, disse ela, ao mostrar uma sacola com dezenas de preservativos. A distribuição de camisinhas foi o mesmo argumento dado por uma suposta cafetina na Avenida Orlando Gomes, em Itapuã, no dia último dia 21. Ambas negaram a prática do crime.

Quem reside em casa de cafetina paga pela estada e não precisa pagar a rua. O pagamento também é semanal e varia de R$ 120 a R$ 150. “Quando a gente chega em um ponto, alguém vem logo perguntar ‘você é filha de quem? Está na casa de quem?’. Se for uma cafetina conhecida, ninguém mexe com você. Mas, se não for, corre o risco de pagar duas vezes. Paga na casa e paga aqui na rua”, contou a travesti Sabrina, 18 anos, que é natural de Aracaju (SE) e está na casa de uma cafetina na Praça Castro Alves, próximo ao cinema Glauber Rocha.

A travesti Ticiele, 21, diz que já foi agredida quando trabalhava na Pituba. Mas preferiu não entrar em detalhes. A agressão fez com que ela optasse por pagar a rua mesmo não sendo obrigada, pois é da cidade. “Eu cheguei nova. Pago a rua para as antigas não mexerem comigo, não ficarem pedido para eu pagar lanche e bebidas. Nada forçado, mas é um constrangimento. Para não acontecer dessas coisas, para não ser mexida por outras, eu pago a rua. Pago para ter segurança”, disse ela. Isso porque, se acontecer alguma coisa com as travestis na rua, as cafetinas tomam providências.

“O negócio da cafetina só é pagar. Se não pagar, elas viram monstro. O negócio é não ficar devendo a rua, não passar do dia. Se não pagar na sexta-feira e não respeitar o prazo que elas deram, ganha doce”, contou a travesti Adriquiele, 21, cujo ponto é no Largo de Roma. E doce pode ser uma agressão física, a exemplo de corte no corpo com estilete, ter os pertences roubados, ser alvo de fofoca ou até mesmo ser expulsa do ponto de prostituição.

Explorar prostituição é crime

Tirar proveito da prostituição alheia é crime previsto no Código Penal Brasileiro (CPB). A pena é reclusão de um a quatro anos e multa, para os casos em que o explorador participa diretamente dos lucros ou se sustenta, no todo ou em parte, por quem se prostitui.

Os delegados Adailton Adam, da 1ª DT (Barris), ACM Santos, da 12ª DT (Itapuã), e Nilton Tormes, da 16ª DT (Pituba), afirmaram ter conhecimento da prostituição nas áreas de responsabilidade das respectivas unidades policiais, mas afirmaram desconhecer a prática de “cafetinagem”.

“Vamos investigar”, afirmou ACM Santos. O mesmo foi dito pelo tenente-coronel Saulo Roberto, comandantes da 13ª CIPM (Pituba), pelo major Robson Pacheco, da 15ª CIPM (Itapuã), e pelo major Edmilton Reis, da 37ª CIPM (Liberdade).

Pontos de prostituição

Orla
Pituba: nos cruzamentos das ruas Maranhão, Pará e Espírito Santo com as avenidas Manoel Dias da Silva e Octávio Mangabeira.
Itapuã e Piatã: avenidas Dorival Caymmi e Octávio Mangabeira.

Centro
Avenida 7 de Setembro, próximo ao Relógio de São Pedro, Avenida Barros Reis, na ladeira de acesso ao bairro do IAPI, Dois Leões, e Sete Portas, nas proximidades da Ladeira Cônego Pereira.

Cidade Baixa
Largo de Roma, no cruzamento da Avenida Fernandes da Cunha com a Rua Frederico Lisboa. Esse foi o único trecho visitado pela reportagem em que não há atuação de cafetinas, conforme relatos das travestis.

Travestis vencem preconceito com profissionalismo

Travestis – A volta por cima das que disseram não à prostituição

Andrezza Moura e Euzeni Daltro
Publicado pelo jornal A Tarde, em 26 de novembro de 2015

Nickelly Nascimento (centro) trabalha com garçonete em um restaurante (Foto: Joá Souza | Ag. A TARDE)

Nickele Nascimento, de 31 anos, garçonete no restaurante Savanna Steakhouse, no bairro de Vilas do Atlântico, em Lauro de Freitas. Rosana Salvatore, 49, cabeleireira e artista performática. Além de travestis, as duas têm em comum o desejo de mostrar à sociedade que elas podem ser muito mais que corpos transformados nas esquinas das áreas de prostituição.

“Não vou dizer que nunca precisei, porque já fiz. Mas vi que isso não é para mim, que eu não nasci para me prostituir, mas para trabalhar, mostrar para que eu vim ao mundo.  Não vim só por vir. Vim para fazer a diferença. Gay tem que fazer a diferença”, afirma Nick.

Apesar de já ter dormido na rua e passado fome, Rosana nunca se prostituiu. “Nunca fiz vida. Eu não conseguiria me deitar com qualquer pessoa. O cheiro do outro é muito importante para mim. Acho humilhante alguém chegar para você e perguntar o preço”.

Para elas, a ausência de apoio da família, a falta de oportunidade no mercado de trabalho formal e a baixa remuneração são os principais motivos do ingresso das travestis na prostituição.

Nick conta que, por duas vezes, perdeu a vaga de emprego por ser travesti. Nos dois casos, ela conversou e marcou entrevista com os responsáveis por telefone. “Já estava tudo certo para eu começar a trabalhar. Mas quando viram que se tratava de uma travesti, rapidamente mudaram toda a história e me dispensaram”, lembra.

Nick é a primeira travesti a trabalhar no Savanna Steakhouse, em Vilas do Atlântico, e é apontada pelos donos e por clientes como uma das melhores funcionárias da casa.

Rosana ganhou o concurso de melhor dublagem em 1987 (Foto: Joá Souza Ag. A TARDE)

Um dos donos, o empresário Luiz Leão, 50, revelou ter ficado um pouco receoso, pois o restaurante está situado em um bairro de perfil conservador.

“As pessoas pensam que, por se tratar de uma travesti, vai se comportar de uma forma diferente. Mas não é isso que acontece. Nick é bem-educada, sabe atender, sabe se expressar. Só tenho elogios”, afirma Leão.

O profissionalismo da garçonete chama a atenção em situações inusitadas, como quando um cliente quis apertar os seios dela. “A todo o instante ela manteve uma postura profissional”, conta Leila Leão, dona e chefe do restaurante.

Uma vida de militância

Paulete Furacão, coordenadora do Núcleo LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais) da Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Desenvolvimento Social (SJDHDS), acredita que a falta de oportunidade profissional para as travestis é um problema cultural.

Paulete é a 1ª travesti a assumir um cargo da Sec. de Justiça (Foto: Joá Souza l Ag. A TARDE)

“Elas precisam se alimentar, são expulsas de casa, ficam à mercê da sociedade. Então não há uma perspectiva de vida. É o único mercado que, na verdade, consegue absorvê-las, e isso acaba sendo cultural no meio das travestis. O mercado profissional não as absorve”, afirma.

Ela foi convidada para assumir a pasta em 15 de março de 2012 e, desde então, desenvolve um trabalho de formação de políticas públicas para igualdade de gênero e combate à violência. Mas desde os 15 anos de idade, Paulete milita na causa LGBT com o intuito de dar visibilidade aos casos de discriminação e garantir inserção social desse grupo.

Preconceito leva a agressões e causa prejuízos

Travestis – Relatos de quem já foi ou é vítima de atitudes hostis

Andrezza Moura e Euzeni Daltro
Publicado pelo jornal A Tarde, em 28 de novembro de 2015

A atitude de colocar a primeira roupa de mulher, aos 12 anos, deu início a um processo de autoafirmação, mas também desencadeou uma série de agressões físicas e psicológicas por parte da família. Sobretudo da mãe, que não aceita o único filho como travesti e o colocou para fora de casa. Nicole tem 14 anos de idade e se prostitui desde os 12, quando foi expulsa da casa da família por assumir sua atração por homens.

“Aí meu avô passou a me agredir depois que soube que era travesti, que gostava de homem. Ele raspava minha cabeça, batia em minhas pernas com pau e me obrigava a jogar futebol”, contou. “Ele dizia que ter uma pessoa como eu na família era uma vergonha”, completou a adolescente.

Segundo ela, o avô mudou e passou até a defendê-la, após intervenção do Conselho Tutelar. E hoje é quem tenta convencer a mãe a aceitá-la dentro de casa. “Vim para a pista por ‘precisão’ porque, às vezes, não tinha nem o comer”, disse. Ela se prostitui no Largo de Roma e, vez ou outra, vai para outros pontos, a exemplo da Barros Reis.

Na semana passada, a reportagem soube por outras travestis que Nicole estava afastada das ruas porque havia sido agredida pela cafetina que “cobra a rua” [taxa semanal para as travestis poderem trabalhar na rua] na Barros Reis, Dois Leões e Sete Portas.

“Ela queria que Nicole colocasse R$ 20 de crédito no celular dela. Eu tomei as dores e bati boca com a cafetina, mas ela sacou um estilete e cortou a perna de Nicole. Foi um corte grande e feio”, contou uma travesti, sob anonimato.

Essa mesma cafetina ameaçou a reportagem na noite do dia 30 de outubro no trecho de acesso à ladeira do IAPI, na Barros Reis. “Se sair alguma coisa sobre mim no jornal, eu vou invadir a casa de vocês e matar todos os familiares”, gritava a suposta cafetina, enquanto tomava uma dose de conhaque puro.

Assim como Nicole, a travesti Marta Sá já sentiu na pele o que é a violência familiar. Hoje, aos 60 anos, ela vive um drama gerado pela intolerância das ruas. “Foi o dia mais feliz da minha vida. Durou pouco…”, lamentou a travesti Marta Sá, 60 anos, diante da casa em ruínas, onde morava e mantinha um pensionato.

O imóvel, localizado na esquina da rua da Poeira com o beco do Vintem, na Baixa do Sapateiro, foi incendiado na madrugada do dia 9 de setembro de 2013. O homem a quem ela negou o aluguel de um quarto é o suspeito de ter praticado o crime.

Após perder casa onde mantinha pensionato, Martinha sobrevive graças a amigos (Foto: Joá Souza l Ag. A TARDE)

“Tantos esforços que eu fiz, tanto trabalho que eu tive para juntar dinheiro para comprar esse imóvel e, por questão de homofobia, olhe como está”, lembra. Martinha, como é conhecida,  acredita que o crime foi motivado pelo fato de ela ser uma travesti pois o suspeito disse: “Se eu pudesse, vocês ‘viados’ morriam assim, todos queimados”.

Desde então, ela vive e come de favor na casa de amigos e luta para conseguir reformar o imóvel e poder voltar a morar lá. Isso porque, Martinha sempre se preocupou em ter uma casa onde pudesse viver com segurança e um pouco de conforto na velhice.

Ela buscou ajuda para reformar a casa em vários órgãos públicos. Mas sem sucesso. O IPAC e o IPHAN informaram que o imóvel não é tombado e nem está em área de tombamento. “Eu queria que alguém fizesse uma campanha para me ajudar”, apelou.

O imóvel Nº 9 da rua da Poeira representa o trabalho de uma vida inteira como prostituta em busca de segurança, inclusive em países da Europa. E é justamente a esperança de ver a casa reformada que lhe dar forças para continuar, apesar das dificuldades. “Eu já pensei até em me suicidar”, disse emocionada. Ela revelou ainda sofrer de uma doença incurável.

Tiros de chumbo

Na Pituba, moradores de quatro prédios localizados na Avenida Manoel Dias da Silva, externaram o preconceito contra as travesti por meio de tiros de chumbo. De cima dos edifícios, jovens atiram nas travestis que ficam no trecho entre as ruas Pará e Maranhão.

Tanto Lohainy, 20, quanto Isabela, 21, afirmam já terem sido ferida na perna por esses tiros. “Fiquei assustada, quando vi o sangue escorrer. Incomoda e dói muito”, afirmou Lohaine. Já Isabela, 21, conta que, certa vez, um dos tiros só não acertou o olho porque ela estava com óculos.

“É horrível. A bolinha fica presa na perna da gente. Eu trabalho no Itaú. Não posso ficar lá porque os tiros vêm no meu rosto. São dois ‘playboyzinhos’. Fico da árvore para lá. Se a agente apontar na esquina, eles atiram. Isso é preconceito. É homofobia. Eles estão impedindo a gente de trabalhar, associando a prostituição ao que querem”, conta Isabela.

As agressões com tiros de chumbo começaram em agosto e, como permaneceram, algumas travestis procuraram o Núcleo LGBT da Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Desenvolvimento Social (SJDHDS), coordenado pela também travesti Paulete Furação.

Segundo ela, houve uma reunião com três travestis vítimas dessa violência, representantes dos condomínios e o coronel Ramalho Neto, da Superintendência de Prevenção à Violência, da Secretaria de Segurança Pública (SSP-BA). “Solucionamos essa questão por meio de conciliação. Acionamos os síndicos, que acionaram os moradores”, informou Paulete Furacão.

Como se não bastasse, as travestis ainda são alvo de homens que param os carros como se estivessem interessados em fazer um programa, mas as agridem com extintor de incêndio quando elas se aproximam. Na noite do dia 2 de outubro, um homem em um carro branco as agredia dessa forma nas ruas da Pituba.

Isabela: tiros de chumbo começaram em agosto (Foto: Joá Souza l Ag. A TARDE)

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