Irís e Zelza: duas histórias que ilustram dissabores vividos por pessoas trans

Gésner Braga

Íris Simões é uma mulher transexual de 26 anos que mora em Salvador e, atualmente, enfrenta um drama comum na vida de pessoas trans: a falta de oportunidade no mercado de trabalho. Ela é cabeleireira e, mesmo sendo este um ramo de atividade acessível e liberal, Íris engrossa as estatísticas do desemprego, mal do qual padecem as pessoas quem romperam com padrões socialmente impostos pela simples e justa necessidade de afirmação da própria identidade.

Mas nem sempre foi assim. Íris traz em seu currículo profissional experiência na área para a qual está capacitada e função que sempre desempenhou com muita responsabilidade e dedicação. Dessa época, ela carrega boas lembranças. “Apesar de eventuais trocas de pronomes – masculino ao invés de feminino – minhas colegas de trabalho sempre me respeitaram e me viam como realmente sou: uma mulher. Havia um saudável clima de descontração e eu me divertia muito”, lembra com saudades.

Hoje Íris observa algumas barreiras e adversidades que parecem intransponíveis. “Sabemos que nosso país passa por um momento economicamente delicado, o que dificulta nossa busca por emprego, mas, no meu caso, eu sou obrigada também a atribuir ao preconceito as dificuldades que ora enfrento. A discriminação vem sendo um algoz na minha vida”, analisa.

Ela relata que enfrentou grandes dificuldades antes do seu primeiro emprego, situação que hoje se repete no seu esforço de reinserção no mercado. “Infelizmente, no Brasil, as mulheres transexuais são marginalizadas, por conta de uma visão generalista e distorcida. Com o tempo, eu mostrei que posso ser e efetivamente sou diferente dos rótulos e consegui desmistificá-los”, afirma.

Um dos aspectos apontados como as chaves que lhe trancam as portas de acesso ao trabalho é o constrangimento que vive ao ostentar uma identidade de gênero que não corresponde ao que sinaliza seu documento de identidade civil. Por essa razão, Íris deu entrada em um processo judicial para retificação de nome e gênero. Uma vitória já foi alcançada, e a sentença judicial lhe garantiu a mudança do nome. Porém, o sexo ainda não pode corresponder ao gênero com o qual ela se apresenta, razão pela qual a Defensoria Pública da Bahia deu entrada em recurso.

Não é preciso discorrer sobre este fato em particular para saber que conflitos entre aparência, nome e gênero no registro civil geram frequentes situações de embaraço, preconceito e discriminação, cerceando oportunidades mesmo para pessoas comprovadamente qualificadas e competentes, situação recorrente para a quase totalidade de travestis e pessoas transexuais no Brasil, país marcado por uma cultura machista e transfóbica.

A história de Zelza Silva, mulher trans de 24 anos, também residente em Salvador, não é diferente. Graduada em Educação Física, queixa-se do alijamento que sofre do mercado de trabalho e está convencida que a transfobia é o principal motivo pelo qual ela está desempregada, condição que já lhe aflige há mais de um ano. Mesmo reconhecendo que algumas pessoas trans já conquistaram a dignidade que uma ocupação remunerada e regular proporciona, ela ainda considera esses poucos casos como exceções a uma regra maldita: as portas fechadas.

Tal como Íris, Zelza traz experiência comprovada em seu currículo. “Eu trabalhei no Serviço Social da Indústria (SESI) como instrutora de educação física, inicialmente como estagiária, mas efetivada após a conclusão do curso superior, tendo permanecido lá por um ano e posteriormente demitida em razão da necessidade de enxugamento de quadro de pessoal”. A má notícia chegou no final de 2015.

Ao longo de 2016, Zelza teve uma brevíssima experiência como recepcionista e posteriormente como coordenadora pedagógica para uma instituição que presta serviços comunitários no bairro de Pernambués, em Salvador. Porém, o serviço durou apenas o lapso de substituição de alguém que estava temporariamente ausente. No final daquele ano e início de 2017, os ventos pareciam soprar em seu favor, quando participou de uma seleção profissional, tendo realizado inclusive exames admissionais, porém não logrou aprovação na última etapa, o que lhe causou profundo abatimento.

O perverso modelo social excludente que vitima e oprime travestis e pessoas trans responde diretamente pelos índices que registram a prostituição como único meio de sobrevivência para 90% dessa população, não constituindo portanto uma opção, mas exatamente o oposto, ou seja, a falta dela. No que depender do empenho de Zelza Silva, seu futuro será necessariamente outro. A conquista de um diploma de nível superior não foi à toa. Foi por um sonho que ela ainda persegue, foi por um projeto de vida que quer concretizar. Que assim seja.

Quanto à retificação de nome, Zelza recorreu aos serviços prestados pelo Centro de Referência LGBT da Prefeitura de Salvador, que funciona no bairro do Rio Vermelho, tendo realizado uma primeira consulta com o advogado da instituição, mas ainda não foi dada entrada na petição judicial. Uma dura batalha a ser vencida, ela sabe, mas persistirá, pois reconhece na alteração do registro civil um direito que não lhe pode ser negado.

O Dia Nacional da Visibilidade Trans é comemorado hoje, 29 de janeiro. São inegáveis algumas conquistas nos últimos anos, mas, como se vê, ainda é pouco, muito pouco para se atingir a dignidade plena como pessoa, um princípio constitucional. A estrada é longa e, exatamente por isso, obstinação é palavra de ordem.

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