Homofobia e transfobia são realmente ruins para a economia

Estudo do Williams Institute identificou uma correlação positiva entre mais direitos para pessoas LGBTQ e PIB maior.

Philip Ellis, escritor freelance e jornalista
Publicado pelo portal HuffPost Brasil, em 30 de junho de 2017

No dia 2 de junho, para marcar o começo do mês do Orgulho LGBTQ, Ivanka Trump tuitou: “Tenho orgulho de apoiar meus amigos LGBTQ e os americanos LGBTQ que fizeram enormes contribuições para nossa sociedade e economia”.

É exatamente o tipo de afirmação que esperamos de Ivanka; sem graça e inofensiva na superfície, mas preocupante no momento em que você realmente pensa sobre a declaração. O que ela está dizendo aqui? Que um americano LGBTQ só tem valor se está contribuindo para a economia? Que o desproporcional número de americanos LGBTQ que estão desabrigados ou vivendo na pobreza, não justificam o apoio?

Posso imaginar o tipo de mensagem que Ivanka estava tentando transmitir. Sendo filha de um dos mais destacados capitalistas no planeta, ela provavelmente pensou que elogiar as contribuições econômicas da comunidade LGBTQ é semelhante a agitar uma bandeira do arco-íris e cantar “I Am What I Am”. (Não é).

O irônico é que, embora as pessoas LGBTQ possam, de fato, contribuir para a economia dos Estados Unidos, Ivanka, com sua posição nebulosa na Casa Branca, é cúmplice em realmente impedir que as pessoas queer avancem e impulsionem ainda mais o crescimento econômico do país.

Não estou falando aqui sobre o mítico “pink pound” (expressão britânica que significa o dinheiro gasto pela comunidade LGBTQ), mas senso comum básico. Em um estudo com 39 países desenvolvidos e em desenvolvimento, o Williams Institute identificou uma correlação positiva entre mais direitos para pessoas LGBTQ e PIB maior. E, embora existam todos os tipos de fatores em jogo aqui, há uma lógica para isso.

A posição de uma nação sobre os direitos das pessoas LGBTQ tem um impacto direto no potencial econômico desses indivíduos. Ela determina onde vivem, onde trabalham, seu acesso à educação e assistência médica e se são ou não protegidos pela lei contra perseguições. Isso significa que a posição de uma nação sobre as pessoas LGBTQ também tem um impacto direto em seu desempenho acadêmico, perspectivas de emprego, potencial de salário e até mesmo expectativa de vida — todos fatores essenciais para a capacidade de um cidadão funcionar dentro de uma sociedade e contribuir para a economia.

A discriminação na escola ou no local de trabalho tem um custo muito real; resulta em fracasso nos exames e horas perdidas de trabalho, ambos os quais são um desperdício de capital humano. O que significa que proteger os direitos das pessoas LGBTQ não é apenas uma questão de direitos humanos, mas também econômica.

Quando um cidadão trans é impedido de usar um banheiro na escola ou no trabalho, estão essencialmente excluindo-o de participar da vida cívica. Todas as vezes que alguém é demitido de seu trabalho em razão de sua sexualidade, como ainda é legalmente permitido nos Estados Unidos, isso equivale à uma perda de estímulo na economia do país.

Se há um país que não pode mais perder nenhum estímulo, economicamente falando, é o Reino Unido. Neste momento, nosso governo conservador parece estar rumo a uma coalizão com o DUP, conhecido por suas políticas retrógradas em relação aos direitos das pessoas LGBTQ e das mulheres. Esta aliança, dizem, fortalecerá as chances de a Grã-Bretanha conseguir um bom acordo no Brexit, sustentando nossa economia. O que os “tories” estão aparentemente deixando de considerar é que pular na cama com um partido que não esconde sua negação da mudança climática, sua homofobia, sua trasfobia ou visões pré-guerra sobre o aborto, poderia levar a uma morte econômica e social resultante de todos esses fatores.

E tudo isso sem sequer entrar no argumento de que as empresas que discriminam são mais propensas a enfrentar boicotes por parte dos antenados consumidores da geração do milênio. Segundo uma pesquisa da Cone Communications and Ebiquity, 90% das pessoas estão dispostas a boicotar uma marca se não sentem que a empresa adota valores que são importantes para elas.

Por outro lado, 88% dos consumidores serão mais leais a uma marca que ativamente apoia questões sociais progressistas, e estatísticas da Economist Intelligence Unit sugere que as empresas que promovem a inclusão de indivíduos LGBTQ podem ser até 30% mais produtivas.

Há certo ceticismo atualmente entre a comunidade LGBTQ em relação às corporações que decidem participar do Orgulho LGBTQ. Bancos e supermercados que adornam seus logos com as cores do arco-íris realmente apoiam clientes e funcionários LGBTQ ou estão simplesmente, cinicamente, buscando uma vitória fácil no campo das relações públicas? Vai saber.

O que realmente sabemos é que as empresas que contratam e servem pessoas queer podem ganhar mais dinheiro do que aquelas que não o fazem. E essa abordagem aberta, inclusiva, igualitária de comércio beneficiará mais a comunidade LGBTQ do que um tuíte de Ivanka Trump escrito por um comitê.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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