Imagem negativa das religiões cresce no Brasil, analisa pesquisador da UFSCar

Publicado pela Universidade Federal de São Carlos, em 28 de março de 2016

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O cartunista Latuff retrata o discurso de ódio
da bancada evangélica do Congresso contra pessoas LGBT

A religião parece estar sendo vista no Brasil, em grande medida, não mais como uma aliada na luta por direitos humanos e cidadãos, mas sim, contrariamente, como empecilho a eles. Essa é a análise do professor do Departamento de Sociologia da UFSCar, André Ricardo de Souza. Ele publicou um artigo sobre o tema na revista Contemporânea.

Segundo o pesquisador, no Brasil de hoje, há indivíduos, grupos e instituições contribuindo para uma imagem negativa da religião como um todo em diversas vertentes religiosas. Entre o segmento mais afetado por essa interpretação negativa, o pesquisador aponta os evangélicos. “Embora sem exclusividade, atualmente, há predominância em determinados indivíduos e grupos evangélicos”. São exemplos os ativistas que exercem importantes cargos parlamentares, como o atual presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, e o deputado que presidiu a Comissão de Direitos Humanos daquela casa, o pastor Marco Feliciano.

Isso ocorre, segundo André, porque algumas lideranças religiosas ainda cultivam posturas no limite da beligerância. Alguns grupos ameaçam e chegam a cometer crime por intolerância religiosa. “Esse é o lado negativo de algumas religiões, sobretudo das que não se pautam pela alteridade e respeito ao outro, mas no proselitismo”, explica.

Para ilustrar esses posicionamentos autoritários, André cita a militância política, feita principalmente por parlamentares que representam grupos religiosos. “Tornam-se parlamentares, muitas vezes, devido à projeção obtida por meio da aparição constante em programas de rádio e televisão. Por sua vez, as emissoras religiosas e os horários alugados de emissoras laicas decorrem de intensa arrecadação financeira, fechando assim o ciclo entre religião, economia e política”, analisa.

Os agentes que contribuem para um quadro negativo das religiões se caracterizam, segundo André, pelos traços de intolerância, intransigência e homofobia. “A intolerância se refere à rejeição do diferente e sua discriminação por ser considerado pecaminoso ou impuro. Por sua vez, intransigência significa a recusa da busca de diálogo pautado por parâmetros respeitosos e democráticos devido à prevalência do pensamento e do discurso dogmático e autoritário. Já a homofobia diz respeito não só à discriminação, mas também à perseguição, até violenta, de membros da população LGBT”, diferencia André. “Tais posturas, porém, são encontradas também em indivíduos não religiosos”, complementa.

Religião e religiosidade

Para analisar o fenômeno religioso e suas conexões com outras dimensões da vida em sociedade, André desenvolve, na UFSCar, pesquisa em sociologia da religião. Segundo ele, esses estudos, atualmente, voltam-se não só para a religião enquanto algo que abarca instituições, grupos e doutrinas, mas também para a religiosidade, que é algo próprio do indivíduo, a despeito desses itens. “Há muitas pessoas que declaram ao Censo do IBGE serem ´sem religião´, mas que efetivamente têm religiosidade”.

Um exemplo disso é Adilson Sanches Marques. Ele se considera espiritualista e não tem nenhuma religião específica. “Eu vou com a mesma disposição participar de uma missa em uma igreja católica, tomar um passe e ouvir uma palestra em um centro espírita ou mesmo ir bater um papo com um preto-velho em um terreiro de umbanda. Eu respeito todas as religiões e formas de manifestação do sagrado”, explica Adilson, que é coordenador do Programa Homospiritualis, por meio do qual é mantido o Observatório Social da Liberdade Religiosa, em São Carlos.

Apesar das críticas que vêm sofrendo ao longo da história, as religiões podem, segundo André, ajudar na luta pelos direitos humanos e cidadãos. “Elas contribuem na medida em que pregam e efetivamente promovem a reconciliação, a tolerância, o diálogo inter-religioso, o auxílio a pessoas necessitadas e também a proposição e reivindicação de políticas públicas igualitárias e democráticas”, afirma o professor.

É o que pensa, também, a católica Maria Lúcia Paganelli, que durante sua graduação em História, pesquisou o Padre Teixeira, já um santo do catolicismo popular de São Carlos. Ela acredita que o fenômeno da construção negativa das religiões acontece não só no Brasil, mas no mundo todo, principalmente, por conta do fanatismo religioso que leva à contramão o sentido da religião. “Ligar os povos, unir os irmãos em busca da paz, transformou-se em ódio porque o outro não pensa como eu. O estrangeiro desesperado, que foge de uma situação de guerra, não encontra em novas terras dignidade, mas desconfiança e indiferença por causa da sua religião. Extremismo religioso é sempre a violência contra a paz”, conclui. Adilson também reforça a importância do diálogo inter-religioso e da tolerância. “O principal deveria ser fortalecer o contato com o sagrado e o espiritual e auxiliar na construção de uma cultura de paz. Os diálogos inter-religiosos deveriam focar nesta questão”.

Sociologia da Religião

Para o pesquisador da UFSCar, a compreensão sociológica dos fenômenos religiosos contribui para uma visão objetiva e crítica desse importante traço da vida social que é a religiosidade em face do Estado laico, além de fornecer elementos para o pensamento contrário à intolerância e à discriminação, tanto de pessoas religiosas, quanto das não religiosas.

As pesquisas sobre religião desenvolvidas na UFSCar estão concentradas no Núcleo de Estudos de Religião, Economia e Política (Nerep), fundado em 2010 e que conta, atualmente, com seis pesquisadores doutores, 16 estudantes de pós-graduação e dois de graduação, sob a coordenação do professor André.

Entre os temas que estão sendo pesquisados pelo Nerep estão o trabalho assistencial feito por espíritas kardecistas, católicos e evangélicos; a expansão de religiões amazônicas no Sudeste; e a relação entre sexualidade e prática religiosa. Também há pesquisas que focam o respaldo político para emissoras televisivas ligadas a igrejas; e as implicações do turismo religioso como atividade econômica. “Tais estudos geram conhecimento qualificado sobre o modo como os indivíduos e grupos vivenciam sua religiosidade, inclusive na intersecção com outras dimensões sociais, como a sexualidade, a política e a economia”, afirma André. “A relação entre religião e política é mais evidente, por isso mesmo, mais pesquisada pela sociologia da religião. Já a relação entre religião e economia é menos explorada cientificamente, portanto, havendo no Nerep certo pioneirismo quanto a isso. A religião influencia condutas políticas e também econômicas de indivíduos e grupos, porém, é pautada por essas duas esferas, que são as de maior força no mundo moderno”, conclui o docente.

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